Mão Morta & Remix Ensemble, Sumptuosos

Mão Morta & Remix Ensemble, Sumptuosos

2016-04-18, Aula Magna, Cidade Universitária, Lisboa
Nero
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A Aula Magna assistiu a um diálogo eloquente e arrojado entre banda e orquestra.

A ideia é repetida amiúde, nos textos da Arte Sonora: os Mão Morta são uma banda única na cena musical nacional. Doutos no que significa rock ‘n’ roll, não existem labores inócuos na carreira dos bracarenses e por isso, a excelência desta colaboração com a Remix Ensemble era intuída, ainda enquanto contemplávamos o palco vazio da Aula Magna.

Então, orquestra e banda sobem a palco e ouve-se a introdução ao concerto. A “Abertura” é um original do arranjador Telmo Marques e contém motivos de vários temas dos Mão Morta. Há aí um momento pungente: os músicos de Mão Morta olham deleitados a orquestra a executar os arranjos e as insinuações melódicas à sua carreira. Comovidos, sem poses. Como depois se veria a Remix Ensemble em puro regozijo pelo cruzamento sonoro e com os momentos mais exuberantes de Adolfo Luxúria.

Os arranjos de Marques, que transmutou as peças de Mão Morta para as notações seguidas pela Remix Ensemble, transportam a hierofania da visceralidade presente nas canções originais. E, com sofisticação acresce aos temas um poder suave. Como na circunflexão melódica de “Facas em Sangue”, com a orquestra a dobrar a guitarra, ou na tensão neurótica de “Tu Disseste”, por exemplo, numa soma de força que aumenta exponencialmente os predicados principais dos temas.

Na conjugação de tudo isto, “Tiago Capitão”, com uma enorme transformação em relação ao original em álbum, terá sido o momento em que o diálogo entre uma lado e outro foi mais fluído. A recuperação de “Aum” o momento mais surpreendente.

Há compromissos. Para poder soar a orquestra com maior detalhe e esplendor, a banda fica com um som mais diluído, com as guitarras menos preponderantes e destacadas. A própria banda, até considerando a pouca rodagem deste exclusivo formato, mostrou-se algo retraída. Mas isto não significou que não fosse atingido, com “Hipótese Do Suicídio” como exemplo principal, um nível de fúria ao nível da melhor tradição dos Mão Morta.

Ciente do momento único que presenciou, o pouco público presente na Aula Magna aclamou triunfalmente os protagonistas, forçando a repetição de “1º De Novembro”, como encore.

SETLIST

  • Abertura
  • Humano
  • Facas Em Sangue
  • Pássaros A Esvoaçar
  • Tu Disseste
  • Tiago Capitão
  • Estilo
  • Aum
  • Destilo Ódio
  • Berlim (Morreu a Nove)
  • Penso Que Penso
  • Hipótese do Suicídio
  • Vamos Fugir
  • 1º De Novembro