Rock in Rio Lisboa – reportagem do 1º dia

Inês Barrau

Quando a Arte Sonora chegou ao Rock in Rio, já os Mão Morta estavam a tocar no palco Sunset com Pedro Laginha, vocalista dos Mundo Cão. Como é habitual, Adolfo Luxúria Canibal estava imparável, dançando freneticamente, e como já era de esperar as duas vozes, Adolfo e Laginha, conjugaram perfeitamente. Pena que este concerto tenha começado mais cedo do que o previsto inicialmente.

 

[Por Paulo Basílio]

TERATRON + RAMP

No Sunset, Teratron foi uma descarga de energia, puro electro rock, power trio + DJ + MC e mesmo os mais metaleiros presentes não ficaram indiferentes. A filosofia deste palco por vezes oferece-nos experiências singulares e foi o que aconteceu ao ver o Ricardo e Paulinho dos RAMP subir ao palco… só me vinha à cabeça tempos de puto com o início dos Ramp, os Braindead (referidos recentemente aqui na AS) e os Thormentor, as proeminentes bandas de metal nos anos 90 da “margem sul”, o que anunciava que iria ser uma noite de nostalgia! O enquadramento das duas bandas foi perfeito, aumentando ainda mais o poder rítmico com os dois bateristas em palco perfeitamente enquadrados. Os Ramp estiveram com grande nível, a soar com grande poder no PA, e apesar de a voz de Rui Duarte por vezes ser engolida pelo resto da banda mostrou ser uma das melhores vozes de metal em Portugal e o excelente frontman a que já nos habituou. Antes de terminarem ainda nos brindaram com a participação do Quaresma na guitarra em Drop Tunning, que veio juntar-se à dupla de guitarras do Ricardo e do Tó Pica, que já por si só conseguem uma parede de som coesa e bem presente. E o momento foi a descarga total no palco Sunset. Grande parceria.

SEPULTURA 

E era tempo de correr para o palco Mundo, que abriu com os Sepultura, já com meia casa – o que representa uns bons milhares de pessoas. Atitude foi o principal mote da actuação, com o som a saturar no PA, tentando ganhar força. Foi nos temas do último trabalho, com a malha “Kairos”, que o show engrenou, e se já gostava do último trabalho da banda (polémicas à parte de quem está ou não na banda), comprovei que os temas resultam muito bem ao vivo, voltando a sentir a força da guitarra do Andreas Kisser – na minha opinião continuo a achar que o som do baixo do Paulo Jr devia ser trabalho ao vivo para suportar melhor o trabalho melódico do Andreas. Na parte final do concerto já deu para sentir um pouco melhor o trabalho dos Tambours du Bronx, potenciaram toda a componente percussiva de Sepultura, saudando o público com uma excelente versão do estrondoso “Fever”, e engrandeceram os clássicos como “Territory” e “Roots Bloody Roots”. Mais uma joint venture que resultou muito bem e perfeitamente enquadrada como espírito do festival.

Passagem pelo palco Vodafone a tempo da actuação dos Miss Lava, o quarteto de stoner rock entrou “p’ra matar” com o som bastante coeso, uma secção rítmica a segurar e comandar todo o balanço da actuação, libertando a guitarra para o riff making de grande classe e com Johnny Lee em alta rotação. Uma prestação pujante e que cativou bastante crowd que por ali ficou a gozar de um bom momento ROCK! Infelizmente não foi possível assistir à actuação de Bisonte [faltou-nos um horário e lamentamos o sucedido].

 

 

KREATOR + ANDREAS KISSER 

E é hora de correr para o Sunset para o arranque de Kreator, um dos ícones do Metal Europeu, a primeira banda do Ocidente da Alemanha a tocar no outro lado do Muro, e foi exactamente com “Extreme Agression” que cheguei ao gig. A banda, com uma energia contagiante e uma qualidade de performance a roçar a perfeição, infelizmente o som para fora não ajudou muito ao público sentir isso, as guitarras estiveram constantemente muito diluídas na mistura, tendo por cima a bateria e voz que não deixavam passar a intensidade que a banda tinha em cima do palco. Foi uma actuação cheia de clássicos [a fazer as delícias do recinto totalmente cheio], passados pelo “Terrible Certainty” e “Pleasure to Kill”. E chega pela voz do Millie a apresentação da parceria mais esperada da noite, com subida de um dos melhores guitarristas de Metal, Andreas Kisser, a saldar-nos com o clássico “People of the Lie”. E aconteceu um verdadeiro desfile de Jacksons no palco, assim como um momento de lendas vivas de um estilo do qual já poucos falam mas que ainda está vivo, o Trash Metal.

 

MASTODON 

E descemos (ou melhor, corremos) de novo até ao palco Mundo a tempo de uma das bandas mais progressivas do Metal/Rock, os Mastodon, a tempo do “Octopussy”. Este tipo de sonoridades nunca são fáceis de domar no ambiente de concerto, ainda por cima com as limitações de PA para as bandas de suporte, mesmo assim a banda conseguiu passar a sua energia e musicalidade, com um grande vibe que vinham do baixista e do baterista. O concerto foi uma inconstante com momentos grandes e triunfantes, outros completamente diluídos e dissonantes, típico dos Mastodon. Ressalvando a pouca segurança do baixista/vocalista, deu para deliciar com o cruzamento de harmonias entre as guitarras e a secção rítmica. Foi um grande momento, mesmo assim.

[Por Inês Lourenço]

EVANESCENCE

Às 21h35 Amy Lee [voz], Terry Balsamo [guitarra], Troy McLawhorn [guitarra], Tim McCord [baixista] e Will Hunt [baterista] entravam em palco. As músicas escolhidas por Evanescence para abrir foram “What you Want”, do último álbum “Evanescence” lançado em 2011, e ” Going Under” do primeiro álbum “Fallen”, de 2003.

Amy relembra que já passaram oito anos desde a última vez que banda tinha estado em Portugal, também no Rock in Rio.

A setlist foi-se desenrolando incidindo principalmente no último álbum, com Amy a alternar entre o microfone, os sintetizadores e o piano de cauda – sentada ao piano relembrou a música composta em Lisboa “Your Star”, e ainda “My Heart Is Broken” e “Lithium”.

A banda esteve bastante competente, mostrando um som ao vivo mais “pesadão”  que nos álbuns e Amy Lee mostrou uma voz poderosa, se bem que por vezes com algum descontrolo em algumas notas.

O público, na sua maioria ansioso por Metallica, estava um pouco indiferente à presença de Evanescence em palco, o que já seria de esperar – cabia à banda saber puxar mais, era necessária mais interactividade por parte de Amy para quebrar o gelo. A maior receptividade veio com a música final “Bring Me To Life”, um dos maiores êxitos de Evanescence. Não teria sido má ideia começar por aqui.

 

Set list Evanescence

What You Want

Going Under

The Other Side

Weight of the World

Made of Stone

Your Star

My Heart Is Broken

Lithium

Sick

The Change

Sober

Oceans

Imaginary

Never Go Back

Bring Me To Life

 

A AS assiste no palco Vodafone Showcases ao concerto da banda portuguesa Devil in Me. Nota máxima. Conseguiram tornar grande o palco mais pequeno do recinto. E apresentar [e representar] honrosamente o movimento hardcore português a um público que não foi ali para os ver, mas que se foi acumulando e que não desarredou pé até à última nota. Excelente momento de profissionalismo e de capacidade de conquistar um público. Todo o nosso respeito. E a banda ofereceu-nos ainda um momento triunfante com a subida a palco de Pedro Quaresma para ajudar a aumentar os dBs, numa cover de “Sabotage” dos Beatie Boys.  

[é ainda de sublinhar o bom som deste palco]

 

METALLICA

Mais uma vez o Rock in Rio permitiu que a família Metallica se reunisse, e desta vez com um pretexto muito especial – a tour de comemoração dos 30 anos de existência da banda, que já vão para 31. Como já tinha sido anunciado, o presente para todos os fãs era tocar na íntegra “The Black Álbum” [na realidade o álbum chama-se “Metallica”, mas ficou conhecido por The Black Album], de 1991.

Às 23h40 ouvem-se os primeiros acordes e as vozes em uníssono do público a trautear “The Ecstasy of Gold” (composição de Ennio Morricone); e no ecrã assistimos a excertos do filme de 1966, “O Bom, O Mão e o Vilão”.

Seguidamente em palco surgem Lars Ulrich[bateria], James Hetfield [voz e guitarra] Kirk Hammett [guitarra] e Robert Trujillo [baixo]. O quarteto fantástico para abrir em força e sem pausas escolhe “Hit The Lights”, “Master Of Puppets” e “Fuel”.

James Hetfield agradece mais uma vez a presença do público português.

Ao som da bateria de Lars, segue-se “From Whom The Bell Tolls  e “Hell And Back” retirado do EP “Beyond Magnetic”, editado em Dezembro.

E damos início a uma viagem a Los Angeles em 1990, guiados por um vídeo que nos mostra imagens da banda em estúdio nas gravações do álbum homónimo,  que lançou o grupo no mainstream. No vídeo recordamos ainda a era da corrida às lojas aquando da saída de um cd (o que deixou de existir com o digital) e recordamos também fotografias de Metallica da época.

A banda decidiu inverter a ordem das músicas do álbum,pelo que ouvimos “The Struggle Within”, “My Friend of Misery”, “The God That Failed”, “Of Wolf and Man”, o clássico “Nothing Else Matters”, “Through the Never, “Don’t Tread on Me”, “Wherever I May Roam”. Em “The Unforgiven”, Hetfield larga a guitarra eléctrica e agarra-se à semi-acústica. Continuando relembramos “Holier Than Thou”, “Sad but True” e para acabar esta viagem por 1991, resta-nos “Enter Sandman”, com a qual vem a já habitual pirotecnia.

Para o explosivo encore, a banda escolhe “Fight Fire With Fire”, e fazendo jus ao nome, várias labaredas de fogo vão aparecendo em palco. De seguida ouvem-se pequenas explosões e sabemos que vem aí “One”, que é apresentada com um jogo de luzes e lasers.

“Seek & Destroy” finaliza mais uma noite que fica na memória da família Metallica, que não faltou ao convite dos patriarcas.

Metallica confirmaram mais uma vez porque são um das bandas mais emblemáticas de metal de sempre, e nem os 30 anos retiraram a energia e a entrega em palco. E se é verdade que já vimos uns quantos concertos com um nível de execução técnica a roçar a falta de respeito pelo público,também é uma grande verdade que esta actuação apagou más recordações, principalmente na segunda metade, com a banda já quente e bem afinada.

[Lamentamos não vos poder mostrar fotos de Metallica, mas a banda reduziu o número de fotógrafos com acesso ao fosso. E somos alheios aos critérios de selecção dos meios autorizados]