Primavera Sound | DIA 2

Primavera Sound | DIA 2

2013-05-31, Parque da Cidade, Porto
Nero
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Esta foi a noite da batalha pelos despojos deixados após o concerto arrasador de Swans.

Por teimosia de dissertação repete-se a questão dos méritos do mundo das amplificações com o da electrónica. Uma noite como a de hoje no Primavera é um exemplo clarificador da inocuidade de tal debate. A violência e elegância das actuações dos Om, Swans, Metz, Glass Candy, Hot Snakes e Fuck Buttons, ofuscaram a banda que encheu o belo Parque da Cidade do Porto. Não faltarão textos a dizer o quão brilhante foi o concerto dos Blur. Este não será um deles.

Três Fender Twin Reverb serviam de parede a uma steel guitar. Do outro lado do palco está um par de colunas Orange que sonorizam uma cabeça Orange e uma Mesa/Boogie – é difícil discernir os modelos que alimentam uma Telecaster, tal como é difícil desvendar os monstros que fazem rugir o Precision Bass. No centro está Michael Gira, amplificado por um Orange Rockerverb e uma cabeça Gallen Kruger. O som que sai de palco é titânico e o volume faz a colina em redor do palco SuperBock parecer uma pequena sala de espectáculos, com as fundações a estremecer devido à lei física e implacável da violência de decibéis. Os Swans dão um dos concertos do ano. Uma actuação homérica, tão encantadora quanto explosiva. Dizia o poeta Botto que a “alma é como um cisne, canta melhor quando morre”, os Swans morreram em palco e sangraram a cada nota – Gira entoa que “sangre es vida, vida es sangre” e a cada nota, cada tensão harmónica e rítmica [e reforce-se as ênfases rítmicas dizendo que nunca se viu um kit de Zildjians levar tanta porrada], morremos um pouco com o concerto dos Swans. Morre qualquer coisa na nossa alma, num concerto como este – talvez a noção de que jamais sofreremos um impacto com o mesmo grau de intensidade, que jamais ouviremos um cisne a cantar com tamanha imponência, como a primeira vez em que se ouviu “To Be Kind”, “She Loves Us” ou “The Seer”.

Um estado de graça não é algo atingido levianamente. Os Om foram capazes de induzir no pouco público que os esteve a ver uma sensação parecida. Os mandalas desenvolvidos pelos baixos de Al Cisneros são como odes lisérgicas. Dois stacks Ampeg SVT Pro e dois modelos lite da mesma casa foram o altar a partir do qual os Om celebraram uma liturgia megalítica, tornada leve pela capacidade dinâmica das baterias de Emil Amos e elevadora através dos apontamentos de Aubrey Lowe. As vocalizações angelicais que este músico espalhou pelo Primavera, juntas da envolvência verde do espaço, poderiam, por pequenos instantes, fazer pensar que se estava num éden materializado. Temas como “State of Non-Return”, “Gethsemane” ou “Sinai”, são prova de que “Meditation is the Practice of Death”.

Nos textos criacionistas invariavelmente irrompe o mal. E foi, sem dúvida, um crime colocar os Mão Morta em paralelo com os Swans. Criminosa, punk, agressiva, foi também a actuação dos Metz. O trio canadiano torna qualquer palco numa garagem onde se juntam rufias para beber copos despreocupadamente. Sonic Youth, Nirvana circa “Bleach”… não, a impertinência dos Metz tem outra origem qualquer, uma arrogância juvenil de pensarmo-nos sabedores de tudo. Há uma atitude mais rock n’ roll. O peso demolidor, com o final trasvestido de sludge, que os Shellac estremeceram o palco ATP foi uma das surpresas para a Arte Sonora.

Em torno do palco principal ouve-se a verdadeira Primavera. No palco maior os Local Natives sentiram-se como se fossem de facto indígenas, grande final com “Sun Hands” e foram acolhidos dessa forma, tal como os Grizzly Bear e, naturalmente, os próprios Blur. A banda liderada por Damon Albarn tinha a noite garantida – basta pensar em quantos jogos/karaoke contam com a “Song 2” ou quantas vezes tornou a passar na rádio “Girls & Boys”… E talvez tenha sido esse um dos factores para a forma excessivamente “relaxada” como a banda se apresentou em palco, ou então a noção clara dentro do próprio colectivo de que o principal motivo de interesse na sua música é ter sido a primeira semente que deu frutos, a partir da criatividade de uma das mais importantes mentes musicais contemporâneas das ilhas britânicas.

Há gente suficiente prostrada diante dos Blur. Portanto, é hora de ir apoiar os Hot Snakes.

 

Somos saudados com uma pergunta: “Do you wanna listen to some portuguese rock n’ roll”… O guitarrista John Reis é luso-descendente e como fica sempre bem uma dose de patriotismo há que dizer que toca, em bom português, “à fartazana”! Com um Vox AC30 e uma cabeça Orange AD30, amplifica uma curiosa 1977 Gibson Les Paul, com um P90 na bridge um lipstick Silvertone no neck. Em conjunto com a Harmony de Rick Froberg, amplificada por um Twin Reverb, os Hot Snakes apresentaram o som de guitarra com mais classe do festival. Esta digressão continua a reunião da banda em 2011 e como se trata de festa e tiveram dois bateristas na sua carreira [Jason Kourkounis nos 2 primeiros álbuns e Mario Rubalcaba em “Audit in Progress] o setlist divide-se para ambos subirem a palco.

Uma andorinha não faz a Primavera e a música não se faz apenas de colossos de amplificação. O synth pop dos Glass Candy, side project de Johnny Jewell, trouxe o arco-íris à segunda noite do Primavera Sound. Ida No não é a melhor cantora do mundo, mas a vida que consegue colocar no seu timbre torna-a genuína, juvenil, doce. O glamour disco dos temas, a mestria de Jewell na manipulação das programações, brilhante nos break beats ou nas mudanças drásticas de tempo, a execução simples, mas de extremo bom gosto na sintetização, e as melodias também elas doces, fizeram deste um dos melhores concertos do festival.

A electrónica haveria de ainda fazer estremecer o palco ATP. Os Fuck Buttons, para lá da sensação de divertimento paradoxal em escrever o seu nome, ora envolveram sonicamente ora demoliram auditivamente. São fascinantes as dicotomias instintivas de Andrew Hung e de John Power, ora no electro rock, ora no drone! Uma actuação intensa que tocou o intenso álbum de estreia, “Street Horrrsing”, e o mais ponderado “Tarot Sport”, ao mesmo tempo que ficaram bastantes pistas para “Slow Focus”, que irá ser editado dentro de sensivelmente um mês.

“All Tomorrow’s Parties”, saúda-nos o palco ATP, e enquanto escrevemos o texto em casa emprestada, no Hard Club, ouvimos a after-party por aqui por cima na Sala 1. Parece que a festa de amanhã já começou.

 

FOTO: André Henriques | Optimus Primavera Sound