Fleet Foxes são raposas esquivas

Fleet Foxes são raposas esquivas

2017-07-08, NOS Alive, Passeio Marítimo de Algés
Carlos Garcia
  • 8
  • 8
  • 7
  • 6

A capacidade de uma banda ser bem-sucedida em palco está dependente de uma contingência de factores, objectivos ou subjectivos.

Alguns da responsabilidade do artista em palco, outros inteiramente incontroláveis e imprevisíveis. O momento cultural em que se dá actuação (a capacidade de uma banda captar o zeitgest da época contribui em muito para se gerar um determinada atmosfera em concerto que embora subjectiva, é inteiramente palpável), as condições específicas do recinto, a qualidade do som, etc. Todos estes factores são exacerbados em festivais pois, ao contrário de concertos em nome próprio, o artista vai ser encaixado entre outros que podem em nada coincidir em géneros musicais, vai com grande probabilidade apanhar público que não os conhece e está ali para ouvir outras coisas, tem mais probabilidades de apanhar com um som ao lado. Toda esta introdução para dizer que no caso dos Fleet Foxes temos uma banda de excelência, em boa forma e a tocar um dos seus melhores álbuns, mas Domingo à noite no Heineken algo estava… off.

São uma das grandes bandas do neo folk, apaixonados pelas sonoridades da tradição musical anglo saxónica mas que não se limitam a reciclá-la ad infinitum, nem tem apetência para transformá-la na sua versão mais Disneylândia. Existe aqui um respeito grande pela pureza do folk, mas busca-se novos caminhos desmontando e voltando a juntar os elementos constituintes do género. Assim tivemos em palco 6 músicos com seu ar algo rústico, de quem desceu agora das Apalachia, e uma panóplia de instrumentos. Faz 6 anos desde que eles pisaram este solo da última vez, sendo que agora como então trazem um novo álbum na bagagem, “Crack Up”. Esta justaposição faz com que a transição dos momentos pareça não existente, como se tivesse havido apenas um pequeno intervalo entre as duas actuações para ir buscar uma cerveja e retomar a função. Abrindo pela mesma ordem do álbum, com “I Am All That I Need” / “Arroyo Seco” / “Thumbprint Scar” e “Cassius”, a banda mostra que sabe executar na perfeição a transição entre o intimismo lírico, quase caseiro da gravação e o espaço do palco. E que as novas canções funcionam em perfeita sintonia com as mais antigas. Mais uma vez é como se não houvesse qualquer hiato temporal.

São uma das grandes bandas do neo folk, apaixonados pelas sonoridades da tradição musical anglo saxónica mas que não se limitam a reciclá-la ad infinitum, nem tem apetência para transformá-la na sua versão mais Disneylândia.

“Mearcstapa” é particularmente acutilante, com a sua atmosfera de marinheiro perdido nas ondas. As tradições célticas têm sempre um acolhimento genuíno por estas paragens, assim como os temas marítimos e a brisa que eles evocam e “On Another Ocean” prolonga o sentimento. Os Fleet sabem como construir as canções em palco preservando a sua delicadeza. “Mykonos”, do agora longínquo EP “Sun Giant”, é um óptimo exemplo disso (há algo do melhor Donovan nesta música) e jogo de harmonias vocais no coro é de uma beleza rara.

“Blue Ridge Mountains” e “Helplessness Blues” encerram um concerto onde a banda tocou um lote de excelentes canções de forma primorosa. E ainda assim… Talvez por ser o terceiro dia do festival, talvez o público que estivesse ali realmente para os ver não fosse a maioria, talvez porque tivessem tocado demasiado tarde ou cedo no alinhamento, ou talvez por qualquer outro motivo que seja completamente impossível de realmente objectivar, ficou qualquer coisa de aquém neste concerto. Como se algo estivesse um nada abaixo daquilo que realmente deveria ser. É ainda possível que tudo isto estivesse apenas dentro da cabeça subjectiva quem estava a ouvi-los e a escrever estas impressões. Ainda assim, bandas que possuem esta limpidez musical, e que nos conduzem a um sítio especial dentro de nós merecem sempre ser ouvidos nos seus melhores ou piores dias. Mesmo quando são difíceis de apanhar.

Fotos: Catarina Torres