Paredes de Coura: LCD Soundsystem e um estrondo chamado Thee Oh Sees

Paredes de Coura: LCD Soundsystem e um estrondo chamado Thee Oh Sees

2016-08-18, Vodafone Paredes de Coura
Pedro Miranda
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A banda mais querida do cartaz juntou-se à raiva do psych-punk personificada para um memorável segundo dia de festival.

Segundo dia de Vodafone Paredes de Coura, e o festival preparava-se para expor o seu máximo potencial, depois de um dia de abertura em que apenas o palco principal havia dado sinais de vida. Horários em conflito, correrias de um lado para o outro e uma mão cheia de belas actuações (destaque para Algiers Whitney, duas novas promessas que brilharam na porção diurna desta etapa do evento) antecipavam a chegada de dois dos maiores e mais antecipados momentos do festival.

E porque não ter, à cabeça, o prolífico projecto do multi-instrumentista John Dwyer antes do grande nome da noite? Não é como se Thee Oh Sees não tivessem feito por merecê-lo: em 8 anos desse mesmo nome, contam já 11 álbuns de estúdio (e mais 6 sob outros epítetos); estabeleceram-se como um dos actos de referência no universo do psych-punk e do garage rock, influenciando incontáveis outras bandas que trabalham dentro do género (algumas das quais que surgem neste mesmo cartaz); e com alguma sorte trariam a pontinha de nostalgia a quem, há dois anos, com eles vibrou no palco secundário de Paredes de Coura.

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Não só não desapontaram, como também acabaram por provar o quão irrestrito pode ser o seu apelo, do qual tanto se poderia duvidar – não é segredo que a sua sonoridade mais extrema, exposta em discos como “Carrion Crawler/The Dream” ou “Floating Coffin”, não funciona bem com qualquer público. Mas Paredes de Coura não chama qualquer público, e foi com alguma candura que se verificou que não só Thee Oh Sees não diminuíram em nada a sua habitual agressividade (muito pelo contrário – amplificaram-na), como também que a plateia não se refreava em responder em igual moeda, numa das raras ocasiões em que se justificou efectivamente o moshpit em frente ao palco.

Não há como parar Portugal“, comentou Dwyer numa das raras intervenções que fez. Não foi preciso muito mais: gesticulou abusivamente entre canções, abanou desajeitadamente a guitarra para cima e para baixo como se dela não precisasse para tocar, e fez ouvir os êxitos de uma carreira – “The Dream”, “Toe Cutter/Thumb Buster”, “Contraption/Soul Desert” – misturados eficazmente com temas do recentemente editado “A Weird Exits”, que nem por isso esmoreceram por comparação.

Liderados pelo sempre possante James Murphy, LCD Soundsystem subiram ao palco e, durante mais de hora e meia, não fizeram senão maravilhar, tal foi o desfile de sucessos empreendido.

E foi ainda com o cansaço nos pés de quem esteve a ouvir um colectivo que, com guitarra, baixo e duas baterias fez mais barulho que qualquer outro, que nos encaminhávamos para o principal acto do dia, senão do festival inteiro. Seria, com certeza, aquele pelo qual a maior parte dos festivaleiros deste ano terá comprado bilhete e, consequentemente, do qual mais se podia vangloriar a organização. Liderados pelo sempre possante James Murphy, LCD Soundsystem subiram ao palco e, durante mais de hora e meia, não fizeram senão maravilhar, tal foi o desfile de sucessos empreendido. “Dance Yrself Clean”, “All My Friends”, “Daft Punk is Playing at My House”, “Get Innocuous!”, “New York, I Love You But You’re Bringing Me Down” – de tudo um pouco tocaram dentro do seu breve mas marcante universo discográfico.

E não apenas isso, mas também executaram-no quase sempre da melhor das formas: a quase dezena de músicos em palco conferia toda a diversidade sónica desejada das suas canções, e o alinhamento de LCD Soundsystem foi capaz de manter, com consistência, uma versatilidade admirável, reduzindo-se ao formato electrónico com a mesma facilidade com que se expandia à amplitude da formação rock. E muito embora se possa apontar a relativa redundância e estaticidade de alguns dos seus temas, o valor da música em si está para ser discutido numa outra ocasião. O facto é que, de momento, LCD Soundsystem dão um dos mais grandiosos e exuberantes espectáculos a serem vistos no país, em que nada se sente fora do sítio: desde a voz de Murphy, surpreendentemente afinada e imbutida da flexibilidade pedida, até ao esplendoroso jogo de luzes empregue, passando pelo compasso, desenvolvimento, e expressividade necessárias à música de dança que fez encher o anfiteatro natural das margens do Taboão. O resto, como se costuma dizer, é conversa.

Fotos: Pedro Mendonça