Lana Del Rey, Lânguida Melancolia

Lana Del Rey, Lânguida Melancolia

2019-07-18, Super Bock Super Rock 2019
António Maurício
Inês Meira | World Music
7
  • 8
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Lana Del Rey, cabeça de cartaz do primeiro dia do SBSR’19, esgotou o recinto e viajou entre todos os capítulos da sua discografia.

Lana Del Rey estreou-se em Portugal em 2012, no Meco. «Agora todos os meios presentes irão elogiar a actuação de Lana e fazer de conta que não alimentaram o autêntico linchamento a que a artista esteve sujeito desde que iniciou os concertos em promoção a “Born To Die”. Pretendendo reclamar autoridade, esqueceram que fizeram o papel de tolos ao assumir posturas de avaliação com base em vídeos no Youtube e de jornalistas de meios internacionais e mais “poderosos”.

(…) É inevitável mencionar esta situação porque, de repente, se tornou o principal motivo de conversa na espera da subida da artista ao palco – que imediatamente demoliu todos os preconceitos dos “entendidos” de música. Lana Del Rey mostrou controlo dinâmico, imensa versatilidade vocal – com diferentes posturas e colocações tímbricas – e apenas terá evitado algumas das notas mais agudas que pontuam os temas em disco. O público esteve sempre do seu lado e a cantora revelou charme e simpatia autêntica. Se o álbum “Born To Die” é uma nota 10, a sua prestação no SBSR foi uma nota 8. Surpreendeu inclusive o controlo de afinação nas várias descidas que fez junto do público, em que se guiava apenas por um dos in-ears e o som de output. É uma cantora a sério!», dizia a AS, sobre o concerto, na altura.

Sete anos depois, regressou ao mesmo local e ao mesmo festival, o Super Bock Super Rock, como (maior) cabeça de cartaz e uma (ainda maior) legião de fãs à sua espera. As palavras no ar dizem que foi a responsável pela lotação do evento – citação credível depois de assistirmos ao maior fluxo de movimento no palco principal antes da sua entrada em palco. O pop da artista é maleável, tão indie como sonhador, triste, levemente dançante ou apimentado com características rock. No limbo entre o lançamento do novo álbum “Norman Fucking Rockwell” e sua discografia já editada, ouvimos um pouco de tudo o que já fez desde 2010, data do seu primeiro álbum de estúdio,”Lana Del Ray”.

Ao som de “Born To Die”, a entrada de Lana foi efusiva. A recepção calorosa por parte da plateia que, na linha da frente, acompanhavam as letras em conjunto com as duas vocalistas de acompanhamento veio carregada de emoções (onde alguns dos fãs encostados à grade deixavam as lágrimas cair). Segiu-se “Cherry” e “White Mustang”, músicas que dão uso completo à secção digital da bateria híbrida em palco, potente e sempre no tempo pelas mãos de Tom Marsh.

O trabalho vocal foi, como seria de esperar, o grande foco de todo o público. A voz de Lana esteve sempre afinada, sem picos ou desvios de tom e ao vivo, a intensidade e expressividade que carrega com gentileza mostrou-se de alta categoria. A guitarra eléctrica, nunca chegou a ter grande destaque em termos de sonoridade instrumental mas, em “Pretty When You Cry”, chegou-se à frente para cadências inspiradas no “Hotel California”, dos Eagles, embora mais lento, grave e desanimado. Ainda em termos instrumentais, o maior trabalho técnico surgiu no medley que uniu “Change”, “Black Beauty” e “Young And Beautiful” numa única sequência. Começou de modo desnudo, só com o piano, e foi aumentado progressivamente numa composição exclusiva e agradável que dinamizou o concerto com algo exclusivo.

“Off To The Races”, revelou-se uma das melhores actuações da noite. O timbre de Lana alternava entre os graves e agudos, tarefa nada fácil numa única faixa e muito mais impressionante quando a proeza é efectuada à frente dos nossos olhos. “Summertime Sadness” e “Videogames” foram os tiros certeiros, altamente aclamados e acompanhados por um coro da plateia que chegou a ser elogiado pela artista «vocês cantam tão bem!»

No final, “Venice Beach”, um hino à nostalgia de verão, revelou descaradamente uma muleta da pop. As faixas de acompanhamento. Com a voz de estúdio a ser reproduzida em cassete, a voz ao vivo de Lana ouvia-se sobreposta, mas como se deslocou até aos fãs mais próximos para mais uma ronda de beijinhos, fotos e autógrafos (já o tinha feito a meio do concerto – e é uma atitude louvável!) era claramente visível que a voz que se ouvia, não era a voz ao vivo. Percebemos que não consiga cantar e interagir directamente com os fãs ao mesmo tempo, mas só o instrumental bastava. Mas vamos esquecer a “muleta” temporária, porque a voz de Lana não sofre grandes alterações ao vivo, o talento é genuíno. Enquanto cabaça de cartaz certamente encheu as expectativas de um público que já não a ouvia em Portugal desde 2012.

SETLIST

  • Born to Die
    Cherry
    White Mustang
    Pretty When You Cry
    Blue Jeans
    Mariners Apartment Complex
    Change / Black Beauty / Young and Beautiful
    Ride
    Video Games
    Doin’ Time
    National Anthem
    Summertime Sadness
    Off to the Races
    Venice Bitch