“História do Hip-Hop Tuga”, sintonização do passado com o presente

“História do Hip-Hop Tuga”, sintonização do passado com o presente

2019-03-08, Altice Arena
António Maurício
Inês Barrau
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Com mais de 30 artistas convidados, a Altice Arena recebeu um espectáculo focado no presente e bem assente no passado do hip-hop em Portugal.

A “História do Hip-Hop Tuga” comprometeu-se a apresentar uma cronologia, com mais de 30 artistas, que representasse historicamente a evolução do universo hip-hop em Portugal. Entre DJs, B-Boys, Writers e MC’s, a Altice Arena recebeu os nomes mais proeminentes do género musical (e cultural) do nosso país para um espectáculo dinâmico, onde os anos passaram à frente dos olhos e ouvidos. E era impossível ficar descontextualizado – os ecrãs de palco apresentavam continuamente o ano onde cada música se popularizou e, obviamente, as músicas seguiram a história do tempo.

Começámos em 1994, com a primeira entrada a ser entregue ao General D, com o tema “Black Magic Women”. Uma combinação de hip-hop com funk, que proporcionou um primeiro momento de dança leve na plateia. Por este momento, nos balcões, também se via movimento, mas de outro tipo – era aquela inquietação de pessoas que chegaram à pouco e procuram um lugar cativo. Isto para dizer que a Altice Arena ficou quase totalmente cheia, nas duas frentes.

Três músicas depois e os wall writers já pintavam as duas paredes predestinadas para tal presentes nas laterais do palco. Uma adição pertinente, por se relacionar directamente com o género musical, e que nunca chegou a ser primeiro plano mas foi bem-utilizada como distracção secundária. A maior ovação até ao momento aconteceu com a icónica “Não Sabe Nadar” dos Black Company. O grupo popularizou  o hip-hop no nosso país em 1994, levando até o Presidente da República na época, Mário Soares, a referenciar o refrão num dos seus discursos políticos.

 

Seguiram-se outras figuras, já em 2002, como Sam The Kid e o tema “Não Percebes” (mas também marcou assiduidade em anos mais à frente), Boss AC com “Baza Baza (Hoje Não Quero Saber)” ou Micro com “Respeito”. Uma lição de old-school que certamente agradou ao público veterano presente na sala. De facto, o conjunto de espectadores verificou-se diversificado, desde pequenos e graúdos a homens e mulheres. A balança de público estava realmente equilibrada. Seguimos para 2006, e “Nada a Perder” de Sir Scratch é projectada com alta intensidade, também ouvimos Dealema e NBC, este último que combina o hip-hop com o seu estilo de canto mais solto, mais leve. Eventualmente, um dos pioneiros em Portugal na fusão entre “cuspir rimas” e “cantar versos” no mainstream, impossível afirmar com certeza.

 

 

Em três momentos diferentes, uma voz-off, a alto e bom som, pausava o concerto para mencionar mais alguns nomes que não estavam entre os inúmeros convidados da noite. Em conjunto com imagens na grande tela de palco, Da Weasel, Allen Halloween, Barraco 27, Djmal, Yen Sung, Dama Bete ou Da Chick, Expensive Soul, entre muitos outros, foram devidamente aplaudidos por todo o trabalho que fizeram (ou alguns, que ainda fazem) neste ramo artístico. Por outro lado, se a voz-off estava perfeitamente audível, alguns artistas viram-se atraiçoados pelo microfone. Algumas performances foram menos-boas, tendo em conta a baixa percepção sobre as palavras. Talvez uma dificuldade por parte da equipa técnica por ter que lidar com tantas vozes diferentes. Ou talvez falta de controlo vocal por parte do artista, quem sabe.

 

 

A partir do ano 2013, foi possível evidenciar a transição e a evolução do hip-hop de old-school para new-school. A evolução da qualidade da produção instrumental é a maior evidência, mas os flows que aparecem mais diversificados e as melodias de vozes também ganham maior supremacia. Artistas como Capicua (acompanhada pela Guerrilha Cor-de-Rosa), Dillaz, Nerve, Phoenix RDC, Grognation, Holly Hood, Keso, Profjam ou Wet Bed Gang são alguns dos nomes que marcam a maior mudança na cronologia portuguesa. Por vezes, neste novo sistema, o conteúdo lírico é sacrificado em prol da melodia – quanto mais catchy melhor. Mas a energia que estes contemporâneos arremessam em cima do palco é inegável. Os beats são intensos, as palavras acompanham o movimento instrumental com mestria e foi aqui que o público mais se movimentou.

 

 

O hip-hop chegou à era dourada, actualmente, é o mainstream em Portugal e praticamente em todo o mundo. A “História do Hip-Hop Tuga” realizou-se devido a essa mesma popularidade, mas foi uma lição justa e imparcial – focada no presente e bem assente no passado.