MIL’2018: Joana Guerra, Fugly, Luís Severo, Galo Cant’Às Duas

MIL’2018: Joana Guerra, Fugly, Luís Severo, Galo Cant’Às Duas

2018-04-06, Vários locais, Cais do Sodré
Pedro Miranda
Pedro Colaço
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O último dia do festival urbano de networking mostrou, terminada a fase de conferências, a solidez do alinhamento nacional, que fez frente aos seus correspondentes internacionais.

Há festivais que não são feitos de cabeças-de-cartaz, ainda que se possa afirmar, com alguma validade, que este é um modelo cada vez mais empregue por cá, com uma crescente indiferença pelo tronco e membros do cartaz. Não deixa de ser uma estratégia compreensível do ponto de vista comercial (são, com efeito, os únicos a continuar a vender bilhetes em massa) mas uma boa dose de artistas nacionais num festival de pequeno porte como o MIL pode servir cirurgicamente o efeito de nos mostrar, ou relembrar, a qualidade da música que se faz por cá, que está, no seu melhor, ao nível da que se pratica em qualquer outro lado.

E foram várias e especialmente diversas as instâncias que o provaram neste segundo dia de MIL, motivo pelo qual optei por um percurso exclusivamente nacional que, longe de ser limitativo a nível estilístico, levou-me por uma viagem a vários gêneros e, muitas vezes, à coexistência de gêneros. Foi o caso de Joana Guerra, um dos primeiros atos a apresentar-se, no Lounge, que ancorada na lógica de cantautora ao violoncelo serviu-se de ideias que iam da música clássica ao mais experimental drone – uma feliz surpresa para o final de tarde no Cais do Sodré.

No Tokyo, a notável ambição de Galo Cant’Às Duas, uma das mais interessantes expressões da dualidade instrumental baixo/bateria de que me recordo ter ouvido nos últimos tempos, e cujo percurso parece estar apenas a começar.

Menos agradáveis descobertas seguiram-se, não se pôde dizer mais, infelizmente, de Fugly, que não resisti a espreitar no Sabotage logo em seguida. Esposam-se de uma fórmula já conhecida, e que às mãos do quarteto não fez mais do que relembrar o quão vulgares se vão tornando estas mesclas de punk e garage em Portugal – uma estética positiva, mas escassa em sumo.

Os danos ao saldo da noite seriam notados, não me confrontasse logo em seguida com duas das melhores apresentações deste MIL, e de cantos quase opostos do espectro musical. No Tokyo, a notável ambição de Galo Cant’Às Duas, uma das mais interessantes expressões da dualidade instrumental baixo/bateria de que me recordo ter ouvido nos últimos tempos, e cujo percurso parece estar apenas a começar. Do outro extremo geográfico do festival, no Rive Rouge, a inegável personalidade de Luís Severo dava ares de quem está a caminho de se afirmar como um dos grandes cantautores da sua geração. Embora ainda de nicho, a devoção dos seus admiradores já lá está, bem como o açucarado apelo das suas canções pop que, independentemente do formato em que são apresentadas por Severo (neste caso, ao piano de cauda), sobrepõem a grandeza do refrão antêmico e o ethos DIY de maneira frequentemente procurada, mas dificilmente reproduzida.

Ainda houve tempo para espreitar o ímpeto indie de Whales, que no Tokyo representavam a leiriense Omnichord (ainda que não possa dizer que constituam os mais originais ou gritantes dos seus representantes), antes de, no B.Leza e às margens do Tejo, testemunhar o derradeiro concerto da noite: Bruno Pernadas, em teoria prejudicado por um considerável atraso (mortal em eventos deste tipo), não deixou de movimentar muita gente até ao outro lado da linha de comboio para um espetáculo que, sendo quase invariavelmente bom, gozou no MIL de contornos especialmente brilhantes – um daqueles momentos em que nos sentimos impelidos a dizer que, se houvesse justiça nestes meandros do talento e da fama, Pernadas e o seu invejável octeto dispensariam a procura pelo segundo por excesso de stock do primeiro.