Ritek Paredes de Coura: dias de Battles e Gremlins!

Nero

Fotos Daniel Mendonça

No terceiro dia de festival, o ócio promovido pelas sombras junto ao rio leva-nos lentamente até à actuação de The Joy Formidable, que abriram bem o palco principal, com um power pop muito bem feito e coeso, com poucos segredos: a boa voz de Ritzy e um óptimo baixista como é Rhydian Dafydd. Foi pena o concerto ter estado tão afastado duma ligação na ordem do cartaz, que seria mais natural, com Marina & The Diamonds.

…And You Will Know Us By The Trail Of Dead surgiram com uma parelha de Tiny Terrors da Orange (um para cada guitarra) e um SVT da Ampeg a debitarem um volume monstruoso que pareceu ter actuado contra a própria monição de palco, o que acabou por retirar alguma coesão à banda nos primeiros temas, ao que acresce as constantes trocas entre guitarra e bateria de Jason Reece com Conrad Keely – o primeiro parece portar-se melhor atrás do kit de bateria. “Tao Of The Dead” representa 13 anos de carreira e uma maior adesão a um sentido post rock pintalgado por uma atitude muito punk. Contudo parecem ainda longe duns Mars Volta, por exemplo, até porque quiseram dar tudo para se mostrar ao nosso público e isso fez com que a banda demorasse a acalmar o espírito e entrosar concentração com postura.

Então seguiu-se o início da batalha por best act nesta edição do Paredes de Coura. Os Battles usaram como armas para a pretensão ao título uma batalha interna entre uma alma esquizofrénica de elementos melódicos excêntricos, de desconstrução do óbvio, sem nunca perder o equilíbrio entre aquilo que é fascinante para a banda, na sua exploração explosiva duma fusão com prog e electrónica, e o que é fascinante para o público. Um concertão para lembrar durante vários anos ou exigir um regresso rápido. Uma banda a conseguir níveis de execução dentro do universo de precisão de matemática avançada com que nos presenteiam em estúdio. Curiosa a forma como o baterista John Stanier usa o crash, altíssimo e isso não atrapalha a precisão metódica e brutal como acentua as candências de cada viagem da banda. O concerto acabou por ser um contraste emocional gigantesco com a actuação dos Deerhunter. Principalmente pela falta de disciplina nos momentos em que seguiam uma direcção dentro do psicadelismo do noise rock. Não deixa de ser verdade que Bradford Cox tem boas ideias e capacidade enquanto guitarrista para as corporizar, mas o contraste com o concerto anterior, pelo menos para mim, foi prejudicial para a banda.

O momento mais celebrado da noite foi a subida ao palco do duo Kings Of Convenience, com momentos de adoração aos noruegueses Erlend Øye e Eirik Bøeque roçaram o histerismo. Percebendo imediatamente que o público estava ali para eles, souberam dinamizar um concerto que pela sonoridade do projecto é tendencialmente melancólico. É muito bom os cruzamentos vocais entre ambos os músicos e a simplicidade e eficácia das linhas de guitarra, mas não deixa de ficar a questão se a música necessitava dum remake com ares de novo milénio de Simon & Garfunkel… em Paredes de Coura há espaço para tudo e de qualquer forma, a perfeição e subtileza de execução dos elementos descritos acima tornou este num grande momento também. Diria que especulando uma votação do público este seria o concerto escolhido como o melhor do festival.

Mas, para a Arte Sonora, os Battles continuavam a liderar este terceiro dia de Paredes de Coura até Marina & The Diamonds vir baralhar as contas com o seu vozeirão versátil e forte, suave e emocionante – uma geneologia vocal que poderia ligar-se a Kate Bush, Annie Lenox, ao gospel e ao soul… com uma banda carregada de coesão e um som directo e dinâmico através dos elementos eléctricos, a cantora aproveitou para encher o palco com temas como “I’m Not A Robot”, como se fosse necessário afirmar a humanidade incrível da sua voz que, continuando as metáforas, é capaz de levantar os mortos enquanto canta “Living Dead”. Sensual e provocante, faz um trocadilho com o público a dizer que quer voltar rapidamente “Will you come if I come?”, toda a gente sabia que os britânicos tinham sentido de humor, ao que parece uma grega nascida em Gales também!

Os festivaleiros sabem que o Paredes de Coura está perto do fim e a noite dura até ao dia seguinte, ainda assim a exaustão não tem lugar neste festival e os Linda Martini comprovam-no pela reacção que tiveram. Jogavam em casa, num festival e público que parecem ser feitos à sua medida. Descrevendo a sua “Casa Ocupada” conseguiram o melhor concerto que vi de suporte a este último álbum. Muito certinhos e com atitude em doses certas, sem prejudicar a execução. Vinda de Espanha em cima da hora, devido ao cancelamento dos Foster The People, Maika deu boa conta de si e deu razões de sobra ao público para não se quedar num lamento prolongado devido à ausência dos americanos. A explorar, sem dúvida.

Depois de ter visto recentemente Two Door Cinema Club esta presença no Paredes de Coura confirmou tudo aquilo que esperava da banda. Sam Halliday e Alex Trimble, trabalham magnificamente juntos – é uma parelha de guitarristas que, sem qualquer desprezo para outras bandas, é mais comum noutros géneros musicais em que se exige mais das 6 cordas – e são acompanhados por uma secção rítmica muito trancada, cheia de groove. Depois a isto acresce a capacidade de composições perfeitamente contemporâneas e que atingem o público, uma banda que é muito mais para lá do famoso single “What You Know”. Outro dos concertos que disputa o título de melhor nesta edição e que foi logo seguido por outro candidato: Mogwai.

Os escoceses foram sublimes a apresentarem o seu último disco e mesmo assim trabalharem outros registos anteriores. A actuação foi como cada uma das suas músicas, em crescendo – até na adesão do público ao que estava a acontecer – de intensidade, de força e emotividade. Ainda que tenham faltado dois favoritos pessoais, como “Friend Of The Night” e “Death Rays”, não se fica indiferente a outros como “Auto Rock”, “Mexican Grand Prix” ou “Hunted By A Freak”, do já algo longínquo álbum de 2003, “Happy Songs For Happy People”. Dá a sensação que o público também terminou o concerto rendido à banda. A verdade é que nunca teve grande alternativa.

Aumentando a intensidade de distorção e agressividade, surgiu a mistura de punk e thrash que sujam os beats de Death From Above 1979. Muito celebrado este concerto que marca a vinda dos canadianos Jesse F. Keller e Sebastien Grainger ao nosso país desde que anunciaram a sua reunião. O baterista/vocalista tem o som de bateria com que Lars Ulrich sonhou em “St. Anger” e o baixista rebentaria qualquer parede de betão, com um som de baixo que, sinceramente, está mais próximo do sludge que do punk. Uma banda única que exigiu todas as forças que restavam ao público e que trouxe muitos dos nuestros hermanos a Paredes de Coura. Os que eventualmente permaneceram puderam assistir a mais um grande concerto de Orelha Negra, que ainda assim não conseguiu suplantar o que deram no último Optimus Alive. De qualquer forma, abriram um set com “Since You’ve Been Gone”, na versão remixada com a voz de Orlando Santos, que foi muito aclamado por um público carregado de orgulho na nacionalidade da banda. Entre “M.I.R.I.A.M.”, “Barrio Blue”, “We’re Superfly” ou “Cura” brincaram com todas as fontes de onde bebe o seu vasto universo musical. Para a “Memória” fica um grande festival, um grande público e apenas o desgosto da derrota na final do Mundial sub-20 em futebol.

Que o Paredes de Coura se mantenha cheio de saúde. Até para o ano!