Arctic Monkeys: Mudam-se os Tempos, Faltam as Vontades

Arctic Monkeys: Mudam-se os Tempos, Faltam as Vontades

2018-07-12, Passeio Marítimo de Algés, NOS Alive
António Maurício
Inês Barrau
7
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Uma dualidade de sentimentos e reacções no NOS Alive 18′, entre os novos temas e os hits da banda britânica.

A inquietação pela subida dos Arctic Monkeys ao palco principal era notória por todo o recinto. Via-se vestido muito merchadising e ouviam-se muitas conversas paralelas sobre o concerto dos britânicos que já carregam mais de 10 anos na indústria. «Vi-os há um mês atrás em Londres (…) mas o Tranquility Base Hotel & Casino é facilmente o pior álbum da discografia» – confessa-nos um jovem britânico, numa troca de palavras amigável. Na verdade, o sentimento de o que último álbum dos Monkeys não é bom, é bastante recorrente. Recorrente, mas igualmente contestado pelo grupo de pessoas que o acham fantástico.

Alex Turner, o vocalista e incontornável figura principal do colectivo, apresentou-se em sincronia com o estilo das novas composições. Camisa com 3 botões soltos, blazer aberto directamente por cima, colar de prata entre o pescoço e uns óculos aviator transparentes. Todo um ambiente que caracteriza esta nova fase de faixas lounge calmas, contemplativas e com toques de ironia. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, ou neste caso, muda-se a música, muda-se a roupa.

O arranque com “Four Out Of Five” apresentou ao vivo o momento mais agitado do polarizante novo álbum. Um instrumental e trabalho vocal crescente em intensidade e magnitude, que conseguiu cativar qb uma plateia que, claramente, esperava pelos hits de uma outra vida. Seguiu-se “Brainstorm” e o nível de volume aumentou consideravelmente dos dois lados. O público dançava, saltava, fazia barulho e Matt Helders, o baterista, recebeu o seu devido mérito. O rapaz por trás da bateria é talentoso e ágil, como exemplifica nas faixas mais antigas, o problema é que nesta nova vida não tem espaço para o demonstrar. Após um maior movimento de agitação com “Crying Lighting” ou “Teddy Picker”, os ânimos voltaram a acalmar-se com a tranquila “505”, que se continua a revelar extraordinariamente bela ao vivo. A onda de luzes emitidas pelos telemóveis rapidamente surgiram entre a multidão, tal como as mãos a balançar no ar entre a esquerda e a direita. Alex aproveitou esta maré de serenidade para prosseguir com mais um dos novos trabalhos musicais.

A utilização de Alex ao invés de Arctic Monkeys nos parágrafos anteriores é intencional, porque, ao longo dos anos, o foco centrou-se cada vez mais no vocalista/guitarrista. Em “Tranquility Base Hotel + Casino”, esta luz de protagonismo evidente recebeu uma reacção fria por parte dos presentes. Não é isto que querem, não é o que esperam. Tal como em “One Point Perspective” ou “Star Treatment” (todas apresentadas pela primeira vez em Portugal), Alex desabafa pensamentos contemplativos entre instrumentais com pouca dinâmica e marcados por melodias de teclados. A questão é: será que se adequa a um festival? De facto, as letras são elaboradas, filosóficas e auto-conscientes. Escondem mais do que aparentam, no âmbito do álbum.

Um instrumental e trabalho vocal crescente em intensidade e magnitude, que conseguiu cativar qb uma plateia que, claramente, esperava pelos hits de uma outra vida.

Todo o alinhamento foi reduzido sonoramente para esta nova versão adulta da banda. Uma versão que gosta de distribuir os pontos mais energéticos entre a setlist. “Do I Wanna Know?” e “I Bet You Look Good on the Dancefloor” perto do primeiro final comprovaram que a garra não desapareceu. A essência passada está definitivamente lá, os riffs contagiantes e o domínio de massas não desapareceram. No entanto, o pedido para encore foi quase inexistente. «I’ve played to quiet rooms like this before – Bear with me, man, I lost my train of thought», cantou anteriormente Alex em “One Point Perspective”, como se já estivesse a adivinhar a reacção a esta nova vontade de ser. “R U Mine?” foi inteligentemente escolhida para fechar a performance, através de uma versão mais alargada onde o refrão é igualmente amplificado e magnificado.

Olhando para o panorama geral, o concerto foi diversificado e equilibrado. Uma espécie de amostra entre a qualidade e versatilidade que ostentam na discografia. Porém, o trabalho mais recente, mais introspectivo e fechado não casou com o ambiente festivaleiro do NOS Alive. Não falta qualidade ao vivo, mas os hits certificados e conhecidos de trás para a frente pelo público são o tiro certeiro neste contexto.

SETLIST

  • Four Out of Five
    Brianstorm
    Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair
    Crying Lightning
    The View From the Afternoon
    Teddy Picker
    505
    Tranquility Base Hotel + Casino
    Do Me a Favour
    Cornerstone
    Why’d You Only Call Me When You’re High?
    Knee Socks
    One Point Perspective
    Do I Wanna Know?
    She Looks Like Fun
    Pretty Visitors
    I Bet You Look Good on the Dancefloor
  • Star Treatment
    Arabella
    R U Mine?