Lorde, a natureza divina

Lorde, a natureza divina

2014-05-31, Parque da Bela Vista
Nero
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Violência e Glória. Lorde arrasou Lisboa assim que a sua voz se ouviu acompanhada pelos synths pesados de “Glory And Gore”. Aqueles cabelos de medusa dão à adolescente a solenidade de um oráculo. A forma como enche o palco inteiro e interage com o público é a de uma deusa primaveril. Descontraída, alegre, simples, melodiosa e encantadora.

Antes do concerto, poderia especular-se sobre se apenas a voz de uma miúda, uma bateria híbrida e sintetização, seriam suficientes para um palco com a dimensão do Palco Mundo. A verdade é que Ben Barter [bateria] e Jimmy Mac [sintetização] são os acólitos perfeitos para a voz da jovem Ella Marija. Também pela tipologia do backline, o som está perfeito e equilibrado desde as primeiras notas.

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“Biting Down”, nos arranjos mais agressivos de bateria, é mais pesada e sobrenatural, devido aos coros harmonizados em intervalos de escala próximos, como nos coros folclóricos tradicionais búlgaros. Será injusto destacar momentos altos num concerto que roçou a perfeição do início ao fim, mas este foi um deles. “Tennis Court” é mais bem recebida pelo público, mais familiar. Mas se Lorde foi essa deusa primaveril, o público retribui-lhe com devoção e amor. A neo-zelandesa repetiu várias vezes que nunca esqueceria Lisboa. Um truque de veteranos que, na boca de Ella, pareceu genuíno. É que, quando não está a encarnar os seus temas, quando é Ella e não Lorde, dá uma ideia de transparência, de ser uma miúda igual a qualquer outra, especial como qualquer outra, mas capaz de ser Lorde também. Alteramos entre o mundano e o divino. Depois de “White Teeth Teens”, “Buzzcut Season” torna a transportar-nos para o éter.

O tema feito em parceria com Son Lux foi um dos momentos altos de uma actuação que roçou a perfeição.

A discografia ainda curta obriga a apontamentos especiais, como “Swingin’ Party”, a cover dos The Replacements. Os Kindness fizeram-na em 2009 e deram-lhe vibração dançável, Lorde deu-lhe um sentido contemplativo. Outro dos momentos tremendos do concerto será a rendição a “Easy”, que Lorde trabalhou com Son Lux. Groove sincopado, novamente aquela densidade coral, pesado, risco e profundidade melódica. Grande tema. O aumento dos níveis de excitação anuncia o arco triunfal que está a ser desenhado e deixará o público prostrado diante do altar (do palco). “Ribs”, “Royals” e imensa “Team”. O final foi como o de “Pure Heroine”, com “A World Alone”. Ficou sozinho o mundo, sem aquele ser primaveril que o visitou no parque da Bela Vista.

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SETLIST

  • Glory And Gore
  • Biting Down
  • Tennis Court
  • White Teeth Teens
  • Buzzcut Season
  • Swinging Party
  • Still Sane
  • 400 Lux
  • Bravado
  • Easy
  • Ribs
  • Royals
  • Team
  • A World Alone