KISS, Confettis & Realismo

KISS, Confettis & Realismo

2018-07-10, Estádio Municipal de Oeiras
Nero
Inês Barrau
8
  • 9
  • 8
  • 8
  • 8
  • 8
  • 6

Num dia em que tantas coisas falharam, os KISS deram provas de ser uma verdadeira banda, resgatando o concerto e usando todas as suas forças para oferecer uma noite inesquecível aos fãs portugueses.

No final, foi a descendência de Nero Cláudio Druso que haveria de despoletar a queda da poderosa dinastia dos Júlios-Cláudios. E com grande aparato caiu, não sem antes ter entrado numa gloriosa decadência durante o reinado de Calígula e depois no do seu infame sobrinho. Petrónio, em “Satíricon”, narra-nos a desintegração cultural de Roma.

Ao contrário de opiniões que, de alguma forma, se estabeleceram como consensuais, os KISS nunca se limitaram a ser uma entidade fútil e superficial, antes usando a sátira, desde a década de 70, para nos entreter com a evidente decadência social, cantando sobre luxuriosas formas de vícios abusivos de álcool e drogas, prostituição, pedofilia e sodomia, como se narrassem um moderno “Banquete de Trimalquião”, o excerto mais colorido da obra de Petrónio. Foi a partir daí que se tornaram na mais eficaz máquina de merchandising na indústria musical, convocando-nos a aceitar alegremente a sátira aos mais bizarros prazeres da mente humana.

No Parque dos Poetas, em Oeiras, as fantasiosas personas The Starchild, The Demon, The Spaceman e The Catman promoveram mais uma das suas já célebres festas rock ‘n’ roll de cheias de confettis, stunts e fogo-de-artifício, através de um inesperado e vigoroso realismo. Afinal, numa era de extremo processamento sonoro em discos e concertos, criando paredes de áudio artificial, os KISS surgiram com um som extremamente cru e visceral, com os instrumentos num registo quase “directo ao amplificador”. Imagine-se levar com uma dose de realismo desta banda!

STARCHILD

Aliás, numa produção com condições tão desfavoráveis (péssimo som e mistura na primeira meia-hora, os ecrãs de suporte visual inoperacionais nos primeiros temas, um palco demasiado pequeno para suportar o enorme aparato pirotécnico, etc), a banda fez uso da sua enorme experiência no showbiz para não deixar cair o concerto para níveis de frustração irrecuperáveis, especialmente através de Paul Stanley. O Starchild aproveitou cada minuto para criar empatia com o público português e foi permitindo que a banda e toda a produção do espectáculo se aglomerasse em torno da luz que irradiou.

A sua voz está, naturalmente, decadente, mas a sua aura permanece intacta. Talvez os elogios a Stanley sejam fruto da condição de fã daquele que vos escreve e que mal juntou dinheiro para uma guitarra, rebentou-o numa Ibanez Iceman, mas a verdade é que Stanley segurou todas as pontas soltas (quem nem um pano na boca de palco conseguiram segurar). Após o caótico início, com “Deuce” e “Shout It Out Loud”, o guitarrista temporizou até ser possível acertar som, efeitos visuais e pirotecnia para que “War Machine” soasse com toda a pompa e circunstância. Por mais que Tommy Thayer seja o “verdadeiro” guitarrista da banda.

GOD OF THUNDER

Gene Simmons ofereceu músculo ao concerto, colando-se perfeitamente à batida de Eric Singer. O polémico músico referiu, em entrevista recente, ser um disparate um baixista tocar sem palheta, pois ninguém o ouviria. Talvez acrescentando provas a essa afirmação, Simmons teve sempre um poderoso trovejar no som, com o seu Cort GS AX Punisher a soar como o martelo do Deus do Trovão e rock ‘n’ roll. De facto, o instrumento possui dois humbuckers EMG ligados ao circuito de volume, sem qualquer selector de pickups, somando a sonoridade de ambos. Refira-se que o seu ruidoso solo, “voando” até ao extremo do palco, juntamente com “God Of Thunder” foi mesmo o momento da noite. Talvez só rivalizado por “Black Diamond”, onde Singer se destacou mais.

Sem estar lotado, o Estádio Municipal de Oeiras esteve bem composto por uma geração de rockers que pensou nunca ver os KISS no seu país e emprestou a sua voz a muitos dos clássicos da banda, “Lick It Up” e “I Was Made For Lovin’ You”, foram dos mais celebrados, tal como “Detroit Rock City” e “Rock And Roll All Nite”, que fecharam a noite em clima de euforia, após um encore que contou com a interpretação inesperada, mas muito bem-vinda de “Cold Gin”.

Apenas se pode lamentar a dimensão da produção, quem já teve oportunidade de ver noutras digressões sabe que este concerto esteve a uns 30% de alguns dos maiores concertos da banda. De resto, os KISS provaram a quem duvidava que são uma banda “a sério” e empenharam-se por gravar esta data na memória dos fãs portugueses que, calculando a média de anos entre visitas, os terá visto pela última vez…

Nota: Tal como várias centenas de pessoas, não vimos Megadeth, senão no encore. Podem perceber porquê na discussão sobre o evento.

SETLIST

  • Deuce
    Shout It Out Loud
    War Machine
    Firehouse
    Shock Me
    Say Yeah
    I Love It Loud
    Flaming Youth
    Calling Dr. Love
    Lick It Up
    God of Thunder
    I Was Made for Lovin’ You
    Love Gun
    Black Diamond
    Cold Gin
    Detroit Rock City
    Rock and Roll All Nite