Iron Maiden, Reais Bestas!

Iron Maiden, Reais Bestas!

2018-07-13, Altice Arena, Lisboa
Nelson Santos
John Batista
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Numa sexta-feira 13, houve monstros e o horror da guerra, houve lágrimas de alegria que escorreram pela nostalgia de corpos que vivem a música não como “mais uma banda” ou mais um festival para aparecer, mas porque os Iron Maiden continuam a ser das melhores bandas do mundo e têm dos melhores fãs.

No dia em que Donald Trump foi (mal) recebido em Londres sob o eco de uma já distante independência americana, mas que ainda ressoa, a realeza britânica também voltou a levantar a voz em terra de “eternos aliados”. Súbditos, talvez até. «Contra os bretões marchar, marchar!», cantámos na versão original de “A Portuguesa”. Com esta corte, é diferente. Assim venham sempre armados e com ordens de «Scream for me, Lisboa!», que cá estaremos para participar com reverência em tão bom espectáculo. Pensaste mesmo que estava a chamar bestas aos Maiden? É no bom sentido. De bestiais. Enormes. A Legacy Of The Beast World Tour é um autêntico legado vivo do que esta besta nos vai deixar. Mas, com sorte, ainda vamos ter muitos e bons anos disto.

Até porque a banda se mostra em franca boa forma. A 7 de Agosto próximo, Bruce Dickinson faz 60 anos. A mexer-se e a cantar assim, é um Mick Jagger do metal. Só que com mais voz. Muito mais. A banda teve uma entrega notável, os cenários foram algo nunca visto (e Portugal tem visto muitos cenários dos Iron, ao longo dos anos), o som esteve óptimo (alô Pavilhão Atlântico, a mudança de nome parece estar a fazer-te bem) e o ambiente que se respirou foi de êxtase saudosista. A organização, e o próprio Bruce no início do concerto, falaram em cerca de 18,000 assistentes mas, na verdade, circulámos com algum à vontade pelas zonas recuadas da plateia. Independentemente da lotação estar ou não esgotada, esta foi uma actuação que ficará na memória da maioria dos que ali estiveram.

ANTROPOLOGIA

As primeiras imagens dos ecrãs laterais ao palco dão-nos guerra. O homem e os seus eternos conflitos consigo mesmo ao longo da história, enquanto Winston Churchill discursa. Em consonância com o conceito desta tour mundial, inspirada no jogo para telemóvel e livro B.D. Legacy Of The Beast, a música também respeita momentos temáticos, daí que a fase inicial do concerto se tenha focado nesse elemento bélico. De “Aces High” a “The Trooper” havia uma trincheira camuflada a separar o kit de Nicko McBrain e foi aí que se viu uma bandeira portuguesa sair da carabina de Dickinson após um disparo sobre o soldado Eddie. Antes, já o vocalista havia versado sobre a liberdade com paralelos nos actuais conflitos mundiais. E qual humilde inglês, evoca “The Clansman” em nome da auto-determinação dos escoceses, canção que passa de espada “ensanguentada” em punho, e ainda fez o cabelo de Steve Harris mexer quando o rasou.

TEOLOGIA

A noite estava ganha. Tínhamos uns Iron Maiden em pleno, com cenografia de espanto, o som (o sommm!) estava bom, íamos continuar a ouvir malhas e uma outra surpresa que não fazia parte do alinhamento do grupo há anos. “For The Greater Good Of God”, esse açucarado tema de “A Matter Of Life And Death” já entrou naquela a que chamaremos a “parte espiritual” do concerto. “Revelations” deu o mote para a liturgia que se seguiria, com um cenário de maravilhosos vitrais ao longo de todo o palco e pormenores que concorrem para esse nirvana dos sentidos, como o fogo de artifício por baixo dos holofotes em “Sign Of The Cross” estar perfeitamente alinhado com as pancadas de Nicko. De resto, será redundante dizer que toda a grandeza e eficácia do show só é possível pela acção de muitos outros profissionais para além dos seis músicos. Nesse sentido, uma palavra para uma equipa raramente referenciada em concertos de grande dimensão, talvez porque também seja raro sermos brindados com um trabalho deste calibre: a realização vídeo; impecável. Da sequência de planos, ao foco de quem “solava”, era como se estivéssemos a ver um DVD dentro do próprio concerto. Algo importante quando as bancadas estão a uma distância considerável do palco e os ecrãs são um plus para os mais baixos na plateia.

MITOLOGIA

E eis que o malfadado Ícaro se junta à festa, dando asas ao desejo de muitos ouvirem, finalmente, “Flight Of Icarus” num concerto de Maiden. «Fly on your way like na eagle, fly as high as the sun» afinou gargantas antes de todos cantarem “Fear Of The Dark”. Mais uma vez, a banda toca este hino mais lento que o original, gerando ali algum desacerto rítmico com o público, mas é sempre de arrepiar o ambiente que se gera. O feliz paradoxo do medo do escuro ser comunhão em brilho partilhado. Num espectáculo em que, praticamente, todos os temas tiveram direito a cenário próprio, “Iron Maiden” surpreende-nos com a demoníaca besta gigante, de dente bem afiado, já Janick Gers fazia as mais circenses tropelias com a guitarra. O homem parece mais bailarino que nunca mas, quando é preciso fazer aquele solo, está lá, sendo que, dos três guitarristas, o mais proficiente e de som mais personalizado é Dave Murray.

VENERÁVEL

E depois disto tudo, o melhor ainda estava para o fim. “Hallowed Be Thy Name” foi arrepiante. Do stage set com o condenado Bruce Dickinson dentro da cela, à corda suspensa que o esperava para a hora final, ao povo que clamava por perdão cantando a letra, verso a verso… Se fosse possível descrever aqui o ambiente vivido, fá-lo-ia. Não esqueçamos que, muitos dos presentes, já acompanham as visitas dos Maiden a Portugal desde os célebres concertos em Cascais na década de ’80. “Piece Of Mind” acabou por ser o álbum mais tocado, com quatro temas, fechando a noite com o obrigatório “Run To The Hills”, quando pensávamos que já não era possível um refrão ser cantado mais alto. Bruce pediu e a arena anuiu.

Numa sexta feira 13, houve monstros e o horror da guerra, houve lágrimas de alegria que escorreram pela nostalgia de corpos que vivem a música não como “mais uma banda” ou mais um festival para aparecer, mas porque os Iron Maiden continuam a ser das melhores bandas do mundo e têm dos melhores fãs. E, de sorriso na face e suor na mente, fomos embora com essa ideia bem lembrada pelo tema dos Monty Python, que soava já o recinto havia despertado do sonho – “Always Look On The Bright Side Of Life”.

SETLIST

  • Aces High
    Where Eagles Dare
    2 MinutesTo Midnight
    The Clansman
    The Trooper
    Revelations
    For The Greater Good Of God
    The Wicker Man
    Sign Of The Cross
    Flight Of Icarus
    Fear Of The Dark
    The Number Of The Beast
    Iron Maiden
    (encore)
    The Evil That Men Do
    Hallowed Be Thy Name
    Run To The Hills