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Miles Davis

Kind Of Blue

Columbia Records, 1959-08-17

EM LOOP
  • Freddie Freeloader
  • Blue In Green
  • All Blues
Nero

Nenhum outro álbum jazz teve tanto sucesso comercial como este disco e há poucos álbuns na história da música que, independentemente da sua estética de base, sejam tão consensuais.

Miles Davis é notoriamente reconhecido como um pioneiro de diversas estéticas musicais, nomeadamente o cool jazz, hard-bop, modal jazz, jazz-rock ou o jazz-funk. Ele que escreve na sua biografia: «Para ser e permanecer um grande músico, tens que te manter aberto à novidade, ao que está a acontecer no momento. Ser capaz de absorver se pretendes continuar a evoluir e a comunicar a tua música».

Essa mentalidade fez nascer um dos mais universalmente aclamados álbuns de sempre, “Kind Of Blue”, ou o primeiro álbum jazz a incorporar elementos rock ‘n’ roll – o explosivo “Bitches Brew”. Helen Mayhew, locutora da Jazz FM, refere-se ao músico como o «epítome de baril» e acrescenta: «Miles estava na vanguarda de desenvolvimentos chave no som jazz, através de cada década da sua carreira».

17 de Agosto é o dia de “Kind Of Blue”, que estreou nessa data em 1959. E nenhum outro álbum jazz teve tanto sucesso comercial como este disco e há poucos álbuns na história da música que, independentemente da sua estética de base, sejam tão consensuais. O que torna este disco tão distinto, tão especial e tão querido por tanta gente?

No final da década de 50, Miles Davis, uma figura que representa a essência da mudança constante do espírito contemporâneo, como tão sintetizou Geoffrey Smith, estava cansado da tendência crescente das complexas mudanças de acordes nas composições jazz. Decidiu criar um álbum de música modal, recorrendo às escalas em vez de acordes nas fundações das composições. Ganhou desde logo uma propensão de maior coerência rítmica, pelo menos na forma como não iniciados entendem o ritmo, abrindo veredas ora de simplicidade contemplativa ou propulsiva. Fá-lo despindo o próprio jazz da sua extravagância de execução técnica, promovendo a envolvência harmónica e a respiração das notas, ao invés da velocidade e da complexidade.

No fundo, “Kind Of Blue” é um álbum mais “quadrado” e com um groove menos hermético e mais democrático. O seu bloco central é assombroso! “Freddie “Freeloader” será a composição mais cool de sempre? Que elegância e vibrância tem nos solos. E a melancolia de “Blue In Green”, finalizada de forma subtil por Bill Evans. Talvez os franceses tenham razão e se possa fazer um filme apenas com um gajo a fumar cigarros e a ouvir jazz… E a acidez de “All Blues” é um o eixo da cronologia do género, um tipo de Antes de Kind Of Blue / Depois de Kind Of Blue.

As sessões de gravação tiveram lugar no 30th Street Studio, em Nova Iorque, entre 02 de Março e 22 de Abril de 1959, e reuniram um line-up verdadeiramente estelar, constituído pelo pianista Bill Evans, o baterista Jimmy Cobb, o baixista Paul Chambers e os saxofonistas John Coltrane e Julian “Cannonball” Adderley. O sexteto interpreta essa intenção modal de forma extraordinariamente visceral e leve, além de emprestar aos cinco temas uma coesão assombrosa que mantém a vivacidade do álbum plenamente intacta ao fim seis décadas.

Para a imprimir, nenhum dos músicos procurou protagonismo acima dos outros, conseguindo fazer que a linguagem de cada um amplifique a unidade. Um álbum singular, plural e intemporal, portanto. Como poucos outros.