Festival do Crato, 27ª edição.

2011-08-24, Crato
Redacção

DIA I

O Festival de Artesanato e Gastronomia do Crato já vai na 27ª edição, e decorre durante 4 dias no centro da cidade. Se, por um lado, a curiosidade dos visitantes centra-se nas bancas de artesanato, aqui e ali; por outro, existem milhares de ouvidos atentos ao que se passa no palco deste evento.

Muita música portuguesa invadiu o palco nestes dois primeiros dias, num festival que contribui, definitivamente, para que a música portuguesa goste, realmente, dela própria.

A abertura do Festival do Crato ficou, mais uma vez à responsabilidade da Filarmónica do Crato – uma tradicional actuação, que os mais antigos não deixam passar despercebida.

Depois das honras de abertura, chegara a vez de Marco Rodrigues pisar o palco, sendo o único artista a trazer o fado ao Crato. Acompanhado por dois guitarristas, entre os quais o bem conhecido Luís Guerreiro (Mariza, Celeste Rodrigues, etc), Marco Rodrigues apresentou o seu mais recente trabalho “Tantas Lisboas”.

Como já havia sido anunciado, este vencedor do Prémio Amália Revelação trouxe como convidada especial a fadista alentejana, Alexandra Martins. Esta talvez se  tenha revelado a parte mais fraca desta actuação, pela timidez vocal, ou até mesmo falta de alma na voz. Alexandra Martins terminou o seu papel com “Casa Portuguesa”, fado bem conhecido de todos nós. Talvez por essa mesma razão tenha ficado provado que nem sempre o público faz o artista. Por mais que a plateia cantasse, Alexandra Martins ficou muito aquém da intensidade exigida pela alma que o fado requer.

Terminado este convite especial, Marco Rodrigues volta à voz, e termina o concerto com alguns temas mais conhecidos, destacando-se sempre a mestria do guitarrista Luís Guerreiro.

Os ânimos estavam calmos, e após algumas horas de tradição e Fado, o palco enche-se de movimento, energia e cor.

Os Expensive Soul invadiram o palco, e encheram-no de música, com a energia contagiante de 13 músicos; guitarra, baixo, bateria, percussão, trompete, saxofones, 2 vocalistas cheios de energia, acompanhados de um coro bem-disposto e em total sintonia – foram os ingredientes desta explosão de som Uma invasão caracteristicamente soul/funk com algum hip hop à mistura, que soltou a energia dos mais de 8,000 ouvintes que se deixaram contagiar.

New Max e Demo (MC) conduziram o público pelas estradas de “Só Contigo”, “O Show Não Vai Parar”, “O Amor é Mágico”, “13 Mulheres”, “Eu Não Sei”, temas que evidenciaram aquele que foi o melhor som da noite.

Foi através do excelente trabalho de sopros, do coro inspirado, do som perfeito sacado da Gibson ES-335 e da Fender Telecaster que se deixavam ouvir em palco, que os Expensive Soul completaram mais uma data na digressão do seu trabalho “Utopia”.

Fica no ar se os Expensive Soul terão, ou não, sido a banda portuguesa que mais marcou este Crato…

 

DIA II

Íamos no 2º dia do Festival do Crato, e o começo não foi o melhor. Jominho surge em palco, a “jogar em casa”, acompanhado de um violoncelista e um guitarrista, entoando músicas muito nossas, deixando-nos ouvir temas de artistas como Zeca Afonso, e outros tantos bem tradicionais.

Um início parado, que acaba por revelar este hábito festivaleiro de ficarmos presos a artistas conterrâneos que fazem o que já foi feito. Musicalmente falando, o pouco público que chegou mais cedo deparou-se apenas com um repertório construído à conta da genialidade de uma geração eterna.

Depressa as poucas centenas de pessoas que se encontravam no público passaram a ser cerca de 14 mil, prontas para a actuação dos Homens da Luta.

Neto, Falancio e as suas “personagens” entraram em palco, prontos para “a luta”, num começo algo atribulado, sonoramente. Já seria de esperar a paródia que este projecto iria oferecer aos seus fãs, e o que é certo é que os Homens da Luta conseguem exaltar os ânimos, e fazer gritar palavras de protesto. Temas como “E o Povo, pá?”, “A Luta é Alegria”, ” Está Caro!”, e até um tema novo, feito especialmente para a despedida de José Sócrates do governo – foram ouvidos, cantados e gritados por todos os que se encontravam no recinto.

Chegam os Deolinda, e fecham o 2º dia do Crato. Depois de uns Homens da Luta bem energéticos, os Deolinda vieram tranquilizar os ouvidos de uns, e arruinar o espírito de outros. Se por um lado Ana Bacalhau conquistou ouvidos e olhares atentos com a sua expressividade em palco, por outro demasiada gente a dispersou, em busca de “reabastecimento” de energia.

Mesmo com a versatilidade de José Luís Martins (guitarra clássica, ukulele, viola braguesa), o desempenho bem conseguido de José Pedro Leitão no contrabaixo e Pedro da Silva Martins na guitarra clássica, talvez os Deolinda não tenham sido a melhor escolha para fechar esta 2ª noite.

Aguardam-nos os dois últimos dias deste festival regional, com as actuações de nomes bem conhecidos como: Clã, Legendary Tigerman, Gabriel o Pensador e Gotan Project.

 

DIA III

Caminhávamos rumo ao 3º dia deste Festival do Crato, e a curiosidade sobre o primeiro projecto a pisar o palco era muita. Guitolão World Project soava a estranho, mas toda a história por trás deste projecto fez arrepiar a pele a muitos.

Estávamos na década de 70, e de uma conversa entre Carlos Paredes e Gilberto Grácio (guitarreiro da família Grácio), nasce o desejo de uma nova guitarra. Uma guitarra com um corpo idêntico ao da Guitarra de Coimbra, mas com uma escala maior; que iria permitisse outras sonoridades e inclusive outras afinações. Gilberto Grácio dá então corpo à imaginação de Carlos Paredes, fazendo uma Guitarra Barítono, que o guitarrista experimentou, mas que não alcançava o timbre pretendido.

Porém, Gilberto Grácio não desiste da ideia, e já com Carlos Paredes doente e acamado, o construtor Grácio completa a ideia e inventa um novo instrumento – o Guitolão. Este novo instrumento, foi apresentado pela primeira vez ao público em 2005. Foi o compositor e instrumentista de Portalegre, António Eustáquio, que o estreou, o mesmo que pisou o palco do Crato nesta edição. Guitolão World Project apresentou, assim, músicas do mundo; sonoridades diferentes, mas inesquecíveis, terminando a acutação com o tema “Raiana”- uma homenagem à zona fronteiriça entre Portugal e Espanha.

Chegara a vez de Manuela Azevedo e o(s) seu(s) Clã contagiarem o público do Crato. Apresententado temas do último trabalho – Disco Voador – os Clã espicaçaram a energia dos ouvintes, começando com “Amigo do Peito”. Mas foi com o, já clássico, “Problema de expressão” que a voz da assistência se fez ouvir. Mais temas percorreram os 19 anos de história dos Clã, e Manuela Azevedo abre ainda mais o apetite com “Chocolatando”, atingindo o auge com “Corda bamba”. A festa dos Clã terminava ali, mais ainda houve tempo para mais um tema – tema esta que foi repetido. “Amigo do Peito” volta ao palco, e fica a dúvida se terá sido a melhor forma de fechar a actuação.

 

O momento mais aguardado da noite estava prestes a acontecer. O público já chamava pelo rapper Gabriel o Pensador, e pouco depois, este chegava ao palco com “Deixa Quieto”. Gabriel, bem conhecido de todos nós, abriu portas a temas como sexo, corrupção, violência e injustiça, através do seu hip hop de intervenção. Temas que muitos acompanharam, em gritos de revolta, numa métrica rápida e filosófica, bem característica deste rapper.

Gabriel levou a palco novos músicos de sessão, que dificilmente irão ser esquecidos, como o caso dos dois guitarristas que tiveram espaço para mostrar os seus dotes vocais. “Lavagem”, “Cachimbo da Paz”, “Nunca Serão”, “Se liga aí”, “Tás a ver”; um leque variado de canções que noslevou a uma viagem pela carreira de Gabriel. Mais um artista que encheu o palco de cor, energia e música, desta vez para nos fazer pensar, reflectir e desejar que Gabriel volte rapidamente – ainda que em albúm, tal como ficou prometido neste Crato.

 

DIA IV

Último dia do Festival do Crato, e a banda de abertura deixou muito a desejar. David Almeida “Grupe” e a sua Gibson Les Paul tocaram temas com solos infinitos, recheados de enganos e desenganos – mas que ainda assim conseguiu agradar a alguns ouvintes. Muitas vezes, os solos não fazem os guitarristas, bem como vice-versa. Neste caso, faltou alguma humildade, e sem dúvida que este projecto, a par com Jominho, destoou de tudo o que se passou no restante Crato.

É impossível falar de Blues em Portugal sem referir o nome The Legendary Tigerman.

Paulo Furtado subiu ao palco com o seu estilo incontornável, de óculos escuros e com hits bem conhecidos como “Naked Blues”, “Route 66” ou “These Boots are made for Walking”, que conquistaram a atenção das mais de 10 mil pessoas que o observavam. Um “one man show” repleto de imagens em palco, experiências na pequena mesa de som, guitarradas e muito estilo, brindado com aplausos intermináveis. “The Big Black Boat” foi o último tema, e Paulo Furtado desceu do palco, misturando-se com as restantes pessoas. Uma actuação brilhante, que anulou por completo a desilusão do grupo anterior.

O fim aproximava-se, e a ansiedade tomava forma. Gotan Project colocam em palco classe, tango, sensualidade e versatilidade. E o Crato não seria excepção.

Philippe Solal, Eduardo Makaroff e Christoph Müller abrem portas a um dos maiores espectáculos sonoros e visuais da actualidade. Tendo a Arte Sonora seguido os passos deste projecto em outros locais/datas (Campo Pequeno/09), talvez o formato de festival não seja favorável ao que a banda pretende alcançar em palco. Habituados às várias violinistas em palco, aos dançarinos tangueros, e até a um setlist mais extenso e variado, o espectáculo de Gotan Project não alcançou a sua plenitude.

No entanto, foi sem dúvida o marco deste festival.

Claudia Pannone deu voz a esta tour, dona de uma sensualidade estonteante, ainda que tenha contado com alguns pequenos enganos em temas como “Diferente” e “Época”. Foram muitos os momentos marcantes deste concerto, tais como “Rayuela”, que começa com um excerto de uma prosa do escritor argentino Júlio Cortázar; “La Gloria”, que nos levou a uma viagem electrónica por “Triptico”; “El Mensajero” e “Peligro” que nos seduziram com a voz da Claudia Panonne; e de destacar “Mi Confesion”, que contou, como sempre, com as imagens dos rappers que dão voz ao tema.

Piano, violino, guitarra, duas mesas de som e o bandoneon de Nini Flores  – tudo isto em palco levou a audiência ao rubro, num misto de dança e sensualidade que fechou em grande o cartaz do Festival do Crato.

Cerca de 50 mil pessoas passaram pelo Crato entre os dias 24 e 27 de Agosto, num festival que eleva não só a música portuguesa, como também traz até nós músicos de extrema qualidade.

Até para o ano, Crato!

Por Liliana Alves | Fotos Ricardo Lopes Caixado