Portugal. The Man: Um bom concerto vale mais que 1000 álbuns

Portugal. The Man: Um bom concerto vale mais que 1000 álbuns

2018-07-13, Passeio Marítimo de Algés, NOS Alive
António Maurício
Inês Barrau
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Fome em palco e desejo de surpreender, sem se renderem a rótulos e ideias pré-fabricadas. E um pequeno mimo especialmente preparado para o público a quem pediram o nome emprestado.

A presença dos The National no mesmo fuso-horário não ofuscou nem um pouco a entrada dos Portugal. The Man no palco Sagres. O recinto secundário estava a rebentar pelas costuras e continuou a encher durante os 60 inesquecíveis minutos de êxitos pessoais, covers lendárias e uma autoconsciência hilária.

O início foi fortemente marcado pelas covers de “For Whom the Bell Tolls” dos Metallica e “Another Brick in the Wall Part 2” dos Pink Floyd, esta última que deslizou sem-pausas e sem-espinhas até “Purple Yellow Red and Blue”, produção dos próprios no álbum de 2013 “Evil Friends”. A partir daqui foi sempre a subir. Não quiseram apresentar os maiores hits, ou as faixas mais conceituadas, ignoraram o novo catálogo e ofereceram uma visão diferente em palco. Os instrumentais foram frequentemente dilatados para que os finais de cada música se tornassem épicos – quantidade não é sinónimo de qualidade, mas neste caso específico, foi. Quando assumimos que chegou o fim através do abrandamento de velocidade, estes rapazes seguram a onda sonora mais um bocadinho, com criatividade e imprevisibilidade de excelência em, por exemplo “All Your Light”.

Pouco depois dos 30 minutos, enquanto as guitarras oferecem riffs de mão aberta, é apresentada a seguinte frase na tela traseira de palco «As bandas a sério não precisam de cantar». O público reage meio frouxo porque, na verdade, esta banda canta. Logo em seguida «Quem disse que éramos uma banda a sério?» e agora sim, ovação total e risada por toda a parte. Esta interação não-convencional e autoconsciente resultou rigorosamente bem porque: foi sempre exibida em momentos cirúrgicos e criou uma ligação forte entre emissor-receptor. E o maior factor em comum entre os dois tinha que ser contemplado para mais um feroz rugido da plateia – «Obrigado por nos emprestarem o vosso nome, adoramos-vos.» – gesto simbólico e bonito, que evidenciou um cuidado extra na presença visual sempre exibida em português. Não esperávamos menos depois do empréstimo não-remunerado.

O ataque final de “Feel it Still”, indiscutivelmente o maior sucesso dos Portugal. The Man, transformou-se num monstro muito mais peludo em palco graças à instrumentalização mais forte e viçosa e foi antecipada pela mensagem: «Não se preocupem, vamos tocar a tal música a seguir». Efectivamente, esta intensidade ampliada na instrumentalização foi algo que se sentiu durante todo o concerto. Das duas uma, ou tocam de forma recatada em estúdio, ou são mesmo muito bons ao vivo. Votamos na segunda opção.

SETLIST

  • For Whom the Bell Tolls (Metallica cover)
    Another Brick in the Wall Part 2 / Purple Yellow Red and Blue
    Number One
    Live in the Moment
    Creep in a T-Shirt / Children Of The Revolution (T. Rex cover)
    Atomic Man / Gimme Shelter
    Modern Jesus
    All Your Light (Times Like These)
    Hip Hop Kids
    Holy Roller (Hallelujah)
    Feel It Still