MONTE VERDE’17: Valete, Ella Eyre e Dillaz: Tese, Antítese e Síntese

MONTE VERDE’17: Valete, Ella Eyre e Dillaz: Tese, Antítese e Síntese

2017-08-12, Festival Monte Verde, Ribeira Grande
Carlos Garcia
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Diz-se que nos Açores é possível ter as quatro estações num dia. E comprovou-se que também é possível tê-las ao longo de um festival de música. Este segundo dia do Monte Verde foi a chegada do Verão. Céu azul e sol ao alto durante o dia prenunciaram uma noite de grande afluência ao recinto, onde o cartaz puxou sobretudo a faixa etária mais jovem.

Mais uma vez a primeira banda da noite, os Ronda da Madrugada, cresceram do solo local (ou quase, uma vez que têm origem em Santa Maria). E mais uma vez tiveram a tarefa ingrata de tocar para um recinto ainda praticamente deserto (se bem que já mais composto em relação à noite anterior). Dizer que os Ronda são uma banda de raiz dos Açores não é aqui simplesmente uma figura de estilo: o seu som está profundamente enraizado nas correntes de música folk que percorrem de certa o espaço céltico que vai da Escócia ao Norte de Portugal. Música do mundo pré industrializado, que sempre aqueceu as longas noites de Inverno e animou os bailes de Verão, estas sonoridades encontram aqui neste meio do Atlântico a última fronteira de um território imaginal que sempre foi muito menos geo político e sim cultural. E os Açores ainda são daqueles espaços que, apesar de ter em doses moderadas todos os signos da modernidade, continuam a ser essencialmente um território de ruralidade. A natureza nas ilhas está sempre já ali, visível ao virar da esquina, e é curioso que no seu dia mais “urbano” o Monte Verde traga como prelúdio os sons e os instrumentos que estão nas antípodas daquilo que se seguiu ao longo da noite.

Os Ronda da Madrugada poderiam perfeitamente fazer cartaz com grupos como os Roncos do Diabo ou os Gaiteiros de Lisboa, mas estão ainda mais próximos do espírito das desgarradas ao improviso. Com letras que têm tanto de ingénuo como de mordaz, os Ronda aparecem, talvez, como a banda deste festival que mais genuinamente provém deste espaço territorial. Apesar do pouco público ainda conseguiram recriar algo do baile de aldeia com músicas mais satíricas como “Modus Operandi” com uma crítica muito pouco velada aos nossos parlamentares; “Sou Serrano” é a expressão de todo um modo de vida que se não está ainda extinto muito rapidamente para lá caminha. “Hino às Bruxas” é pura folia de baile. Os Ronda deixaram o recinto bem aquecido do que o encontraram. Não estavam propriamente na corrente geral da noite, mas isso aqui não representou um problema: uma nota dissonante às vezes faz todo o sentido no cômputo geral da melodia.

E num volte-face de 180 graus passa-se do conforto regional para o “desconforto” urbano. Porque Valete não é nem nunca será um rapper confortável. Após uma década de ausência das lides discográficas (se exceptuarmos o trabalho mais recente com Língua Franca), o rapper da Damaia inicia agora o seu retorno ao espaço que de certa forma ajudou a criar. Porque se o Hip Hop em Portugal começou a germinar na penumbra das cinturas suburbanas de Lisboa e Porto na viragem para a década de noventa e demarcou claramente o seu espaço no território da música nacional com o lançamento da compilação “Rapública” em 94, foi com Valete e “Educação Visual” que este género claramente atingiu a maturidade. Letras bem pensadas e incisivas, uma métrica adequada às características fonéticas da língua portuguesa e um conteúdo de cariz político que muito se afastava do correcto. O Hip Hop, tal como o Punk, na sua génese e nos seus mais marcantes exemplos, é acima de tudo um retrato das assimetrias inerentes ao status quo político, económico e social e, principalmente, uma reacção contra o mesmo.

Nos dez anos que separam “Serviço Público” deste concerto, muita água correu debaixo das pontes do mundo. Por um lado o Zeitgeist a que Valete sempre apontou o dedo ao longo da sua carreira tornou-se ainda mais manifesto, sendo que o tecido social decaiu fortemente de então para cá. Por outro lado, o Hip Hop como género saiu do gueto e do subúrbio, e tornou-se, quiçá em paralelo com a electrónica, a playlist por excelência da geração milenar. O Hip Hop é mainstream e a lâmina que há dez anos era afiada foi progressivamente tornando-se mais romba. O ethos político e social que caracterizava as letras deu lugar a um desfilar de clichés sobre o viver permanentemente em festa, com muito bling e muita gaja e muita ganza e muito álcool. Pensamento progressivo dá lugar a materialismo, sexismo e alienação.

No Monte Verde, Valete não fez propriamente uma retrospectiva de carreira (embora talvez tenha sentido a necessidade de se reapresentar a uma nova geração e de homenagear certos nomes) nem o lançamento do que virá a seguir (o terceiro álbum ainda é um trabalho em desenvolvimento sem data marcada). O concerto assemelhou-se mais a um ponto de situação, musicalmente e emocionalmente. Valete esteve no limbo, tem noção disso e fez do palco um espaço quase confessional. “Johnny Walker” a nova música apresentada não é tanto um ode às virtudes anestesiantes do álcool mas uma reflexão sobre o espaço interno destrutivo onde a morte do pai o deixou. E o ciclo da vida acaba por se completar já que anunciada paternidade para breve que Valete anunciou em palco poderá ter contribuído para quebrar o interregno musical. “Anti Herói” acaba por soar de certa forma já datado, pois vive de tal forma das referências culturais e politicas de 2006. Desde então já tivemos um negro na Casa Branca, Bin Laden é alimento para os bichos, e Trump faz Bush Jr. parecer quase lúcido e competente. “Roleta Russa” por outro lado ganha em palco uma nova força: o relato do one night stand de Valete surge mais apimentado e humorado ao mesmo tempo.

E isso só é mais frustrante porque mesmo neste limbo o talento e principalmente a alma deste músico continuam a ser maiores que esmagadora maioria dos contemporâneos.

A sensação geral é de que Valete está a ensaiar o rumo a uma nova vida, mas tudo ainda se encontra um pouco bambo: alguém que já cumpriu o purgatório, mas ainda não está na força máxima. É quase como assistir aos primeiros passos na reabilitação de quem passou por um acidente grave. Aplaude-se o esforço, mas ainda não é de maneira nenhuma um andar seguro e confiante. Honesto e emocional, sem ser propriamente satisfatório. Talvez não o pudesse ser, não ainda nesta fase. Vislumbra-se já aqui o que poderá ser a versão 2.0 deste concerto quando houver um novo álbum nas calhas. Mas por enquanto tivemos só direito ao balão de ensaio. E isso só é mais frustrante porque mesmo neste limbo o talento e principalmente a alma deste músico continuam a ser maiores que esmagadora maioria dos contemporâneos. Ou dos seus “sucessores”. Algo passa para cá e sente-se. O encerramento com o novo single “Rap Consciente” é poderoso, e se dentro de semanas (meses? anos?) tivermos um álbum que seja todo ele nesta pujança, então sim recomenda-se vivamente que todos os fãs de Hip Hop estejam na linha da frente desse concerto.

Se Valete foi um esforço honesto e cru, e com muito ainda por limar, de pôr em palco um concerto em que o artista expõe a alma e os demónios e procura verdadeiramente chegar à consciência do público e operar uma transformação nesta, Ella Eyre não poderia estar mais no pólo diametralmente oposto. Um concerto polido, profissional, uma máquina que está polida, oleada e em perfeito andamento. E no entanto, aqui de alma temos muito pouco ou nada. Ella é uma das novas coqueluches do R&B, um género que se no seu melhor nos oferece o milagre criativo que foi a união de Michael Jackson com Quincy Jones, tende a maior parte das vezes a cair no pastilhão comercial. Não há nada a apontar na execução técnica do concerto: Ella é bonita, carismática, tem boa voz, canta, dança e puxa pelo público. Uma londrina talentosa que já cresceu a ouvir Beyoncé ou quiçá Amy Winehouse. A banda que a acompanha igualmente cumpre todos os requisitos. Sem notas ao lado ou falhas de execução, perfeitamente enraizados nos cânones do género.

Um concerto polido, profissional, uma máquina que está polida, oleada e em perfeito andamento. E no entanto, aqui de alma temos muito pouco ou nada.

As músicas em si têm aquele toque ultra profissional de terem sido escritas por um comité de músicos de estúdio e produtores, como se uma análise de mercado fosse conduzida antes de qualquer acorde ser posto no papel, de forma a maximizar o êxito de cada canção. Como se já houvesse um qualquer algoritmo que calculasse o potencial de pontuação no iTunes. Isto em si não é novidade, e é inclusive uma tradição do género com décadas de aperfeiçoamento: já nos anos sessenta produtores como Phil Spector recorriam a esta quase industrialização da música de forma a produzir uma fórmula de sucesso garantido. Mas, o que ainda era reconhecivelmente orgânico numas Ronettes foi progressivamente desaparecendo. Assistir a este tipo de prestação tem algo de quase holográfico, música maquinal que é tão perfeita quanto inócua. Não faltará muito para que os avanços tecnológicos dispensem sequer a necessidade de seres humanos neste processo: a criação de estrelas pop R&B virtuais está ao virar da esquina. Um algoritmo pode computar as preferências do público presente no recinto, a partir da análise da sua pegada tecnológica nas redes sociais e afins, e gerar em palco a pop star perfeita para aquele momento, desde o rosto até à coreografia. O resultado não seria muito diferente do que se assistiu aqui. Na verdade seria indistinguível.

Enquanto decorre, o concerto é agradável o suficiente, êxitos pop em desfilada, com uma toada mais soul aqui, mais rock ali, sempre mais ou menos dançável. É agradável, dá para cantarolar ou mexer o corpo durante hora e meia. Mas, passado, algumas horas, é difícil recordar ao que é que se assistiu. Como comida de plástico que só enche o estômago no momento. E que parece não tocar de todo no nosso corpo emocional. Talvez o resultado de que tudo isto é demasiado pensado para produzir um efeito, a verdade é que cantoras Eyre são o equivalente musical do cinema de Michael Bay e das respectivas pipocas que o acompanham. Música pipoca feita para quem já só olha para um palco através do ecrã de um telemóvel. Ou que já nem sequer olhe para um palco de todo, pois o que lá se passa é apenas o plano e banda sonora de fundo para se tirar a selfie perfeita.

Se Valete é a tese e Ella Eyre a antítese, então Dillaz é a síntese. Rapper de uma nova geração e da nova escola, Dillaz já se formou num contexto em o Hip Hop já é não o som sujo e menosprezado do gueto, mas a corrente musical por excelência da juventude urbana (e não urbana) portuguesa. E isso faz toda a diferença. O seu talento inegável, e isso é claramente visível nas rimas, na métrica, no facto de ser o seu próprio produtor. O outro factor que estava já no lugar quando Dillaz inicia as lides é a existência em pleno de todo o mundo digital online. Instagrams, facebooks, spotifys e toda a panóplia de plataformas que permitem que não só a música mas a própria vida de um artista sejam comunicados a um público para quem a virtualidade já é a própria vida. Isto é uma mais valia que primeira geração de rappers não possuía.

O concerto correu de feição: hip hop maduro, com tudo no sítio. Músicas como “Mo Boy” “Protagonista” ou “Reflexo” tens os beats e os refrões.

Mais uma vez: é ao som do Hip Hop que a marcha da juventude se desenrola, e Dillaz é o nome que mais sinergisticamente marca o compasso desse andar em terras lusas. O talento quando se casa com a janela de oportunidade correcta dá sempre os melhores frutos. No palco do Monte Verde, o rapper da Amadora pode colhê-los maduros: o público estava rendido, ele era o cabeça de cartaz da noite de maior afluência (e isso percebeu-se na duração do concerto). O concerto correu de feição: hip hop maduro, com tudo no sítio. Músicas como “Mo Boy” “Protagonista” ou “Reflexo” tens os beats e os refrões.

E no entanto….existe uma ausência de algo aqui que será difícil de explicar mas que se sente. Não é propriamente o sentimento de máquina comercial de fazer música que se sente numa Ella Eyre. Dillaz faz o seu som, no seu imaginário e à sua maneira. A coisa não falha por aí. Mas a ressonância emocional que um Valete a meio gás provoca está aqui ausente. Uma corda interior que não é tocada. Como se já houvesse à partida uma ideia muito direccionada do que este som deve ser, e isso quebrasse a conexão com uma determinada essência primal que tem que estar na música de outra maneira ela não funciona. Tudo à superfície está a funcionar correctamente. Mas há uma alma que não se fez sentir.


Fotos: Cão de Fila Produções/ Monte Verde Festival