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Indio

Big Harvest

A&M Records, 1989-06-09

EM LOOP
  • Big Harvest
  • Hard Sun
  • Life Lies Down
Nero

O raríssimo disco de Gordon Peterson. Um trabalho que podia ser uma companhia musical para “Walden”, o clássico do transcendentalista Thoreau.

“Big Harvest” é uma autêntica pérola e também um disco raríssimo. Este trabalho do músico canadiano Indio, cujo nome de nascimento é Gordon Peterson, é um dos álbuns mais subvalorizados de sempre na história da música. Aliás, o baixo retorno de vendas e o pesado orçamento de produção fizeram com que a editora o tivesse “deixado cair” e hoje é deveras difícil consegui-lo, mas esse é um esforço que vale a pena fazer, nem que seja em formato digital…

Gravado com músicos carismáticos, como Vinnie Colaiuta (sim, o baterista de “Joe’s Garage” de Frank Zappa, para citar apenas um álbum da sua ilustre discografia), David Rhodes, Manny Elias [Tears For Fears], Larry Klein ou Joni Mitchell, mostra de uma forma clara as suas influências. Mas ao mesmo tempo foi um álbum capaz de mostrar caminhos, dentro duma paisagem melancólica do continente americano, que outros seguiram posteriormente – basta pensar que Eddie Vedder, no filme de Sean Penn, “Into The Wild”, apropriou-se, de forma pouco elegante aliás, do tema “Hard Sun” (que aqui, na sua versão original, com mais detalhes de produção é majestoso), para não dizer mesmo dum espírito imaterialista que percorre tanto este álbum e que é o próprio tema central do referido filme.

De facto, “Big Harvest”, como sugere o título, é como uma redescoberta da riqueza e beleza natural do Novo Continente, em que a música segue ideais dos pensadores americanos pós Declaração da Independência, com Henry David Thoreau à cabeça. A sonoridade a viajar entre o folk e uma abordagem atmosférica impressionante, sempre cuidada, com uma preocupação melódica e harmoniosa tocante. Claríssima também a influência de Peter Gabriel e a sua WOMAD.

Este é um disco de esperança, que consegue mesmo desprender-nos momentaneamente dos condicionalismos, políticos, educacionais e económicos, pelos quais somos subjugados para funcionar em conformidade social. Há uma ingenuidade que nos reporta para a atmosfera dum espírito juvenil de descoberta, como no aclamado filme “Clube dos Poetas Mortos”, algo tipicamente americano (neste caso canadiano), mas estes também se libertaram do peso burocrático e formal das instituições europeias.

Tem havido muitas vozes, agora nesta era de internet, a comentarem este trabalho, a desejar saber mais, a pedir um regresso de Gordon Peterson… Podemos apenas esperar que o músico encontre aí estima e confiança para voltar a gravar material novo, pois este é o seu único registo!