Savages em descolagem perfeita

Savages em descolagem perfeita

2017-07-07, NOS Alive, Passeio Marítimo de Algés
Carlos Garcia
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O Heineken ao fim de tarde é um avião na pista pronto para descolar mas com as rodas ainda firmemente coladas ao solo.

O palco Heineken no fim de tarde é um espaço que ainda necessita de uma grande dose de propulsão. Comparável talvez a um avião que consome a maior parte do seu combustível na descolagem já que o impulso para meter um bicho de não sei quantas toneladas em pleno ar tem de ser considerável. No verão, a noite desce tarde, o público ainda vai entrando e ambientando-se ao espaço do recinto e não existe ainda aquela sinergia que o consumo de decibéis musicais e bebidas alcoólicas proporcionam ao longo da noite. O Heineken ao fim de tarde é um avião na pista pronto para descolar mas com as rodas ainda firmemente coladas ao solo. No caso de bandas que por sua natureza sejam mais leves ou ambientais, o início de voo pode ser suave, sem que se perceba que houve uma transição entre chão e voo livre ( e os Rhye que ocuparam este horário no dia anterior são um bom exemplo de como isto pode ser feito). Já uma banda que seja toda ela energia e impulso frontal tem sempre uma tarefa árdua pela frente neste espaço, a esta hora.

Neste quesito as Savages muito mais do que cumpriram. Na verdade fizeram aqui uma espécie de distorção espácio-temporal, fazendo parecer que estamos a assistir aquela banda que toca no Heineken quando os cabeça de cartaz do palco principal terminam, e que conseguem aproveitar toda a energia criada por estes.

Pós punk em roupagens femininas, esta banda de mulheres no nosense já é uma presença habitual em terras lusas. E e relação parece vir a ser duradoura. A vocalista Jehnny Beth poderia ser a irmã gémea há muito perdida de Brian Molko (as roupas e o eyeliner poderiam facilmente ser intercambiados entre os dois), mas com doses triplas de atitude e energia demoníaca. Jenny tem em palco aquela atitude de não se poupar a nada e tocar como se aquele concerto fosse sempre o último. Camisa aberta, cabelo negro repuxado e uns muito corajosos sapatos de salto vermelhos, ela é uma Dorothy mais velha a tocar na ressaca das viagens a Oz.

A vocalista Jehnny Beth poderia ser a irmã gémea há muito perdida de Brian Molko

“I Am Here” abre com a batida marcial de Fay Milton e a partir daí a banda nunca mais larga o osso. As Savages não tem qualquer tenção de deixar o público ficar complacente e apático. Sabem que cada música tem de cavalgar nos ombros da anterior até ao clímax final.

“Shut Up” consegue tornar até um palco veraneante, em pleno dia, numa atmosfera de fumo e obsessividade e “I Need Something New” tem um registo vocal à la Siouxie, com a bateria a marcar um compasso expectante até as guitarras se soltarem em distorção plena. “The Answer”, o single do último álbum “Adore Life”, é um hino épico e negro, música marcial para ser tocada antes de cimeiras de G9, 20 ou 31.

Em “Hit Me” com toda a sua força punk, Jehnny resolve empreender uma pequena incursão pelo meio do público. O que é um eufemismo para dizer que toca a tirar os sapatos e mostrar como se faz um crowd surfing sem nunca perder a compostura e a atitude. E sem mandar uma nota ao lado.

Para o final, “Fuckers” tem um dos grooves mais contagiantes de todo o festival aliada à mensagem que mais precisa de ser passada nestes dias. Nolite te bastardes carborundorum. Don’t let the fuckers get you down. O avião descolou em força e está agora em pleno voo. Quase o melhor concerto do NOS Alive em 2017.

Fotos: Tomás Lisboa