Metallica @ Estádio do Restelo: Triunfo Sobre Adversidades

Metallica @ Estádio do Restelo: Triunfo Sobre Adversidades

2019-05-01, Estádio do Restelo
Nero
Inês Barrau
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Enfrentando alguns problemas técnicos, os Metallica ofereceram a Lisboa e a 42 mil pessoas um verdadeiro mega concerto, um daqueles de estádio à moda antiga.

Há algumas coisas que devem ser previamente assumidas, para enquadrar a experiência que tivemos do concerto. Os Metallica estão a ficar velhotes, não há volta a dar. Lars Ulrich, recentemente, constatou esse facto e referiu como a banda o tenta contornar. A isso somam uma quilometragem que, possivelmente, só é ultrapassada pelos Rolling Stones. Os californianos fartam-se de trabalhar. Os homens já tocaram até na Antártida, por amor de Deus! Depois, esta foi a primeira data de nova incursão europeia e a produção gargantuesca que a suporta teve alguns contratempos no Estádio do Restelo, algo que pode sempre acontecer e que é natural, como James Hetfield referiu após “Moth Into Flame”, «essa é a parte excitante dos primeiros concertos de uma digressão, nunca se sabe o que pode acontecer e o público fica tão exposto como a banda, bebam um copo enquanto esperam», exortou o veterano thrasher.

Finalmente, Ulrich, que nos últimos anos não tem primado pela exuberância técnica, desta vez teve mesmo uma noite para esquecer e só conseguiu oferecer algum equilíbrio à banda já com a setlist bem adiantada. Portanto, em certo sentido, no ano passado os Metallica deram um concerto bastante melhor (se pensarmos na execução da banda), mas também é certo que no Restelo, a banda conseguiu, por força da sua resiliência, contornar esses problemas e fez-nos regressar aos tempos em que existiam, verdadeiramente, os mega concertos, como quando se estrearam em Lisboa, em 1993.

THE ECSTACY OF GOLD

21h55. Compreende-se a estranha estrutura de palco, quando os cinco painéis se tornam num fraccionado e impressionante ecrã de cinema que passa as imagens marcantes do mais famoso filme de Sergio Leone, acompanhadas pela épica composição de Ennio Morricone, que já se entranhou profundamente na carreira dos Metallica. Esse momento teve o condão de acalmar os ânimos de uma multidão impacientada por alguns contratempos da organização (de forma resumida, o conforto de quem pagou bilhete não foi totalmente assegurado).

Se fosse necessário, foi revelador do impacto superlativo que os Metallica continuam a provocar, álbum após álbum, o coro montado pelo estádio, logo de início, em “Hardwired”, do recente “Hardwired… To Self-Destruct”. E se o som começou, naturalmente, desequilibrado na sua mistura, principalmente com o estranho som de bombo (acrescido dessa rebaldaria do costume de Ulrich), o volume era de sobra e isso é sempre um bom pressuposto num concerto de rock. “Disposable Heroes” foi uma surpresa bem-vinda (haveriam outras) e se a banda ainda se procurava encontrar, estando a milhas de soar como no imponente álbum “Master Of Puppets”, pelo menos este clássico revelou Kirk Hammett em forma. Já com o som bem equilibrado, James saúda Lisboa, e surge outro clássico: “Ride The Lightning”. Muito volume, de facto. Trujillo soa como um trovão. Foi ele quem, principalmente nesta fase, segurou as canções.

MOTH INTO FLAME

As primeiras notas do “Black Album” chegam através de outra surpresa, “The God That Failed”. Logo seguida do épico “The Unforgiven”, onde a banda continua a exercer alguns ad libs. Hammett pegou aqui na lendária 1959 Les Paul Standard, que pertenceu a Peter Green (fundador dos Fleetwood Mac) e, posteriormente, ao seu discípulo Gary Moore. Não chamam “Santo Graal” às Les Paul desse ano por acaso.

Talvez valha a pena destacar que os ecrãs (ou ecrã) foram uma das mais-valias deste concerto. A sua dimensão colossal deu uma perspectiva muito próxima dos músicos e potenciou a experiência de cada um dos temas e do concerto, criando uma sensação de enorme inclusão a cada um dos presentes, fazendo a banda parecer, simultaneamente, pequena e grande a todo o estádio. Na óptica desse espectáculo paralelo da produção, em “Moth Into Flame” surge o momento de maior aparato pirotécnico. Há uma chama a deambular, agitada, pelo palco (como uma traça) e várias vezes são expelidas chamas de várias torres, inclusivamente nas torres de delay. O fascínio exercido sobre o público é evidente. “Moth Into Flame”, de verdade.

Contudo, no final surgiu esse sério contratempo técnico. Só podemos especular, mas a chama que deambulava pelo palco terá provocado danos em cablagem, afectando os ecrãs, que pararam de funcionar, e também alguma da monição de palco. Assim pareceu, pelo menos.

SAD BUT TRUE

Perante alguma inércia natural de um público expectante diante desse imprevisto, Hetfield apresenta “Sad But True”, afirmando jocosamente que «às vezes os Metallica também fazem coisas pesadas». E que pesado é o som do álbum negro, tantas vezes injustiçado pelo seu estatuto mainstream. Não querendo bater no ceguinho, até porque poderia tratar-se de algum problema com a monição, aqui Ulrich excedeu-se, foi capaz de não dar uma batida no tempo. Algo que alastrou a “Welcome Home (Sanitarium)”, criando o caos, junto de Hetfield e Hammett, na introdução da canção.

Chegou o momento quiçá de maior comunhão que os Metallica criaram com os fãs de cada país. Trujillo e Hammett vieram ao palanque adiantado do palco. Depois da versão dos Xutos & Pontapés de “A Minha Casinha” em homenagem a Zé Pedro, no ano passado na Altice Arena, o que iriam tocar desta vez? Ouvir “Censurados”, da icónica banda de João Ribas, foi emocionante e deixou-nos com a sensação de que talvez isto não seja apenas uma simples jogada de marketing (que o é). Foi punk! Então repetiram a “Casinha”, com todo o estádio a fazer coro.

Talvez ciente de alguns imprevistos e da soma impressionante de pregos até aqui, Trujillo aproveitou o momento de enorme celebração e comunhão com os 42 mil presentes, para fazer uma apologia da banda e do concerto, lembrando que isto é uma festa, apenas isso.

TWAIN & HEMINGWAY

Talvez acusando o toque do seu baixista, os Metallica passaram, até ao final, a mostrar uma crescente solidez de execução, começando com a surpresa que foi “Frantic”. Como diria Mark Twain, as notícias da sua morte parecem manifestamente exageradas. E, falando em morte, os Metallica deram uma soberba prova de vida em “One”. Os ecrãs voltaram em pleno, com imagens de militares, desses bandos de irmãos, para um efeito arrasador, e se a banda ainda denotou dificuldades, a verdade é que este é um malhão que, mesmo tocado de forma menos eloquente, soa sempre épico. Tal como “Master Of Puppets”.

Estávamos na zona nobre do concerto e “For Whom The Bell Tolls” é enquadrada com imagens alusivas à Guerra Civil Espanhola, numa associação ainda mais clara à obra-prima de Ernest Hemingway. Já com toda a banda instalada nessa plataforma avançada do palco, o efeito de proximidade com os músicos faz-se sentir mais intensamente, provocando um enorme coro na frase que empresta o título à canção e ao livro.

Talvez sentido mais o carinho do público a banda arranca para interpretações na batata de “Creeping Death” e “Seek & Destroy”. Depois de muito ter batalhado, os Metallica estavam no seu nível. O encore, iniciado com uma bandeira gigantesca nacional nos ecrãs, e a surpresa “Lords Of Summer”, provou essa ideia. “Nothing Else Matters” e “Enter Sandman” encerraram com o habitual efeito de comunhão total com o público, esteja ele num pavilhão ou num mega concerto.

SETLIST

  • Hardwired
    Disposable Heroes
    Ride the Lightning
    The God that Failed
    The Unforgiven
    Here Comes Revenge
    Moth Into Flame
    Sad but True
    Welcome Home (Sanitarium)
    Frantic
    One
    Master of Puppets
    For Whom the Bell Tolls
    Creeping Death
    Seek & Destroy
    Lords of Summer
    Nothing Else Matters
    Enter Sandman