Moonspell, A Alquimia e o 25º Aniversário de “Irreligious”

Moonspell, A Alquimia e o 25º Aniversário de “Irreligious”

2021-06-18, Lisboa Ao Vivo
Nero
Joana Marçal Carriço
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No primeiro dos concertos consecutivos que os Moonspell realizam no Lisboa ao Vivo, dedicado a “Irreligious”, a banda portuguesa revelou sofisticação e elegância a tocar integralmente o emblemático álbum. Já no encore deixaram de lado a elegância e mostraram-se viscerais e pesados, encerrando a noite de forma retumbante.

A tentação seria dizer «como num concerto normal», mas este foi um concerto normal, tão normal quanto possível. Fomos nós quem escolheu apreciá-lo num streaming que reflectiu aquilo que se passou no novo LAV. Assim, num concerto normal, os primeiros temas foram sacrificados ao equilíbrio da mistura: “Opium”, “Awake” e a faustiana “For A Taste Of Eternity”.

Nesse período, há ausência de pratos – infelizmente, será algo apenas corrigido já muito perto do encore – e a voz de Fernando Ribeiro ouve-se muito exposta, sem a força dos decibéis a defenderem algumas falhas na afinação. Reforçamos que esta é a nossa percepção através do streaming (que também arrancou com o volume muito reduzido). Deve dizer-se que o carismático vocalista tem uma actuação em crescendo, aliás como sucede com a própria banda, cuja confiança aumenta com a força progressiva que o som vai ganhando.

No final de contas, estamos todos a aprender esta nova realidade. Altura para uma pausa e assumir isso. Numa pausa da banda, Ribeiro conversa com aqueles que lotaram a sala e depois dirige-se em inglês aos que assistem remotamente. Na caixa de comentários de quem assiste virtualmente anunciam-se fãs do Nevada, nos States, República da Irlanda, Alemanha, França, Polónia, Dubai (imagine-se!), República Checa, México, Nova Iorque e Istambul, se formos para as cidades. E a cidade da transmissão é Lisboa, a quem Ribeiro se dirige novamente, anunciando “Ruin & Misery” «o destino de Portugal, ruína e miséria», lamenta.

Segue-se “A Poisoned Gift” com o primeiro grande momento da noite de Ricardo Amorim, com um desempenho magnífico no solo do tema, com enorme articulação de notas e com a Fender American Elite Telecaster a furar bem a frente do som. “Subversion” é o caso mais evidente da recolha histórica que a banda faz do álbum, que fará 25 anos no próximo mês, com os samples extraídos do álbum por Pedro Paixão que soam através do MainStage [Logic Pro] a antecederem “Raven Claws” (mais uma vez, momento de exuberância de Amorim, com as “garras” bem afiadas no solo de guitarra), tema que mantém a elegância de ordas sintetizadas das fontes originais do som do disco.

Aliás, o multi-instrumentista da banda, agora mais exclusivamente dedicado aos teclados, já nos confessou anteriormente ser «contra mudar as estruturas ou até o arranjo principal. Algo com uma roupagem completamente diferente, isso sim, muitas alterações não. E mesmo em termos de sons de teclado e alguns delays (estou a lembrar-me da “Herr Spiegelmann”) que são muito distintos, é importante essas coisas existirem e estarem lá, porque fazem parte do álbum, fazem parte da canção». Nesse sentido, o concerto foi inatacável. E, seguindo a ordem do disco, Fernando Ribeiro, referindo-se aos 25 anos atrás como uma época em que os Moonspell faziam álbuns mais curtos, introduz “Mephisto” e “Herr Spiegelmann”.

O encore foi demolidor!

A antémica “Full Moon Madness”, como sempre, encerra este alquímico “Irreligious” que, após duas décadas e meia, é o zénite de uma trilogia iniciada em “Under The Moonspell”, ao mesmo tempo que lançou as bases estéticas que a banda começou a desenvolver em “Sin”. Foi o início uma nova era nos Moonspell, com o desenvolvimento e afirmação de um carácter mais distinto, em vez do seguimento de fórmulas pré-estabelecidas.

O encore foi demolidor! A banda, mais liberta das amarras do nervosismo imposto pela espartana interpretação integral de “Irreligious”, conseguiu ser mais dinâmica na execução dos temas, que também soaram com outra potência, logo desde “In And Above Men”, com paixão a trocar as sintetizações por uma Les Paul. Curiosamente, a malha é maculada por um proverbial problema de jacks desta guitarra mas, para quem assiste em streaming, até se tem um saborzinho de concerto real.

A troada propulsiva, com a banda bem comanda pelo novo baterista, Hugo Ribeiro (a primeira vez que o vemos atrás do kit ao vivo), prossegue em “From Lowering Skies” – Paixão troca a LP por uma Firebird. Este músculo das Gibsons reforça o carácter etéreo dos dedilhados de Amorim na Tele. Os fills de Hugo Ribeiro nos timbalões são avassaladores, tal como é o balanço de Aires Pereira em “Abysmo”. “Finisterra” e “Blood Tells” seguram o barómetro do peso nos píncaros e, pela parte que nos toca, talvez esta opção de manter Paixão nas guitarras, abdicando da sintetização deve ser considerada mais seriamente.

Naturalmente, “Alma Mater” encerra a noite. Goste-se ou não da banda, é uma das maiores canções do metal da década de 90, e permanece como momento de maior união entre público e banda. Noite triunfal, público a seguir respeitosamente as normas da DGS, os comentários elogiosos a sucederem-se no streaming. Segue-se a noite de “Hermitage”. Se ainda hesitam entre ver este concerto, agora que apertou a cerca sanitária, apostem nesta solução que a banda e a Munin Live vos oferece: AQUI.

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SETLIST

  • Perverse… Almost Religious
    Opium
    Awake!
    For a Taste of Eternity
    Ruin & Misery
    A Poisoned Gift
    Subversion
    Raven Claws
    Mephisto
    Herr Spiegelmann
    Full Moon Madness
    In and Above Men
    From Lowering Skies
    Abysmo
    Finisterra
    Blood Tells
    Alma Mater