NOS Primavera Sound’18: Kelela, Public Service Broadcasting e War on Drugs

NOS Primavera Sound’18: Kelela, Public Service Broadcasting e War on Drugs

2018-06-09, NOS Primavera Sound 18'
António Maurício
NOS PRIMAVERA SOUND / HUGO LIMA
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O último dia do festival foi marcado por r&b angelical, samples nostálgicas e indie rock progressivo.

A chuva não perdoou no último dia do NOS Primavera Sound, mas o público (que esgotou este dia) também não cedeu às adversidades. A voz angelical de Kalela, os samples nostálgicos de Public Service Broadcasting e o indie rock (ainda mais) progressivo dos War on Drugs destacaram-se neste dia. Vive ou revive o dia 9 de Junho no NOS Primevara Sound, com as reviews abaixo.

Kelela

As composições líricas de Kelela vêm embrulhadas em batidas electrónicas contemporâneas, e em conjunto formam um R&B alternativo/experimenta que se expressou com autoridade em “Take Me Apart” (considerado um dos melhores álbuns de 2017 pela AS!). Foi com base neste último projeto que a artista americana assumiu o Palco Super Bock. Com uma indumentária totalmente branca, a voz angelical e os movimentos sensuais, Kalela foi o foco principal de toda a performance.

Os instrumentais fluíam com alta-qualidade e apesar do nível de volume elevado, a definição não foi sacrificada. O DJ presente no lado direito do palco aplicava pequenos efeitos (filtros, equalizador, volume, etc) entre faixas como “Frontline” ou “Blue Light””, produzindo novos arranjos – e habitualmente apagava inteiramente o instrumental para destacar a voz em formato “acapella“, técnica que se revelou eficaz, porque, de facto, Kalela possui uma voz graciosa e bem-treinada. As expressões faciais durante as notas vocais mais técnicas e exigentes transmitiam uma emoção genuína e um amor verdadeiro pela música que carrega aos ombros, baseada em factos reais. Nestes momentos, o público aplaudia antes do fim da performance, saudando com grande entusiasmo o poder vocal que retribuiu com humildade: «Muito obrigado por estarem aqui à chuva, significa muito para mim…», partilhou enquanto se emocionava entre lágrimas. Sentimentos autênticos soldados por uma voz pura.

KELELA @ NOS PRIMAVERA SOUND 2018 _ © Hugo Lima | hugolima.com

Public Service Broadcasting

A fortaleza rock dos Public Service Broadcasting é construída através de guitarras, baterias, sintetizadores e ocasionalmente trompetes e saxofones. Mas, singularmente, é construída por samples que são constantemente disparadas entre os instrumentais, contextualizando as músicas e criando um ambiente narrativo e nostálgico.

A presença no palco Seat foi forte, e sentimos todo o tipo de sensações enquanto alimentávamos os ouvidos com rock progressivo e os olhos com os excertos de filmes transmitidos no visor de palco. Esta conjugação de instrumentalização rock, samples de filmes ancestrais e transmissões de rádio com as imagens no visor forma um ambiente peculiar. Estamos a ouvir “Signal 30” ou “Progress” e ao mesmo tempo estamos a desvendar histórias, a reviver momentos. O álbum “Inform-Educate-Entertain” constituiu a maior parcela do concerto, apesar de ter sido editado em 2013, continua a ser o magnum opus da banda e tivemos a oportunidade de presenciar “Theme From PSB” ou “Spitfire”. Na etapa final, fomos surpreendidos pela entrada de um astronauta em palco. Depois da corrida inicial de introdução, a “mascote” dançou, saltou e criou ondas de movimento no público. Mais uma história para contar.

PUBLIC SERVICE BROADCASTING @ NOS PRIMAVERA SOUND 2018 _ © Hugo Lima | hugolima.com

NOS PRIMAVERA SOUND 2018 _ © Hugo Lima | hugolima.com

War on Drugs

A chuva que caía na noite do último dia do festival não intimidou a multidão que se descolou até ao palco Seat para ver War on Drugs – uma facção liderada e fundada por Adam Granduciel. Plateia pelas costuras, apesar das condições meteorológicas péssimas. No entanto, o indie rock dos americanos foi mais do que suficiente para aquecer a má noite de primavera.

A setlist foi exactamente repartida entre o mais recente álbum “A Deeper Understanding” e o “Lost in the Dream”. Quatro músicas para cada lado. Uma escolha acertada, que permitiu exibir os pontos mais altos da discografia. Em relação à entrega vocal de Adam, ao vivo apresenta-se mais crua, mais colérica, arquitectando um ambiente mais real e pessoal. A música de War on Drugs é tipificada pela progressão subtil que se desenrola ao longo do tempo, e ao vivo, esta progressão é ainda maior, com arranjos mais desenvolvidos e extensos em “Pain” ou “An Ocean in Between the Waves”. Mas o grande trunfo estava guardado para o final, com a grandiosa “Under The Pressure” a proporcionar um dos finais mais épicos de todo o festival. A execução foi perfeita, desde o início mais inquietante (em comparação com a versão de estúdio) até ao estrondo final depois de mais de dez minutos non-stop. Será difícil para os presentes voltarem a ouvir a faixa sem se lembrarem do “bloqueio” altamente prolongado antes do drop: a banda segurou a sequência intermédia da faixa ao máximo e voltou a entrar no refrão instrumental com uma força colossal e arrepiante. O elemento chave aqui foi a surpresa. Não estávamos à espera desta pausa e esperamos com tanta ansiedade pelo drop, que quando realmente aconteceu, foi arrepiante. Para a próxima exigimos mais (e melhor) tempo e um palco maior.

Nick Cave & The Bad Seeds foram os cabeças de cartaz escolhidos para este dia, um dilúvio emocional de rock. Lê aqui a review completa.

THE WAR ON DRUGS @ NOS PRIMAVERA SOUND 2018_ © Hugo Lima | hugolima.com