Protomartyr

O culto Protomartyr

16/04/2018

Para uma banda que, há meros dois anos, timidamente atraía curiosidades a palcos secundários de festivais portugueses, é surpreendente ver o modo como o sucesso de “Relatives In Descent” tornou Protomartyr num pequeno êxito de culto.

Tanto mais quando se fala neste colectivo específico de Detroit, que sempre foi conhecido por empunhar a sujidade, o caos e o desespero como armas principais do seu pós-punk melodicamente abrasivo e liricamente angustiante. A Lisboa foi dado a provar algo deste gosto amargo no Musicbox, uma breve mas ainda assim reveladora amostra daquilo em que se tem constituído, lenta mas certamente, o grupo encabeçado por Joe Casey.

Cabeça esta que não demorou a incorporar, em palco, o ethos por que se tem distinguido o quarteto na sua esfera: cedo informou que haviam bebido “umas cervejas a mais” naquela noite, e que tocariam “muitas, muitas” mais músicas, e com a mesma rapidez transitavam Protomartyr entre os tipicamente curtos temas dos seus quatro discos, com habitual destaque para “The Agent Intellect”, de 2015, e este “Relatives in Descent”. A comparativamente limpa e arrumada índole da produção deste último não se fazia, no entanto, notar tanto, sendo submersa na estética mais punk que permeava os esforços anteriores, particularmente os primeiros. O resultado era uma performance muitas vezes desconjuntada, mas que raramente deixava de conter em si a fúria e o ímpeto necessários ao seu trabalho.

Uma competente demonstração do punk de Detroit, que nos dá motivos para esperar mais visitas deste quarteto em breve.

Os destaques foram, linearmente, os mesmos que se podem encontrar nos trabalhos de estúdio, que de forma geral (e bastante consensual) se concentram nos seus últimos trabalhos. Do disco apresentado, “A Private Understanding”, “Here is the Thing”, “Don’t Go to Anacita” ou a monumental “Half-Sister”, exemplos do aperfeiçoamento a que foi sujeita a fórmula pós-punk do grupo nos últimos tempos. Uma palavra de apreço ainda para “The Devil in His Youth”, um momento fulcral para o concerto na medida em que soltou as rédeas a uma banda que, até aí, progredia com cautela e gozava de menos entrosamento com o seu público; e para as encerradoras “Why Does It Shake?” e “Scum, Rise!”, segundo o próprio Casey, «duas das nossas músicas mais merdosas» – sem descurar, portanto, do resto do espetáculo. Uma competente demonstração do punk de Detroit, que nos dá motivos para esperar mais visitas deste quarteto em breve.