Júlio Resende, A Frustração da Beleza

2015-08-13, Cem Soldos, Tomar
Nero
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A reverência do pianista e do público ao silêncio e a Amália foi tocante.

A actuação de Júlio Resende teve tanto de bonito como de frustante. A evocação de Amália é, por si só, emocionalmente poderosa, as melodias que viajam no enorme corpo harmónico do Steinway & Sons fazem-nos extrair os ecos daquela voz que está tatuada na alma e memória de cada português. Resende, nos improvisos, opta preferencialmente pelo simples e pelo sublime, em detrimento do elitismo e exibicionismo técnico e isso aumenta o enlear dos seus arranjos, do seu som. Amália voz do povo. Resende piano de Amália. Voz do povo em piano do povo. “Barco Negro” foi um momento quase sacro.

Um público reverente, salvé, tentou oferecer todo o silêncio possível num festival ao exercício de Resende.

A frustração adveio de um som que, habilmente, pretendeu não descaracterizar a expansão acústica do piano, mas que, sem a arquitectura de um auditório, se perdia muito cedo. Um público reverente, salvé, tentou oferecer todo o silêncio possível num festival ao exercício de Resende. O piano, captado por dois Neumann KM184 (em cima) e dois Shure 57 (por baixo da caixa), soava puro. Mas, sem volta a dar, a falta (natural) de volume separou-nos de vários momentos do concerto. Separou-nos de Resende e, triste fado, separou-nos de Amália…