Uma vinda de Benjamin Clementine a Lisboa tem sempre algo de especial – ou, pelo menos, tem tido desde que o cantor, autor, poeta, performance artist explodiu no cenário musical internacional e cá veio (já pela segunda vez) para o Vodafone Mexefest.
É verdade que um Mercury Prize (angariado, em 2014, pelo début “At Least For Now”) faz maravilhas a uma carreira, e isso poderá explicar, numa perspectiva mais desencantada, o motivo pelo qual quatro anos e um álbum medíocre pouco tenham feito para demover o público que encheu o Campo Pequeno para mais uma volta de Clementine. Mas os méritos ou deméritos de “I Tell a Fly” (encaramo-lo, naturalmente, como inferior ao seu predecessor) estão para lá da questão essencial: a de que o talento nato, puro e inadulterado do cantor ao vivo é difícil de ignorar.
O próprio Clementine reconhecia a relativa desvantagem do seu novo disco: «I know you’re here for the old ones», dizia, em tom jocoso, o que não significou que este “I Tell a Fly”, mais instrumentalmente diverso e estruturalmente aventureiro, não proporcionasse bons exemplos do prodígio musical de Benjamin de que há pouco falávamos. Ecoando Chopin, a introdução de “Farewell Sonata” dá rapidamente lugar a “God Save the Jungle”, a que se segue “Phantom of Aleppoville”, três dos momentos mais memoráveis deste novo Clementine. A sua voz possante quase que abafaria os restantes instrumentos (com o contributo de um som deficiente que, devagar, ia assumindo melhores contornos neste Campo Pequeno) e a técnica, já admirável a olhos vistos, que demonstrava no piano conferia a todo o espetáculo uma grandeza que o tornaria, para todos os efeitos, difícil de esquecer.
Mas os méritos ou deméritos de “I Tell a Fly” (encaramo-lo, naturalmente, como inferior ao seu predecessor) estão para lá da questão essencial: a de que o talento nato, puro e inadulterado do cantor ao vivo é difícil de ignorar.
Infelizmente, foi mais ou menos isto o que de bom se pôde retirar, pelo menos no que concerne a “I Tell a Fly”. Temas como “One Awkward Fish”, “By the Ports of Europe” e “Ave Dreamer” seguiram-se uns aos outros indignos de nota, e com tão pouco brilho quanto ao que se há de encontrar nas versões de estúdio. Felizmente houve, em compensação, uma mão cheia de temas impecavelmente executados de “At Least For Now” que muito pesaram no geral do concerto. A começar em “Winston Churchill’s Boy”, o Campo Pequeno teve direito a secção de cordas, com contrabaixo, violoncelo e dez violinos, um fantástico complemento que voltou a surgir em “London” e “Adiós”, a suposta última música que deu lugar a um tema impromptu, que Clementine conduzia à guitarra. Um final contra intuitivo para um concerto de altos e baixos, mas que no seu centro guardou sempre a verdade inamovível da musicalidade de Clementine.
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