Paredes de Coura: The Vaccines, Cage the Elephant e o Furor da Juventude

Paredes de Coura: The Vaccines, Cage the Elephant e o Furor da Juventude

2016-08-19, Vodafone Paredes de Coura
Pedro Miranda
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Dois cabeças de cartaz diferentes em estética mas coesos em apelo fizeram a terceira noite de Paredes de Coura aos festivaleiros.

Ao terceiro dia de Vodafone Paredes de Coura, até quem acampava pela primeira vez às margens do Taboão já poderia ter uma ideia bastante boa do que poderia proporcionar o festival na metade que faltava: sol, refrescantes banhos de rio ou igualmente recompensantes passeios de barco e, como se fosse preciso dizer, uma diversidade absolutamente encantadora de estilos de música no caminhar para a madrugada. Ao contrário dos primeiros dias, no entanto, os dois cabeças de cartaz, actos mais cobiçados da noite, teriam mais em comum do que, à partida, se poderia esperar.

Encontrar-se-ia pelo recinto do evento quem, não totalmente desprovido de razão, dissesse que o tempo dos Vaccines já passou há muito. A banda seria, na mente destas pessoas, algo como aquilo que se tornaram Hives, Kaiser Chiefs ou Guano Apes: passado o pico do seu encanto temporalmente fixado, tentam desesperadamente agarrar-se ao passado que fez deles quem são. Não são capazes de atingir em pleno a relevância que um dia tão bem os caracterizou, mas também nunca estão longe por muito tempo, surgindo aqui e ali como fantasmas do que um dia foram. O que os Vaccines nos proporcionaram não foi nada do género.

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É claro que nunca seriam, da mesma forma, aqueles que em 2011 surgiram com uma estreia em iguais partes doce, melancólica e nostálgica, altura em que até se podia considerar que tinham idade para falar de corações partidos, amores de liceu e sexo pós-separação. Mas a verdade é que, até à data, é sobre estas coisas que Justin Young continua a cantar, e a sua recusa em abandonar os tempos de adolescente (tanto em termos líricos como melódicos e sónicos) acabou por proporcionar um dos mais apreciáveis momentos da noite. Afinal, foi ainda com bastante jovialidade e até uma pontinha de humor que os Vaccines entoavam os seus temas, muitos deles encarados pela plateia como verdadeiros hinos do indie rock contemporâneo. Reinventar a roda não era, de forma alguma, com eles: ora iam ao baú dos Strokes para  mescla vencedora do garage com o pop, ora ao dos Arctic Monkeys (quem esteve em “Dream Lover” e não reconheceu AM não esteve a ouvir com atenção), mas por mais descaracterizado que fosse o seu som, não precisaram de muito mais para entregar uma performance bem-conseguida, animada e que fez Coura suar a doses pouco saudáveis.

Com as mesmas ideias, de forma pouco distinta, trabalharam Cage the Elephant, os porta-estandartes do pop rock para a massa alternativa que, segundo o que andou pelas bocas do festival, pessoalmente pediram para retornar a Paredes de Coura depois de uma excelente experiência em 2014. «Este é o melhor festival do mundo», proferiu o frontman Matthew Shultz assim que entrou em palco, como que corroborando o que haviam andado a comentar os ansiosos fãs. E agiriam também de acordo com o postulado, numa performance que viveu da jovial ira dos seus protagonistas e da resposta adequada do lado de lá das grades de protecção.

Como haviam feito os Vaccines, apoiaram-se primeiramente nos seus pontos fortes, que é como quem diz a agressividade das guitarras e os efusivos maneirismos do seu porta-voz, mas em falta de ideias verdadeiramente únicas acabaram por encetar um espectáculo que viveu mais do momento do que viverá na memória de quem esteve – um pouco como aconteceu há dois anos, se bem nos lembramos. Ainda assim, se é do momento que vivem algumas performances, é nele que devem ser consideradas, e o facto é que durante a hora que Cage the Elephant mandaram no palco Vodafone, ninguém falou mais alto, saltou mais longe ou bateu mais forte. Os novos temas de “Tell Me I’m Pretty” convalesceram perante aqueles que sempre lá estiveram: “Shake Me Down”, “No Rest For the Wicked” ou “In One Ear” vibraram mais que muitos dos outros sucessos que passaram pelo festival, e até as canções de “Melophobia” não fizeram má figura. No final, uma pequena demonstração de afecto: «Temos que apanhar um voo para a Polónia daqui a uma hora, mas queríamos ficar aqui convosco para sempre». Durante alguns breves momentos, nós também.

Fotos: Pedro Mendonça