METAL GDL [TAKE 6]

Inês Barrau

Por Nero
Fotos: Joana Cardoso

Ao chegar pela primeira vez ao parque de exposições de Grândola, onde decorreu o festival, a primeira impressão foi arrebatadora – dentro do recinto condições exemplares para as bandas e equipas de cada um dos dois palcos que serviram o evento. Também óptimas condições para o público que nesta edição atingiu recorde de presenças. É bom ver os festivais cresceram, ainda para mais um que aposta tanto nas propostas nacionais dum underground tantas vezes desamparado. De resto, essas condições repercutem-se no som e confiança das bandas que no geral tiveram prestações muito positivas, deixamos os nossos destaques…

Dia 01

Lifedeceiver foi logo a primeira surpresa, som muito coeso, boa atitude e dimensão sonora no seu hardcore – um mundo de contactos entre influências do punk ao sludge. Por conflito com uma entrevista não tive a possibilidade de assistir a todo o concerto, ao longe pareceu-me ouvir ecos duma cover a Eyehategod. A rever, esta banda.

Os WAKO [em breve, entrevista na AS] mostraram-se como uma banda coesa e que sabe os passos que está a dar. A banda teve uma prestação tranquila, boa tecnicamente, com um som em que se distinguiam bem cada um dos elementos e num festival isso é sempre um ponto positivo. Contudo, até pelo próprio tipo de som, faltou algum extra de agressividade. Algo que mais tarde acabou por fazer sobressair o concerto de Simbiose, por exemplo, com muita energia e entrega ao set.

Logo de seguida os nossos “vizinhos” We Are The Damned, tal como sucedera no SWR, continuam a mostrar solidez e crescendo. Grande actuação suportada por um óptimo baterista e direito a cover de Celtic Frost. Pegando nas palavras em relação à actuação no SWR, é bom ver que não foi um acto isolado e que desta vez com melhores condições sonoras conseguiram potencializar o seu som, tal como os próprios WEB fizeram – embora tenham começado de forma mais nervosa.

A noite começava a aquecer e a actuação dos Holocausto Canibal foi um dos maiores responsáveis. Há muito que não via esta banda ao vivo e agradou-me logo a dimensão que mais uma guitarra dá ao som e a verdade é que, independentemente dos preconceitos que um género como o grind possa criar, é uma das grandes bandas ao vivo do nosso país, com uma rodagem imensa e grande ligeireza técnica de cada um dos elementos, que soam realmente juntos, com aquela densidade de som trancada, em vez de embrulhada e confusa como sucede tantas vezes no género.

Mata-Ratos teve o mérito de agarrar o público numa altura em que este podia já estar ansioso com a subida dos Entombed ao palco. O punk simples e ruidoso destes veteranos, valeu-lhes a aclamação de ser exigido um encore, com os Entombed já prontos para iniciarem o seu set.

Passe todo o mérito de cada uma das bandas que nos cativaram a atenção, os Entombed [pelo segundo ano consecutivo no nosso país] mostraram uma vez mais porque são um dos colossos do death metal europeu e também uma das bandas mais criativas do género, com um som carregado de crossovers entre um rock muito podre e uma atitude muito punk, num sentido Mötorhead. Embora esta actuação tenha estado mais dentro dos parâmetros do cânone do género, com revisita a trabalhos clássicos da banda como “Left Hand Path” e “Clandestine”. Para o final o obrigatório “Wolverine Blues”.

Dia 02

Como em cada festival de metal o turnover é sempre pesaroso e este com o peso adicional na consciência de ter perdido In Tha Umbra e Concealment [em breve, entrevista na AS]. Contudo, sem espaço para grandes lamentações, os For The Glory e os Crushing Sun arrebataram o festival com grandes actuações, grandes músicos em ambas as bandas e um feeling nos sítios certos – duas grandes promessas, estas bandas que percorrem vagas de renovação no metal nacional.

Os Crushing Sun acabaram mesmo por dar um dos grandes concertos do festival. A primeira vez que vi esta banda que cumpriu as expectativas que tinha [até por motivos pessoais], derivadas do grande disco que fizeram o ano passado, “Tao”. Um som cheio, apenas com baixo, bateria e guitarra – bom trabalho de efeitos, de preenchimento do som na guitarra e o baixo a ocupar os espaços vagos, num óptimo trabalho de dinâmica.

Uma palavra para os Switchtense que, tal como outras bandas do nosso underground enfrentam desnecessariamente uma estigmatização derivada de discussões sobre género e originalidade, deram uma prova cabal do que um concerto pode fazer por uma banda. O público fez o que a banda quis, coisa rara quando se fala de nomes nacionais.

Os Heavenwood [em breve, entrevista na AS] começaram com um mau som – e se é possível deixar uma sugestão – há que rever o som de guitarra, que pareceu demasiado comprimido e flat. Mas a banda reequilibrou-se e mostrou a saúde que respira. O novo disco ficou um pouco diluído no set, pois o tempo de actuação não permitiu uma exposição maior, mas sobressai a resposta dos novos elementos e daquele que causava maior expectativa: o baterista Marcelo Aires tinha a difícil missão de enfrentar a comparação com o reconhecido Daniel Cardoso e ultrapassou essa situação de forma superior; sempre muito ligeiro a tocar, clínico na abordagem aos pormenores e a dar bom balanço à banda.

Os headliners internacionais cumpriram sem brilhar. Com os Krisiun a compreenderem melhor o espírito do festival. Onslaught um pouco mais frios e os Vader a recorrerem a versões de Black Sabbath e Slayer, no encore, para fazerem vibrar a audiência.

De resto, outro dos grandes destaques foi o público, grande atmosfera e entrega às bandas. A organização está de parabéns pelo festival que está a conseguir erguer e pela atenção que parece prestar às bandas e às necessidades da imprensa presente. A qualidade do som, foi outro dos grandes pontos positivos do festival. Assim continue.