Reportagem Sumol Summer Fest

Nero

Por Filipe Weber

Fotos:J.Martins

“O primeiro festival, do resto da tua vida”

Num mundo perfeito, a filosofia que faz propaganda neste festival era uma boa forma de o regulamentar, porém, como em todos os mundos e leis, não há perfeição que resista ao momento em que entra em prática qualquer teoria ou intenção. E se, no final, tudo correr bem, então, pelo menos, valeu a pena ter idealizado.

Foi mais ou menos assim que decorreu mais uma edição do Sumol Summer Fest. Um festival que assume uma vertente de iniciação para muitos dos presentes, mas que também tenta criar uma atmosfera com todos os predicados da cena reggae, e nesta edição, passou com distinção. Com um espaço melhorado e um cartaz interessante, prometia duas noites de vibrações positivas, de dar graças à dádiva divina de estar vivo, ideal que parece comum a todos os outros festivais. Houve tudo isso, mesmo que por um bocadinho, nalguns casos, dado que a idade precoce é mais propicia a abusos, o INEM não tivesse mãos a medir. Contudo, uma ressaca também pode ser uma boa lição de vida e uma memória bastante útil.

Uma primeira noite que começou em ritmo calmo, e até ao anoitecer o espaço ainda estava longe de se apresentar cheio. Já sem sol, Nneka tentou ser a estrela da noite, mas o alinhamento intimista não foi a melhor escolha para este concerto, nem para este público. Mais atentos à cena e também mais integrados no espírito do festival, os Fat Fredy´s Drop não facilitaram e acordaram a plateia, aqui já quase lotada, que tinha ficado como que a pensar na vida. Mais tarde Albarosie, atento aos acontecimentos anteriores, entrou a todo o vapor e fixou o score da noite, celebrando com a plateia até ao fecho da primeira data em terras da Ericeira.

Na segunda e última noite já há mais gente que foi entrando devagar. É já com a actuação de Richie Campbell, um dos representantes lusos e dos mais saudados, a decorrer que a noite chega ao parque de campismo da Ericeira. Mais um momento de euforia com a entrada dos brasileiros Natiruts, que trouxeram um embalar de canções a uma assistência que os acompanhava letra a letra, momento alto em “Liberdade Para Dentro Da Cabeça”, que faz sentido para o cultivo do livre arbítrio como formador de carácter forte e personalidade – claro que podia ser esta a mensagem, mas como diz o outro: “vocês sabem do que eu estou a falar”. E, deixando à consignação as reflexões às afirmações anteriores, já entrou Donavon Frankenreiter e continua tudo a aderir ao momento. E foi mais completa esta actuação. Mesmo desviado dos ritmos vigentes conseguiu manter a alma acesa, tendo ainda havido direito a um pequeno brilharete de um fã que, depois de chamado ao palco para entoar o refrão… assim, entregou a plateia de bandeja a Anthony B, cuja energia era tanta que o recinto transbordou de vibração, e foi mesmo o melhor do festival. Apesar da diferença fonética da pronúncia jamaicana, Keith Blair é um personagem enorme e, de bengala em riste, ditou as modas até ao final das festas no palco principal, tendo ainda tido tempo para chamar ao palco novamente Richie Campbell (numa espécie de dueto soundsystem) para nova explosão da plateia que teimava em arredar pé.

Destaque também para a actuação de Dj Ride que, num recinto a rebentar pelas costuras, divulgou uma vez mais o seu enorme talento. Fim de festa, de sol e de muita coisa diferente do dia-a-dia, qualquer um era capaz de se habituar a esta boa vida!