Mão Morta, Muito Longe do Fim

Mão Morta, Muito Longe do Fim

2019-10-11, Lisboa Ao Vivo
Nero
Inês Barrau
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Os Mão Morta foram aclamados por Lisboa em duas partes. Na primeira, o álbum “No Fim Era O Frio” foi interpretado de forma majestática. Na segunda, a banda despiu a elegância e deixou-se consumir pela energia dos seus clássicos de carreira.

A LAV esteve a rebentar pelas costuras. Mais de mil pessoas foram testemunhar a estreia ao vivo de “No Fim Era O Frio” na capital. Os Mão Morta merecem esta devoção ou não estivessemos diante de uma banda que, ao jeito de uns Bad Seeds ou de uns Melvins, raramente desiludam naquilo que fazem e na pertinência das suas edições discográficas.

Dito, isto, permitam-nos uma nota prévia. A sala enfrentou um duro teste e não se pode dizer que tenha passado com nota elevada. Quem não conseguiu entrar no quadrado (digamos assim) do espaço principal mal podia ouvir o concerto, considerando o baixo nível de decibéis e o elevado ruído provocado por tamanha multidão. Dentro do quadrado, o som possuía imensa qualidade, mas o calor esteve a raiar o insuportável (e nem vale a pena mencionar a quase impossibilidade de acessos a comodidades como os WC ou até os bares). Nas varandas, a capacidade de circulação pouco melhorava e a visibilidade era, no mínimo, reduzida para quem não estava encostado às grades.

Já estivemos na LAV em outras ocasiões e elogiámos a sala. Contudo, a lotação terá que ser revista. Quem pouco tem que ver com esta situação são os Mão Morta, que foram capazes de fazer o público esquecer a escassez de comodidade, através de dois excelentes concertos, por assim dizer.

NO FIM ERA O FRIO

A reprodução integral do álbum foi feita de forma suave, com insignificantes choques de dinâmica nos momentos de transição entre os interlúdios samplados e a força instrumental da banda. E se estes sucederam foi apenas porque os Mão Morta optaram por os unir, em vez de usarem as separações silenciosas presentes no disco. “O Mundo Não É Mais Um Lugar Seguro” estabeleceu o majestoso ambiente sonoro da primeira parte do concerto. Sintetizações luxuriosas e guitarras sobrecarregadas de efeitos criavam uma parede fria e, de certa forma, também extremamente envolvente às palavras distópicas de Adolfo Luxúria Canibal.  Distopia ou realismo mágico?

“Um Ser Que Não Se Ilumina” contém o charme estrutural de uns Swans, mas com todas as idiossincrasias de Mão Morta. O seu corpo, a sua estrutura e força rítmicas, o desespero prímevo vocal… Estamos diante de um clássico imediato dos bracarenses! O enleamento criado pela banda foi quebrado nesse violento clímax do tema e aí deu-se a primeira ovação do público que encheu (ao barrote mesmo, repita-se) a LAV.

“Quem És Tu”/”Oxalá”, novo movimento de introdução e canção. A evidência de cada uma das vozes corais, o seu equilíbrio no cruzamento com o restante corpo instrumental, revelavam um som de tremenda qualidade na sala.

Mas o enorme peso de “Passo O Dia A Olhar O Sol”, ainda que excelente na sua mistura, foi algo atenuado pelos limites de volume, impostos pelas novas leis do Regulamento Geral do Ruído. A falta de amplitude retirou alguma forma a uma excelente interpretação. Um dos momentos da noite, apenas atrás do hipnotizante díptico “Invasão Bélica”/”A Minha Amada”. A propulsividade rítmica, ainda que simples, num cruzamento entre electrónica e acústica; os drones sónicos de sintetização e cordas; e as palavras que quase descrevem uma fantasia erótica e distópica de Paolo Eleuteri Serpieri, criaram um dos melhores momentos de palco dos Mão Morta que somos capazes de recordar. Aliás, ousemos dizer que é uma das melhores canções pós-punk que já ouvimos. Foi extraordinário e por isso recebeu a maior aclamação da noite.

Antes, “Deflagram Clarões De Luz” é um boogie orelhudo. Um rock ‘n’ roll que se gruda instantaneamente na memória. Se haverá uma canção que poderá ser isolada deste homogéneo disco, é esta e o seu mesmerizante final, cujos “clarões” melódicos transportam alguns dos momentos mais calorosos no conceito “No Fim Era O Frio”. A terminar, “Isto É Real”, passe a idiotice de enumerar referências a Mão Morta, soou a uns The Stooges mais contemplativos, antes de “Sinto Tanto Frio” encerrar a execução integral do recente álbum, revestindo-o uma vez mais dum espesso corpo de guitarras e de densidade no baixo e nas sintetizações.

Uma hora que passou célere, tal como sucede a ouvir a gravação de estúdio do excelente disco. Se o permitem, o som de guitarra de Vasco Vaz esteve num nível deslumbrante. Ele que obsessivamente o procura melhorar e reformular. Algo que podem verificar na nossa edição impressa #061, onde o elegemos como um dos melhores guitarristas portugueses na última década.

E SE DEPOIS

Um breve quarto hora depois, os Mão Morta regressaram. Infelizmente, vindos de uma cigarrada ali na Avenida Infante Dom Henrique, já não tivemos coragem para furar novamente para a frente da sala. “Pássaros A Esvoaçar” abriram uma colecção de clássicos na qual a banda se mostrou mais selvática e mais efusiva. Afinal, o controlo necessário para a reprodução fiel do disco já não era necessário.

Durante mais uma hora de concerto, “Hipótese do Suicídio” (pelo seu peso sonoro esmagador, quase sabbathiano), “Tu Disseste” (e a sua estranha dinâmica narrativa), “Barcelona” (a força das suas dissonâncias e o momento mais shred da noite) e “1º Novembro” (cantado apoteoticamente em coro pelo público) mantiveram o concerto num nível elevado. Ainda que, pelo menos da nossa parte, se tenha feito sentir uma maior descompressão após o efeito de fascínio provocado pela primeira parte do concerto.

O encore viu o público berrar “Lisboa” e a banda rebentar “Anarquista Duval” numa interpretação a roçar o hardcore.

SETLIST

  • No Fim Era O Frio (Álbum tocado integralmente)
  • Pássaros a Esvoaçar
    Sitiados
    Hipótese do Suicídio
    Tu Disseste
    Em Directo (Para a Televisão)
    Barcelona (Encontrei-a na Plaza Real)
    Vamos Fugir
    E Se Depois
    Bófia
    1º de Novembro
    Lisboa (Por Entre as Sombras e o Lixo)
    Anarquista duval