Alice In Chains, Malquistar

Alice In Chains, Malquistar

2018-07-14, Passeio Marítimo de Algés, NOS Alive
Nero
Inês Barrau
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A banda mais pesada do Seattle Sound foi negra em demasia para um público frívolo.

Dizem que o podemos deixar, mas que o luto nunca nos deixa. Em 2009, Mike Inez confessava em entrevista à AS: «Nunca pensámos em substituir o Layne, ele é insubstituível. Penso que o grande tema central de “Black Gives Way To Blue” tem a ver com isso, de como segues em frente com a tua família, através da tragédia, da morte do Layne, de como nos juntámos de novo e seguimos em frente. Não era algo que tivéssemos que fazer, estávamos todos estáveis financeiramente, não é como se alguém estivesse prestes a perder a casa ou algo assim. Foi tudo motivado pela nossa amizade e para mim essa é a melhor parte de todo este processo, poder estar numa banda com os meus dois melhores amigos. É uma bênção e penso que muitas pessoas conseguem identificar-se com isso, com a perda, seja de um pai, mãe, e de como se continua com a vida após a morte dum familiar».

No Alive’18, os Alice In Chains iniciaram a setlist, quiçá, com este pensamento em mente. Ainda e sempre em luto. E com uma necessidade quase de justificarem recorrentemente esta situação, algo que fizeram das três vezes (contando com esta) que visitaram o nosso país depois do hiato auto-imposto. Assim evocaram “Black Gives Way To Blue”, o álbum do regresso e do luto, com “Check My Brain” logo no início, antes de avançarem com “Again”, do clássico álbum homónimo. Como que sintetizando a banda que são actualmente e o que sentem pelo seu famigerado amigo, cruzando a herança de Layne Staley com a própria vida da banda, o seu passado e o seu presente e também o seu futuro, porque houve direito a ouvir um dos temas que estará presente em “Rainier Fog”.

Todavia, tudo isto terá passado despercebido à maioria dos presentes no festival. A banda teve muito pouco impacto para lá das primeiras filas junto às grades. Um calor de trovoada, sufocante, imensa luz solar a retirar a hipótese de qualquer ambiente ao palco e muita, muita gente completamente insensível à imensa história dos Alice In Chains, ao som mais negro de Seattle (ao lado dos Soundgarden) e ao peso sonoro e emocional das guitarras taciturnas de Cantrell em músicas como “Them Bones”, “Dam That River” ou “Nutshell” (em grande Mike Inez) e “”No Excuses” (em grande Sean Kinney).

Jerry Cantrell iniciou o concerto com a a sua Les Paul preta, o modelo Gibson Custom Shop dos anos 90 com que gravou a maioria de “Black Gives Way To Blue”, antes de passar a desfilar os seus modelos G&L Rampage, com natural destaque para a “Blue Dress”. O modelo que comprou em ’84 e actualmente equipado com humbuckers custom da Motor City é o seu favorito. A guitarra possui uma fissura nas costas do corpo, portanto fica a dúvida se usou a original ou uma réplica, tal como os outros dois modelos de assinatura para a gama Tribute da G&L, uma Rampage Ivory e uma Rampage Black, ambos com acabamentos personalizados que subiram ao Main Stage do Alive.

Ao som faltou sempre dimensão. “Hollow”, por exemplo, soou bastante distante da dimensão que possui em disco, sem o tremendo peso que têm as suas linhas de guitarra e sem a coloração do robusto efeito chorus que tem a versão original. William DuVall teve a pior das três prestações em Portugal, com a voz muito “rebentada”. Mas a banda também pareceu algo desligada, principalmente nos jogos de harmonizações vocais, tão determinantes no som dos Alice In Chains. Reflexo da resposta emocional do público? É caricato ouvir a agressiva “We Die Young”, a sua negra reflexão sobre o narcotráfico na juventude, enquanto um grupo de miúdas de 18 ou 19 anos aplica o seu melhor estilo na baforada de cigarro, gravada em selfie de grupo, e ergue as mãos para o ar e grita um artificial «Woo», em resposta à propulsividade rítmica do tema.

Todavia, tudo isto terá passado despercebido à maioria dos presentes no festival.

Depois de “Your Decision”, que parece conceptualmente colocada no alinhamento, a vibrante “Man In The Box”, com o seu cativante riff na talkbox, conseguiu agitar mais alguns festivaleiros, tal como a icónica “Would?” e o trovejante groove de Mike Inez e do seu Warwick Streamer Custom, cruzando o sistema de pickups do modelos Streamer com o split coil dos modelos Spector.

Mas a épica “Rooster”, deixada para o final, passou completamente ao lado de quem ali estava para vociferar o riff de “Seven Nation Army”, alguns versos dos Pearl Jam e, quiçá, acabar a noite no Tamariz…

«He who tries, will be wasted».

SETLIST

  • Check My Brain
    Again
    Them Bones
    Dam That River
    Nutshell
    No Excuses
    Hollow
    We Die Young
    Your Decision
    Man in the Box
    The One You Know
    Would?
    Rooster