Invadidos pelo prog do norte!

2016-01-23, Sabotage Club
Tiago da Bernarda
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Big Red Panda, Astrodome, e The Black Zebra deixaram a sua marca no Sabotage Club, em Lisboa.

O Sabotage Club virou, no sábado passado, um nicho de variantes prog levadas a cabo por bandas nortenhas bem imbuídas em reverbs pesados, invocações stoner e ondas psicadélicas. A sala lisboeta, que já virou uma espécie de meca para bandas emergentes de rock transeuntes, acolheu três nomes que elevaram o termo devotional a outro nível.

Pouco antes da meia-noite, os The Black Zebra, a dupla dos irmãos Machado, subiram ao palco perante uma plateia com pouco mais de vinte pessoas. Mesmo assim, mostraram que se consegue fazer a festa apenas com bateria e uma boa coreografia de pedais. E mesmo com tão pouco repertório conseguiram cumprir a sua missão. Aquecer a salar e abrir o apetite para o resto do cardápio.

Em palco, apresentaram material inédito do álbum que está para vir que, por comparação ao EP de estreia “The Worst Shit Demo”, parece despegar-se de um registo introspectivo inicialmente apresentado e apropriaram-se de algo mais próximo do heavy rock encamado.

Os Astrodome subiram logo a seguir, já com uma afluência mais composta. A banda do Porto já está no nosso radar desde o ano passado, quando lançaram o álbum homónimo. Uma tape que lhes valeu um lugarzinho na nossa lista de cassetes portuguesas que se destacaram em 2015.

Os Astrodome portam consigo uma mestria de ritmo

E embora já se conseguisse prever o que estava para vir, extensos caminhos de prog cósmico, há certos elementos que simplesmente não conseguimos captar a partir do walkman. Foi o caso dos graves que se faziam sentir e que causavam comichão na sola do sapato. Grande parte proporcionada pelo baixista guru que se apresentava frente palco com um monstro de Rickenbacker 4000 e tal (embora honestamente, com o tamanho do palco do Sabotage, apenas os bateristas têm espaço lá atrás).

Bem artilhados de amps e pedal da Orange, uma espécie de “What else?” para os discípulos do rock britânico a la Jimmy Page, os Astrodome portam consigo uma mestria de ritmo. Algo bem compassado que proporciona imagens vívidas de viagens a lugares desconhecidos.

Parece uma forma cliché e recorrente de descrever bandas prog, mas que não perde validade. Apesar de parecer que estão a malhar descontroladamente, os build-ups que criam são estruturados como um roteiro bem preparado. Tanto são os momentos com shreds em warp speed que fazem abanar a cabeça freneticamente como os que replicam a sensação de uma nave a aterrar gradualmente.

E quando se pensava que já tinham dado tudo, convidam o teclista de Big Red Pand para as últimas faixas. Um contributo que adicionou mais uma dimensão à formação de duas guitarras, baixo e bateria dos Astrodome.

O resto dos Big Red Panda apoderaram-se do palco pouco tempo depois. Oriundos de Ponta de Lima, os Big Red Panda eram a única banda que já se tinha estreado em Lisboa. Conheciam os cantos à casa, e isso fez-se notar.

Bastou um Korg bastante compacto e um novation (toda vintage, pudera) para conseguir abafar todas as cordas naquele palco.

Bem espalhados pelo palco (sim, aquele pequenino a que me referia), três guitarras, baixo, teclas, bateria, conseguiram invocar nitidamente as suas influências. Tem um pouco de Rush e Genesis, tem muito Pink Floyd e quando o vocalista abre a boca pela primeira vez, ouve-se Robert Plant imediatamente.

Engraçado como naquele deboche de guitarras, os sintetizadores são o que se sente mais. Bastou um Korg bastante compacto e um novation (toda vintage, pudera) para conseguir abafar todas as cordas naquele palco.

Mas não se deixem enganar. Os Big Red Panda, como um todo, conseguiram dar um concerto inesquecível. E o público sentiu isso também. Logo há frente, via-se um grupo de raparigas a fazer a sua própria interpretação de danças xamânicas. Um pouco mais atrás estavam os que acompanhavam com o pescoço e os tímidos que compassavam a música com o bater do pé.

É verdade. Lisboa rendeu-se ao prog do norte.