GSM

2011-06-17, Barcelos
Nero

A causa e as intenções são boas, e também parece haver muita ambição em levantar este festival – dotando-o de boas infra-estruturas e condições para as bandas. Todavia é um projecto relativamente recente e há muito por agilizar ainda. De um modo geral o som esteve bom e isso é sempre um bom ponto de partida. A Arte Sonora chegou a Barcelos na 6ª feira e por lá ficou até Domingo, aqui ficam os nossos destaques…

17 JUNHO

Chegámos ao local a tempo de ainda poder assistir ao final da actuação dos portugueses For The Glory e a tempo de constatar também a entrega, profissionalismo e “rodagem” que a banda tem. Esta sensação repete-se com muitas das bandas portuguesas que se mexem actualmente na nossa “cena” e que estiveram presentes neste festival – basta pensarmos na competência de Switchtense, Men Eater, More Than A Thousand, WAKO ou Sons Of Misfortune. Mais que gosto pessoal ou estar a beber cerveja, aqueles são os pressupostos que valem um destaque num artigo, diria. O público foi chegando para ver, essencialmente, Paradise Lost. Há cerca de 15 anos que não via uma banda que a dada altura foi um dos maiores nomes da cena heavy, o concerto acabou por ser bom, afinal a força de temas como “Enchantment”, “Say Just Words”, “One Second”, “Hallowed Land” ou a beleza de “Forever Failure” ressoa ainda, passados tantos anos. Se a isso aliarmos clássicos como “Pity The Sadness”, “As I Die” ou “Embers Fire”, ainda lhes falta a atitude death/doom metal que as tornaram reconhecidas, não nos podemos queixar totalmente das mudanças controversas no som da banda. Foi uma actuação em jeito de best of, ainda que a escolha da setlist nesse sentido possa levantar reclamações, afinal apenas um tema dum álbum como “Icon” é praticamente uma heresia. A prestação vocal de Nick Holmes é que variou entre o razoável e o francamente mau.

18 JUNHO

Neste dia houve um decréscimo de público. O concerto do headliners, Sirenia, foi algo… bizarro, a banda apresentou-se sem baixista e teclista com os respectivos sons samplados, mas com muitos períodos em que os próprios samples não continham o som de baixo. De resto, o próprio formato sonoro parece totalmente gasto. Valeram os concertos de Switchtense, que uma vez mais agarraram o público que esteve em frente ao palco, exigindo tudo de quem se encontrava ali, fazendo poucos parecerem muitos. E Men Eater que surgiu com uma própria envolvência sonora, não me refiro necessariamente à composição, mas ao próprio som da banda que se destacou pela força e clareza. Ainda não os tinha visto com o novo elemento e os temas ganham pela subtileza dos arranjos de alguma sintetização e das linhas extra de guitarra. Ainda assim as três vozes em conjunto, por vezes, soavam desafinadas – algo a rever pela banda. Antes, de tudo isto, os espanhóis Kogito foram uma óptima surpresa, com o seu reggae descomprometido, uma secção de sopros bem entrosada com a restante banda. Uma banda para descobrir, para os amantes do género.

 

19 JUNHO

Era o dia que gerava mais expectativa, pois trazia dois nomes que são ícones de todo um género pela primeira vez ao nosso país: os japoneses Church Of Misery e os louisianos Eyehategod – referência maior do sludge. E acabou por ser o dia que resgatou o festival. Os espanhóis Supa Scoopa fizeram surgir os primeiros fumos do stoner rock, numa actuação que mostrou um baixista/vocalista muito seguro, um baterista que embora competente precisaria de dar algo mais à banda, mais “patada” e uma postura corajosa do guitarrista, sem receios de fazer o seu som surgir na “frente” dos momentos solo. Momentos com grandes riffs para headbanging de uma banda a descobrir, pelos amantes da sonoridade. Depois o trio dos irmãos Poli [Devil In Me] e Mike [Men Eater], a que se junta Conim [Dawnrider] veio trazer maior agressividade e velocidade ao palco – os Sons Of Misfortune possuem boa atitude e boas ideias, contudo neste concerto faltou alguma solidez no som, com tempos desencontrados, por vezes e com o decorrer a discrepância de afinação da guitarra com o baixo – é só polir estes detalhes, porque o resto está lá, muito rock n’ roll!

Então chegava o concerto assombroso dos Church Of Misery. Uma entrega e postura em palco a roçar a insanidade de Yoshiaki Negishi e a certeza de que o novo guitarrista mantém com enorme classe a grande tradição sabbathiana do som da banda, incrível como o som nunca se ressente de haver apenas uma guitarra em palco, mas isso será também devido ao know how exemplar que o fundador, o baixista Tatsu Mikami, tem da sonoridade da banda. Se o público estaria à espera dum aquecimento para Eyehategod, de certeza que muitos acabaram por sair divididos entre qual terá sido o concerto da noite: o dos japoneses ou dos americanos?

É difícil dar uma resposta, as bandas possuem referências sonoras comuns, mas o estilo e o próprio som é bastante diferente e aí os Eyehategod mostram porque se tornaram ícones e se tornaram a referência maior para uma cena, o sludge, que nos últimos anos renasceu. Ali, no GSM vimos um glorioso voo de Fénix. O som de guitarra de Jimmy Bower é qualquer coisa… é a definição de PODRE, nos dicionários à frente de sludge devia surgir – o som de guitarra de Jimmy Bower! Uma das grandes armas é um impressionante Ampeg SS-70, nunca tinha ouvido um ao vivo… quero um! Um setlist a rodar os 4 álbuns da banda, mas um pouco mais incisiva em “Take As Needed For Pain” e “Dopesick”. Um concerto memorável, espera-se que regressem em breve, quiçá quando sair um próximo álbum que a banda já anunciou estar a planear.

O problema do concerto de Corrosion Of Conformity, foi ter surgido depois das duas bandas anteriores, os ouvidos estavam esmagados pelo peso dos graves e a libertação dessa opressão fez parecer o concerto de CoC menos intenso. O público também desertou a banda, contudo louve-se uma entrega exemplar do trio, mesmo diante dessa noção. Ainda assim, a verdade é que este dia, para aqueles que nunca tiveram a possibilidade de meter os pés num festival como o Roadburn, foi um marco para o eixo sonoro stoner/sludge/doom.