Mogwai & Primal Scream, A Imensidão do Palco NOS

Mogwai & Primal Scream, A Imensidão do Palco NOS

2019-07-11, Passeio Marítimo de Algés
Nero
Inês Barrau
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As bandas escocesas, em dias diferentes e concertos bem distintos, enfrentaram as vicissitudes do gigantesco palco principal do NOS Alive.

Alguém nos fez, em conversa, uma observação com bastante pertinência: que o palco secundário do NOS Alive, o agora Palco Sagres, todos os anos produzia concertos memoráveis e que era bastante raro o mesmo suceder no palco principal.  Terá que ver com a dimensão do palco e do espaço que se configura, cheio de distracções à sua frente, com a dimensão das bandas para preencher esse mesmo espaço, ou talvez com o público que, mais generalista ali, “para lá da mesa” tem uma reacção epidérmica à música, ao contrário daqueles que se perfilam no, normalmente ao barrote, palco da cerveja.

Não pode ser feita tábua rasa com estas observações, afinal já vimos excelentes concertos no palco maior do festival, mas também não podem ser desconsideradas. E um bom exemplo disso foram os Primal Scream.

Em 2011, a celebrarem o seu magnífico álbum “Screamadelica”, deram um concerto colossal na “tenda”. Nessa data, estes Black Crowes da fusão do rock ‘n’ roll com a música electrónica provaram em Algés que são uma das bandas mais subvalorizadas na história da música. Um som com um corpo perfeito, uma coesão tremenda e rebuçados como o processamento da voz de coro, cujas harmonizações criavam a dimensão de um coro de 5 ou 6 vozes, como foi registado por Denise Johnson no álbum, ou do grande trabalho de saxofone. Os backups samplados nunca surgiram “por cima” da banda e isso permitiu a criação de dinâmicas irresistíveis. Foi memorável! Desta vez, as coisas estiveram bastante longe disso.

O concerto dos escoceses foi antecedido por uma experiência chocante. A actuação da Perry Farrells’ Kind Heaven Orchestra. Antigo líder de pilares rockers como Jane’s Addiction ou Porno For Pyros, Perry (bandas que evocou, de forma quase irreconhecível, no curtíssimo alinhamento) surgiu no Alive para fazer o lançamento do álbum “Kind Heaven”. Este novo álbum assinala os 18 anos desde o primeiro trabalho a solo do artista, “Song Yet to Be Sung”, e conta com convidados como Taylor Hawkins, Mike Garson, Matt Chamberlain, Chris Chaney, Tommy Lee ou Peter Distefano. Impressionante, sem dúvida. Mas o concerto apenas nos mostrou aquilo que um dia será o cadáver do rock ‘n’ roll. A banda pouco ensaiada, promoveu um decadente espectáculo de botox e silicone.

Então, chegaram os Primal Scream. Muito pouco público diante do palco, considerando o habitual no festival. O balanço de “Movin’ On Up” foi suficiente para cativar a atenção de mais gente para o concerto, aumentando a concentração de público – um fluxo constante durante todo o alinhamento. Mas o quinteto de músicos pareceu sempre algo desamparado na imensidão do palco, exceptuando Bobby Gillespie. O frontman percebeu cedo a maioria de cidadãos britânicos ali presentes e o seu humor tornou-se um espectáculo à parte. Foi com o final a aproximar-se e com a propulsividade de “Swastika Eyes” que a efusividade se estabeleceu de vez no concerto. “Loaded”, “Country Girl” e “Rocks” fecharam o concerto com chave de ouro, mas ainda assim a milhas do fabuloso concerto há oito anos atrás.

Valeu ainda pelo vicioso rig de Andrew Innes. O guitarrista muniu-se de uma 1956 Les Paul Jr (alternou com uma Custom) e esteve amplificado por um stack Marshall, com as colunas dispostas lado a lado. Em cima de uma delas, o imponente cabeço Plexi Super Lead, e da outra uma dupla de unidades vintage Roland RE-201 Space Echo.

No dia anterior, os Mogwai  mostraram que são uma banda com princípios melódicos cada vez mais acentuados, como veículo emocional, em detrimento duma relação dinâmica de choque dos primeiros trabalhos. Contudo, a banda não abdicou totalmente dessa terapia, mas ganhou mestria em trabalhá-la, juntando a essa maturidade a força melódica e até um trabalho maior de exploração de elementos diferentes ao seu corpo instrumental [programação, por exemplo]. E mais que um concerto de surpresas, foi um concerto de confirmações. Como a que temos sobre os Mogwai, de que são uma das grandes bandas da transição entre milénios. Os Mogwai estiveram, aqui, bem sólidos, a soar como uma poderosa unidade e a conseguir um tremendo corpo harmónico. E quando fizeram ecoar a sludgesca “Rano Pano”… Um estrondo seguido da beleza etérea de “New Paths To Helicon”, o momento mais alto do concerto e uma suma perfeita da mestria supracitada que os escoceses adquiriram na gestão de dinâmicas.

Um concerto bonito, como só o shoegaze ou o post-rock conseguem ser, quando executados na sua plenitude, que apenas deixou um amargo de boca. A falta de intimidade com a banda e com a música. O som, tal como sucederia de seguida com os The Cure, esteve fenomenal.

SETLIST

  • Crossing the Road Material
    Party in the Dark
    I’m Jim Morrison, I’m Dead
    Rano Pano
    New Paths to Helicon, Pt. 1
    Auto Rock
    Old Poisons
    Remurdered
    Mogwai Fear Satan