Manel Cruz, de bem com a vida

Manel Cruz, de bem com a vida

2019-04-28, Casa da Música
Ricardo Rego
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A apresentação em dose dupla na Casa da Música (sessões às 16:0 e 21:30) do álbum a solo “Vida Nova”, mostrou-nos um Manuel Cruz de bem com a vida no regresso às origens, naquele que poderá ser um novo começo de um dos maiores peritos musicais na dinâmica início/fim.

Existem vários Maneis e todos eles, apesar de um tronco muito comum, trazem sempre algo de novo e fresco. Existe o Manuel irreverente e adolescente dos Ornatos Violeta, cujo percurso dava um artigo à parte. O Manuel mais intenso dos Pluto, cujo único álbum “Bom dia”, caso não tivesse sido lançado na ressaca dos Ornatos Violeta, teria com certeza sido um dos álbuns de referência da música feita em Portugal. O Manuel moderadamente experimental dos Supernada, que apesar de rasgos de génio/destaques como “Arte quis ser vida” e “Anedota”, passou mais ou menos despercebido. E antes de chegarmos a este “Vida Nova”, existiu o Manel manifestamente experimental de Foge Foge Bandido, que lançou o disco/livro “O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu Que Estraguei”, a versão portuguesa de “Montage of Heck”, mas em bom e digno.

“Cru, clássico, mas um bocadinho podre” é assim que Manuel Cruz descreve o álbum, mas não é necessariamente assim que soa ao vivo. Cru e clássico sim, mas do bocadinho podre quase nada se vê.

Acompanhado por António Serginho na bateria, Eduardo Silva no baixo e Nico Tricot na guitarra e teclas, Manuel Cruz lançou-se para um concerto de quase duas horas. Vinte e nove músicas, as dez do “Vida Nova” e as restantes retiradas dos tempos do Bandido e do projecto Estação de Serviço, onde andou na estrada precisamente com os estes mesmos músicos.

“Cru, clássico, mas um bocadinho podre” é assim que Manuel Cruz descreve o álbum, mas não é necessariamente assim que soa ao vivo. Cru e clássico sim, mas do bocadinho podre quase nada se vê.

À quarta música, “Entre as pedras”, um piscar de olhos aos Los Hermanos da época do álbum “4”, que por coincidência tocaram nesta mesma sala em 2005 durante a tournée de apresentação desse álbum. Inclusive um dos hermanos, Rodrigo Amarante, é identificado por Manuel Cruz em várias entrevistas, como uma das pessoas chave para desfazer o nó criativo no qual se viu preso e cuja consequência foi este “Vida Nova”.

Manuel Cruz foi alternando entre o banjo, ukelele e a Fender Mustang ao longo do concerto, sendo que à 13ª música, “O navio dela”, o músico surgiu em palco com a guitarra acústica Takamine que tem utilizado desde o início da sua carreira. Essa mesma guitarra, com o autocolante do tubarão, que tantas vezes vi nas fotos da banda que a minha irmã tinha espalhadas pelo quarto nos tempos de adolescente.

A meio do set, os primeiros temas de Manuel Cruz verdadeiramente a solo. Sentado numa cadeira colocada numa plataforma elevada no meio do palco, o trono de onde o Pastor pregou para os seus súbditos, interpretou dois temas: “O céu aqui”, a sequela feliz de “Algo teu”, o tema de encerramento do álbum “Bom dia” de Pluto que alguém uma vez descreveu como uma das mais belas músicas portuguesas de sempre, e “Reencontro”, a primeira vez que vi uma música a solo com voz e baixo acústico.

Seguiu-se “Meu amor está perto”, entre piropos e tentativas de desestabilização por parte do público, mais à frente a ginga boa de “Tirem o macaco da prisão”, uma interpretação de “Estou pronto” ao melhor estilo do Scott Weiland, com Manuel Cruz de cócoras a cantar com recurso a um megafone, a canção “Ovo”, levada para outro nível com a bateria e o baixo a darem-lhe outra intensidade, e um dos momentos altos da noite com uma interpretação de “Maluco”, com o músico a fazer jus à letra.

Seguiram-se dois encores onde não só Manuel Cruz mostrou que não quer, nem vai cair na ratoeira de ser mais um cantautor português chato, desinspirado e sem correr riscos.

Em Novembro de 1999, os Ornatos Violeta deram no Hard Club o concerto de lançamento do álbum “O Monstro Precisa de Amigos”. Na altura decidiram tocar o álbum na íntegra, ainda antes do seu lançamento. Num momento crescente da banda em termos de exposição e no rescaldo de um bem-recebido “Cão!”, esta foi uma decisão arrojada. O público queria ouvir algumas das músicas antigas. Com o decorrer do concerto, começaram-se a ouvir, num tom mais ou menos hostil, “Dá-lhe rock Manel!”, “Toca o Cão!”, etc.. Hoje sente-se que Manuel Cruz já encontrou o seu lugar e o público já aprendeu a gerir as expectativas. O Manuel vai continuar no seu caminho, talvez mais polido e mais contido, no entanto, sempre honesto, a brincar com a construção/desconstrução e a fazer o que lhe apetece e quando lhe apetece. O público, esse, vai estar aqui para o receber, seja em que formato for.

SETLIST

  • Buraco
    Como um bom filho do vento
    Anjo incrível
    Entre as pedras
    Reboque
    Cães e ossos
    Missa
    Ainda não acabei
    Algures perto do mar
    Caso arrumado
    As minhas saudades tuas
    Libelinha
    O navio dela
    Canção da canção triste (sem intro)
    O céu aqui
    Reencontro
    Meu amor está perto
    Beija-flor
    A invenção da tarde
    Tirem o macaco da prisão
    A cisma
    Coisas de manteiga
    Estou pronto
    Ovo
    Maluco
  • Onde estou eu
    Vida nova
    Canção da canção da lua
  • Borboleta