NOS Alive’19: O rebuliço em Jorja Smith e o energético Loyle Carner

NOS Alive’19: O rebuliço em Jorja Smith e o energético Loyle Carner

2019-07-11, Passeio Marítimo de Algés, NOS Alive
António Maurício
Inês Barrau
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O palco secundário do NOS Alive continua a sagrar-se tão importante como o principal e na primeira noite proporcionou vários concertos irrepreensíveis.

A estreia da britânica Jorja Smith em palcos portugueses foi altamente antecipada. Porquê? A plateia presente no Palco Sagres foi a prova viva, com cânticos e muito barulho minutos antes da artista pisar o palco. Foi, sem dúvida, o maior rebuliço no palco secundário, no primeiro dia, antes de qualquer entrada. Acompanhada por uma banda constituída por baixo, sintetizador e uma bateria híbrida que se revelou fundamental e superior sonoramente com a sua potência e ritmo a marcar uma grande fatia das músicas. A percussão variava entre rápida, média ou lenta e em todas as velocidades aparecia bem oleada. Jorja abriu com “Lost & Found”, entre muito barulho do público e, simultaneamente, muito barulho dos instrumentos. Um dos pontos mais relevantes do concerto foi negativo – a voz da artista nunca nos chegou aos ouvidos com alta-qualidade, estava constantemente abafada entre o volume das músicas e do público. Um verdadeiro infortúnio, porque Jorja é realmente capaz de excelentes falsettos, além do timbre naturalmente belo e um estilo que relembra, sucintamente, Amy Winehouse.

Faixas como “February 3rd” ou “Teenage Fantasy” reflectiram com eficácia o ambiente R&B/Soul que Jorja pinta com calma e exactidão, com uma voz bem controlada. Vocalmente, sempre fiel à qualidade esperada, enquanto a banda aumentava a camada sonora para uma apresentação sonoramente mais ampla. Nos refrões, a voz era mais puxada ao limite, para destaque especial e demonstração de capacidade. “Blue Lights”, apresentada já a meio do concerto e com uma introdução especial para os concertos ao vivo, foi a acendalha para o maior nível de ruído em todo o concerto, mas covers de “Bam Bam”, de Sister Nancy ou “You Got Me” dos The Roots também despertaram o interesse colectivo. A segunda metade do concerto foi bem mais mexida, deixando as formas mas intimidas e sérias para trás e avançando com batidas quentes e dançantes como “Get It Together” ou “On My Mind”.

O segundo artista britânico da noite ofereceu hip-hop ao NOS Alive. Loyle Carner compõe letras conscientes, letras reais que reflectem sobre as relações familiares, intimas ou amigáveis do artista. Fez-se acompanhar por um DJ, um baixista e um teclista, que o seguraram firmemente entre instrumentais que relembram os anos 2000-2005 e fogem ao presente. São baseados em jazz e emitem um frequência old-school.

Deu início à performance com “Ice Water”, e até à última música continuou ligado a pilhas. Se parou um minuto, foi muito, as mãos mexiam, as pernas mexiam, a cabeça mexia, tudo mexia de um lado para o outro marcando uma forte presença em palco. Pouco depois do início, o instrumental não arranca para o início de uma nova faixa… vamos parar, certo? Nem pensar. Loyle desafia a plateia a bater palmas e aproveita o ritmo humano para formar rimas de improviso, até o som estar recuperado. Vai buscar participações bem-sucedidas, como “Angle” com Tom Mish e “Loose Ends” com Jorja Smith – que ainda estava por ali, e deu uma ajudinha ao amigo em dueto, criando, sem margem para dúvidas, o momento mais alto do concerto, com perfeita sincronia e emoção. A interacção com o público também foi forte, levando um fã até ao palco para agradecer o apoio prestado, e embora tenha sido um agradecimento individual, sentimos que o gesto pretendia ser no geral. Talvez seja uma tradição do Reino Unido, mas tal como Jorja, deixou as músicas mais energéticas para o fim, fechando com “Ain’t Nothing Changed” e “NO CD”.