O Segundo Dia do Super Bock em Stock 2019

O Segundo Dia do Super Bock em Stock 2019

2019-11-23, Avenida da Liberdade, Lisboa
António Maurício
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Em destaque, os concertos de Marissa Nadler, Curtis Harding, Orville Peck e Slow J. Baladas melancólicas, canções soul e a nova fase de um músico português foram os grandes momentos da segunda noite do Super Bock em Stock 2019

O segundo e último dia do Super Bock em Stock apresentava um conjunto de artistas mais interessantes em comparação com o primeiro, do qual destacámos os concertos de João Tamura, Luís Severo e Convidados, MarinhoMichael Kiwanuka Jordan Mackampa. Uma vez mais, as salas onde parámos estavam praticamente sempre cheias e o movimento mais agitado. É uma pena não conseguir ver todas as ofertas musicais, mas a vida é feita de escolhas, tal como muitos destes tipos de festivais.

Por exemplo, como se esperava, até pelo burburinho em todo o festival, Orville Peck na casa do Alentejo foi sinónimo de casa cheia. Fila enorme desde a porta superior até à primeira entrada da rua. O místico músico canadense transportou a sua aura cowboy até ao festival e conseguiu cumprir expectativas. Vestido a rigor, recriou grande parte do seu mais recente álbum, “Pony”. Os instrumentais cheiram a country, mas são envolvidos em toques alternativos que elevam o género para um nível de criatividade superior. Ao vivo, as performances soam grandes com a voz de Orville a destacar-se sobre tudo e todos. O timbre é profundo e denso, ecoando pela sala como um instrumento. Um crooner à moda antiga. Pela reação do público, não faltará muito para um concerto a solo em território português.

Mas essas escolhas que são necessárias forçaram-nos a sair do concerto, até pela força de uma entrevista com Marissa Nadler (a ser publicada brevemente), que nos levou depois para a sua actuação na Sala Buondi (Palácio da Independência). Ao entrar, mesmo na hora do início do concerto, a sala já estava 80% cheia para a ouvir…

MARISSA NADLER

Normalmente toca sozinha em palco, mas desta vez trouxe a sua banda para Lisboa – percussão e cordas. A luz da sala é bastante fraca, criando um ambiente suave que combinou com o conjunto de músicas calmas. “All Out of Catastrophes” representou da melhor forma a sua sonoridade melancólica, com uma voz doce que nos transporta para um ambiente trágico e dramático. A voz é acompanhada por reverb em praticamente todas as faixas e, em conjunto com a banda, os efeitos criam uma camada sonora mais densa ao vivo. “Was It a Dream”, faixa já lançada em 2014, é guiada com uma guitarra mais solta que conduz a melodia do início ao fim. Mas as boas melodias não estão só nos instrumentos, por exemplo, em “Dead City Emily”, Marissa projecta uma voz dona de charmosas nuances melódicas. A música nunca deixa de ser calma e uma reflexão dos seus sentimentos, geralmente tristes, mas a autora brinca com esse facto: «Tenho mais música felizes já a seguir!» diz, sacando risos do público. É fácil compará-la a Lana Del Rey, embora Marissa não seja tão pop. As suas mensagem conseguem ser mais enigmáticas e a sonoridade mais obscura. Podem ser sons para dançar, mas para dançar devagarinho.

CURTIS HARDING

Arrancámos então para a abertura do Coliseu. Curtis Harding faz as honras com o primeiro espectáculo no palco principal. Um performer carismático que combinou as bases do soul com o R&B e algum indie. Nas primeiras músicas dividiu o seu trabalho entre guitarrista e vocalista, com “Go As You Are” a puxar pela banda que o acompanha. Em “Next Time”, a plateia reagiu com aprovação ao final carregado de guitarra, com um solo bonito de se ouvir. O saxofone destacou-se na primeira parte do concerto, mas caiu um pouco da previsibilidade nas últimas músicas. A sinergia em palco estava presente, mas era um groove soul mais clássico se compararmos com a enorme presença de Michael Kiwanuka, no dia anterior, no mesmo palco. Aproximadamente a meio do concerto, Curtis decidiu largar a guitarra e focar-se mais na entrega vocal, segurando apenas uma pandeireta e “Need You Love” continuou a descarga de romantismo. Se Marissa Nadler canta sobre as tragédias do romance, Curtis canta sobre novas aventuras. Na sua essência, o concerto mostrou uma boa performance de banda e um frontman qualificado para o trabalho, com vários registos, ambos auxiliados pelo excelente som da sala, que dividia claramente as diferentes frequências.

SLOW J

Ficámos exactamente no mesmo sítio, no Coliseu de Lisboa, para ver Slow J. Com um novo disco na sua discografia (“You Are Forgiven”), estávamos expectantes para ver como o músico português se ia desenrolar ao vivo com este novo estilo. A resposta chegou na primeira música: com notoriedade. “Também Sonhar”, música com Sara Tavares, é a primeira música do novo álbum e foi também o pontapé de saída para um concerto altamente acarinhado pelo público. “FAM”, música seguinte, aumentou a energia e contou com a participação ao vivo de Papillon que entrou de rompante para saltos e movimentos rápidos. “Arte” foi apresentada com um arranjo diferente. Até agora ouvimos novas músicas, recebemos a participação de um convidado e ouvimos um novo arranjo.

Pensámos que Richie Campbell ia entrar em palco quando ouvimos o instrumental da “Water”, mas ficámos a ouvir a versão de estúdio até chegar o verso de Slow J. O verso é, sem dúvida, bom, mas a espera até chegar lá pareceu demasiado longa sem a presença do artista. Foi um pouco estranho…

No entanto, a atitude em palco de João Coelho, cativa qualquer céptico. Muito humilde, agradecendo a presença do público, motivando-nos a seguir sempre os nossos sonhos ou a dedicar o concerto ao avô, que faleceu este ano. Destaque para o momento mais exclusivo, onde Slow J se reúne com o seu professor de música e um “colega de estrada” para uma versão acústica de “Lágrimas”. Arriscamos a dizer que foi ainda melhor que a original.

Dois álbuns, um EP e algumas faixas soltas, foram o suficiente para gerar vários estados de espírito. O hino motivacional “Só Queria Sorrir”, a reflexão pessoal em “Muros”, que atenta ao ultrapassar dificuldades, a balada “Teu Eternamente” (com graves ao vivo enormes, sem perder definição!) ou as 100 barras de rimas em “Comida”. A fechar, “Cristalina”, talvez o lançamento que o catapultou para os ouvidos dos portugueses, e “Boa Vida”, com os refrões cantados pelo público. Slow J está em constante evolução. E é para melhor.