Ghost na Sala Tejo, A Felicidade de Beijar O Bode

Ghost na Sala Tejo, A Felicidade de Beijar O Bode

2019-12-10, Sala Tejo - Altice Arena
Nero
Inês Barrau
8
  • 8
  • 7
  • 9
  • 6

Fãs de Ghost, de Cardinal Copia e dos Nameless Ghouls de barriga cheia, com uma impressionante torrente de canções carregadas de açúcar auditivo.

O concerto abriu tal como “Prequelle”, o quarto álbum da banda (no qual Tobias Forge assumiu a personna de Cardinal Copia, em detrimento do Papa Emeritus III), com a intróito “Ashes” e, logo de seguida, “Rats”. O público que encheu a Sala Tejo reagiu imediata e euforicamente, cantando no máximo dos seus pulmões o refrão e os coros. De rajada, seguiu-se “Absolution” e “Faith”, com o seu riff de abertura com twin guitars, e a confirmação da ideia de que os Ghost soam mais heavy metal ao vivo.

Foi então que Copia deu as boas-noites a Lisboa e anunciou que iria tocar uma canção de Papa, soando o 60’s rock açucarado de “Mary On The Cross”, do recente EP “Seven Inches of Satanic Panic”. O outro tema ali compilado, “Kiss The Go-Goat”, também herança de Papa, surgiria mais próximo da apoteose final. Em “Miasma”, o boogie instrumental do mais recente álbum, tivemos mesmo o infame Papa Nihil no saxofone, in personna.

Houve bastante celeuma com as trocas de músicos ocorridas no final de 2017 (e continua a existir), mas isso acabou por resultar numa banda bem mais “capaz”. Com melhores intérpretes, com maior versatilidade. Algo mais notório nos Nameless Ghouls que seguram, em cada extremidade do palco, as Hagstrom semelhantes às Gibson RD que, pasme-se, os Ghost ressuscitaram… E a Gibson renunciou aos Ghost!

Agora, os guitarristas usam modelos Hagstrom. Os modelos RD, ou melhor, as Hagstrom Fantomen são instrumentos em mogno, com o sistema de truss rod H-Expander e escala Resinator, com uma extensão de 25.5” capaz de oferecer um pouco de mais definição no ataque, tal como mais sustain do que as escalas mais curtas. Ainda assim, depois da digressão com Metallica, a banda mudou uma vez mais e agora, com o Nameless Ghoul a dividir-se em vários papéis, fixos existem duas teclistas e apenas dois guitarristas – um deles suspeitamos ser Adam Zaars, dos Tribulation.

Com melhores intérpretes, com maior versatilidade. Algo mais notório nos Nameless Ghouls que seguram, em cada extremidade do palco, as Hagstrom semelhantes às Gibson RD que, pasme-se, os Ghost ressuscitaram… E a Gibson renunciou aos Ghost!

Actuando como headliners, os Ghost entregaram-se a alguns clichés dos concertos rock, como o duelo de solos de guitarra encetado antes de “Cirice”. Pecou por excessivo e o entusiasmo em torno do concerto arrefeceu um pouco nessa altura. Valeu pela singela homenagem a Marie Fredriksson, dos Roxette, que faleceu neste dia 10.

Felizmente, após a “saxofonada” de Papa, surgiu uma sequência irresistível com “Ghuleh/Zombie Queen”, “Spirit” (uma favorita pessoal, diga-se) e “From The Pinnacle To The Pit”, daquele que consideramos o melhor álbum da banda, “Meliora”, e o petardo “Ritual”, do primeiro álbum que foi ainda e logo de seguida evocado com “Satan Prayer”.

O ritual estava no seu pináculo. E ainda restavam muitos salmos apócrifos por ouvir. Sinceramente, quatro álbuns, uma série de EPs, e uma mão cheia de canções orelhudas e cheias de swing. Aparentemente tudo oriundo da carola de Tobias Forge. Não vale a pena usar de meias palavras, os suecos são prodígios melódicos, herdeiros dos Abba, e Forge tem um tremendo talento para escrever canções e colocar toda a gente a sorrir diante do Grande Bode e a aclamá-lo, como em “Year Zero”.

Mais, as bandas de rock contemporâneas parecem ter deixado cair uma das maiores armas de arremesso do género, a power ballad. Por pretensões de peso ou snobismo, mas fazem mal, porque nada cativa o mainstream como um baladão (vimo-lo poucos dias antes com Bryan Adams) e Forge sabe bem disso, como prova “He Is”. Para o final, como de costume, “Mummy Dust”, onde os solos de guitarra deram lugar a um solo de keytar. Como referido em cima, o cânone dos 60’s, com “Kiss The Go-Goat”. E o cânone clássico dos 80’s chegou, ainda com mais força, em luzes néon e disco beats para dançar com a morte, em “Dance Macabre”. “Square Hammer” foi a benção final.

Excelente concerto, mesmo que se notasse a banda algo cansada, apenas ensombrado por um som que nunca deixou de ser confuso e mediano. Agora, resta esperar por 2021.

P.S.: Acreditem ou não, durante o concerto dei por mim a pensar que estava a perder uma hipótese que ponderei: ir ver os Clutch a Madrid. os norte-americanos andam por ali, nestes dias. A Prime Artists decidiu pasmar-me enquanto escrevia estas linhas, confirmando a presença desses reis do blues rock em Portugal, em 2020.

SETLIST

  • Ashes
    Rats
    Absolution
    Faith
    Mary on a Cross
    Devil Church
    Cirice
    Miasma
    Ghuleh/Zombie Queen
    Helvetesfönster
    Spirit
    From the Pinnacle to the Pit
    Ritual
    Satan Prayer
    Year Zero
    He Is
    Mummy Dust
    Kiss the Go-Goat
    Dance Macabre
    Square Hammer