Eagles of Death Metal, Liberdade Eléctrica

Eagles of Death Metal, Liberdade Eléctrica

2016-09-11, Coliseu dos Recreios
Carlos Garcia
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A política ficou à porta. Como ficou o aparato policial, o medo de um mundo ultra securitário e a violência extremista.

A anedota que costuma pairar à volta dos Eagles of Death Metal é que eles não soam à Eagles ou a Death Metal. A origem do nome, supostamente, terá tido lugar quando Jesse Hughes (ou Boots Electric ou J. Devil ou Fabulous Weapon) e Josh Homme (ou Carlo Von SexRon ou King Baby Duck ou J. Ho) terão visto um tipo embriagado a dançar desbragadamente ao som de “Wind of Change”, num bar qualquer de má reputação. Ao questionar o ébrio do porquê da exaltação, este terá respondido «Isto é Death Metal!», ao que Homme contrapôs «Não, isto são como os Eagles do Death Metal».

Verdade ou lenda, nunca se deve deixar um bom nome ir para o caixote do lixo da memória, especialmente quando se pode, não só construir uma banda a partir dele, como o próprio nome se tornar de certa forma a raison d’étre da mesma. Os Eagles transportam na própria denominação a reverência e a iconoclastia pelo género musical onde se inserem. Além de possuir uma ressonância fonética que ficará sempre bem para anunciar a banda a qualquer auditório, juntar duas imagéticas tão distintas do Rock ‘n’ Roll, de certa forma, transfigura o próprio som da banda. Os ritmos do deserto ganham uma dimensão quase épica, de certa forma cartoonesca, maior que a vida. Os Eagles of Death Metal parecem às vezes ser a versão paródia de si próprios.

A verdade é que o público que está no Coliseu, assim como público que esteve no Bataclan, marca a presença pela música e pela devoção.

A aterragem no Coliseu dos Recreios não foi propriamente suave. Qualquer ideia de que era possível separar a banda e o seu som dos eventos em que estiveram envolvidos o ano passado, é rapidamente dissipado pelo aparato policial à porta do Coliseu. Os EODM tiveram a vicissitude do destino de ser a banda sonora do mais mortífero ataque terrorista em solo francês. Foi durante um concerto seu no Bataclan que Islamitas massacraram dezenas de fãs da banda. Qualquer consideração ideológica sobre ataques à liberdade ou ao modo de vida ocidental serão porventura reducionistas e não têm lugar numa crónica sobre música. Mas é impossível ficar impassível ao pensar em tanta gente a tombar de forma tão selvática no que seria uma noite de celebração. E ao passar-se por barreiras, uniformes, revistas e armas, num dia 11 de Setembro, é difícil não sentir de forma palpável o quanto o mundo mudou nos últimos. O quanto estamos muito mais condicionados pelo medo. E o quanto se tornou muito menos inocente o acto de sair de casa para se ir sentir no peito os acordes que normalmente ressoam nos ouvidos. Porque a verdade é que o público que está no Coliseu, assim como público que esteve no Bataclan, marca a presença pela música e pela devoção.

Mas agora há também um desafio, um acto quase político. A sensação de viver em tempos que facções de ideologias, aparentemente, diferentes (mas cujo o cheiro bafiento denuncia a sua profunda semelhança) emergem para tornar o mundo um sítio muito mais puritano e cinzento. Um decote pronunciado ou a distorção de uma Fender talvez venham a ser coisas tão chocantes para os nossos netos como foram para os nossos avós, e nós, criaturas da viragem do milénio, talvez tenhamos vivido uma época histórica de excepcional liberdade sem o sabermos. Talvez!

A esperança consiste em constatar o quanto estas reflexões se dissolvem ao entrar na sala do Coliseu, e perceber que já se pode despir a pele de activista político ou resistente ideológico. Está-se aqui para ouvir Rock ‘n’ Roll! Ponto. Os EODM provém das sessões promovidas por Homme no Rancho de la Luna. Jam session improvisadas no centro de um dos locais míticos da história do Rock, situado à sombra e ao sol de Joshua Tree. De certa forma esta é a escola ideológica do movimento do Desert Rock ou Stoner Rock. Deserto, bourbon, mescalina, guitarras, desgarradas: Homme foi, nos anos noventa, um dos homens chave dos Kyuss, a banda seminal do movimento, e sempre reclamou como inspiração os concertos improvisados no meio do nada, alimentados pelo diesel dos geradores manuais e onde à influência psicadélica dos Grateful Dead se juntavam influências latinas vindas do outro lado da fronteira. É este o caldo cultural e musical onde nasceram os Eagles, e é bom saber que são os ventos deste deserto que por aqui sopram e não os do Levante.

Mr. Boots Electric é um daqueles personagens que só pode existir em cima de um palco.

Curiosamente, Homme é a figura ausente das digressões dos EODM. Apesar de ser fundador e membro oficial junto com Boots, a militância nos Queens of the Stone Age e a impossibilidade de se desdobrar, fazem com que recaia em Boots todo o foco de atenção. Coisa que não parece incomodá-lo por aí além. Boots Electric não parece ter nascido para passar despercebido e discreto pela vida, e muito do que faz os EODM resultar, passa por ele. Oferece beijinhos, conta histórias, percorre o palco de lado ao outro para ir ao encontro dos fãs, abana a anca, atira os foguetes e apanha as canas. Mr. Boots Electric é um daqueles personagens que só pode existir em cima de um palco. Ao longo do concerto, reitera sempre o quanto realmente está feliz por terminar a digressão em Lisboa «Because everybody knows you gotta end it here, with you motherfuckers!» Ou algo do género. Está-nos a dar graxa à boa maneira de «vocês são o melhor público do mundo», ou é sincero? Difícil dizer. Boots é um personagem mas não parece ter artificialismo. É uma extensão dele próprio.

A abertura é com os falsetes e yeah yeahs de “I Only Want You” e “The Reverend”, as músicas que abrem e encerram o primeiro e o último álbum da banda. Logo aqui temos o círculo completo da carreira, e a mostra da consistência estilística do som dos EODM. Boots alisa o cabelo e o bigode: “Shit , Goddam” mete o público, principalmente o feminino, a baloiçar. Boots a fazer olhinhos a uma qualquer Death Metal queen no público? Is Boots electric? Ou irónico?

É um comediante nato, isso é certo. Cujos alvos principais são os seus colegas de palco. Dave Catching faz as funções na guitarra (ou Diamond Dave ou Darlin’ Dave ou Davy Jo ou SnowHawk). Com o seu ar de Pai Natal dos blues do deserto, dá-nos como presente toda uma miríade de riffs de uma fuzzyness dançável. Devemos ter-nos portado bem este ano. Boots andou a remexer no diário de Dave e descobriu toda uma série de confissões escabrosas que não resiste a partilhar connosco. Dave nega tudo. É melhor não repetir aqui o que foi dito no concerto. It stays in Vegas. “Complexity” “SilverLake” e “Oh Girl” transportam-nos por “Zipper Down”. Boots anuncia que o terceiro guitarrista, Eden Galindo é metade português «But it’s the good half, ladies and gentlemen!». “Secret Plans” é um dos refrões mais catchy da banda, e, na introdução de “Cherry Cola”, Boots faz um concurso para avaliar o nível decibélico entre os homens e as mulheres da audiência: o público feminino é anunciado como vencedor, numa avaliação claramente científica e destituída de qualquer tendenciosismo.

A graxa que Boots nos oferece é mais do que muita, mas cai que nem mel.

A finalizar “Now I’m a Fool”, “Save a Prayer” (na qual Boots está estranhamente próximo do tom de Simon Le Bon) e “Love you all the Time” (quase que se espera entrada da voz de Florence Welch a qualquer altura da música).

Para o encore Boots veste o blusão de Bowie e temos um “Moonage Daydream”, com Dave a ter a oportunidade de fazer o seu Mick Ronson. Apesar de “Wanna be in L.A.” Boots confessa que onde quer estar é aqui mesmo em Lisboa. A graxa que Boots nos oferece é mais do que muita, mas cai que nem mel. E é, afinal, o último concerto da digressão, por isso é provável que tenha sido com uma lagrimazinha no olho que a banda tenha concluído as funções. “I Want you so Hard” e “Speaking in Tongues” são o encerramento. Pelo meio ainda ouve uma cover baixo e bateria de “The Final CountDown”, «just because we’re in Europe». Foi o Ba Dum Tssss da noite. Humor redneck? Os Eagles são malta do deserto e não andam muito longe da América profunda. Alguns são capazes de votar Trump. Mas estas políticas também aqui ficam à porta. Como ficou o aparato policial, e o medo de um mundo ultra securitário, e a violência extremista.

É preciso espaços no mundo onde a cabeça pode ser esvaziada de qualquer conteúdo que não seja o de se passar duas a ouvir riffs do deserto e piadas parvas. Onde tudo seja a versão paródia de si próprio. Certa vez estavam a tentar converter Homme ao Death Metal com um álbum de Vader. Ao ouvir o som Homme afirmou que eles eram “os Eagle do Death Metal”. Verdade ou lenda nunca, mas nunca, se deve deixar um bom nome ir para o caixote do lixo.

SETLIST

  • I Only Want You
    The Reverend
    Whorehoppin’ (Shit, Goddamn)
    Complexity
    Silverlake (K.S.O.F.M.)
    Oh Girl
    Secret Plans
    Cherry Cola
    Now I’m a Fool
    Save a Prayer
    I Love You All the Time
  • Moonage Daydream
    Wannabe in L.A.
    I Want You So Hard (Boy’s Bad News)
    Speaking in Tongues