SBSR II

SBSR II

2013-07-19, Meco
Nero
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Enquanto se caminha para a entrada do recinto, e percorrendo alguns metros em direcção ao main stage, ouve-se o arraial promovido por Manuel Fúria – a festa está rija, mas os Black Rebel Motorcycle Club estão a dar um dos concertos do ano!

“Hate the Taste” está a abrir o concerto e se o título poderia ser uma metáfora à forma como o recente álbum “Specter at the Feast” foi recebido por muitos fãs, a verdade é que o disco soa muito melhor ao vivo – ainda assim será pouco exposto, apenas se ouvirá “Rival” e “Sell It”, além de “Let the Day Begin”, a versão à banda do malogrado Michael Been, os The Call. O filho, Rob Been, está em grande, tal como Peter Hayes, que entrevista recente à Arte Sonora apelava a que fosse o público a transportar magia para o concerto, bom há que seguir os conselhos de rockstarsLeah Shapiro é, possivelmente, a menos exuberante baterista feminina, é em proporção inversa uma das melhores – que balanço! O concerto é irrepreensível entre o rock puro, o stoner e o blues, o público irá reagir em crescendo, sem alternativa devido ao swing que sai do palco, e a banda emociona-se no tema final “Spread Your Love”. Rob Been vem para junto do público e é visível nos ecrãs o sinal do baixista para que Hayes não termine o improviso e estique o tema/actuação. Permitam recorrer ao cliché de dizer que os BRMC perguntavam “Whatever Happened to My Rock n’Roll” e ao tocar a pergunta deram a resposta.

O concerto de BRMC não foi o melhor do festival até agora porque logo de seguida por um míssil! Os Tomahawk são, possivelmente, o projecto em que Mike Patton mais se mostra em forma e pertinente. É discutível, certamente. O que é indiscutível é a monstruosidade de músicos como o baterista John Stanier (que o ano passado visitou o SBSR com os Battles), o baixista Trevor Dunn e o guitarrista Duane Denison. Estão a ver tiki taka do Barça? É algo assim. “Flashback”, “Oddfellows”, “101 North”… síncopes, extravagância, groove e peso… “PORRA! CARALH*!” canta Patton. A utilidade do vernáculo será precisamente simplificar descrições redundantes. Desta vez, ao contrário do que sucedeu com Faith No More no Alive, Patton não dedica músicas a Cristiano Ronaldo – mas ao tocar “God Hates a Coward” deixa a dedicatória a um critério pessoal. “Oddfellows”, saído em Janeiro foi uma excelente forma de começar o ano, o concerto provou que a banda não se juntou para revivalismo, nem para jogos amigáveis. Duane Denison surgiu em palco com uma das cada vez mais intrigantes guitarras com braço de alumínio, da Electric Guitar Company, o seu próprio modelo de assinatura, que podem verificar aqui. Trevor Dunn, voltará a Lisboa já no dia 03 de Agosto, a acompanhar John Zorn.

Os Kaiser Chiefs acabaram por dar um concerto seguro, recorrendo aos truques usuais com os quais a banda simpatiza com o público. Usar como introdução “Another Brick in the Wall” é delírio garantido entre proto rebeldes, fechar com “I Predict a Riot”, “Angry Mob” e “My God” e voltar ao número de Ricky Wilson subir acima de um dos bares de cerveja e pedir uma para si, é o suficiente para o concerto nunca mais sair da memória de nenhum dos espectadores. Pelo meio alguns singles “velhos” como “Everyday I Love You Less and Less”, “Modern Way” ou “Ruby”. “Little Shocks” foi o único tema de “The Future is Medieval”, poderá especular-se que a banda não terá gostado muito do disco, o que é pena, ou então que esteve a trabalhar para o público e o truque do best of é o mais velho dos livros! Roubaram a grande maioria do público aos Clã, mas estes jogam em casa ainda assim e têm mais anos nas pernas. O orçamento é menor, mas o jogo acaba num empate.

Também em jeito best of os Killers abriram também com a reprodução de um clássico, neste caso dos The Who. Depois ter um single como “Somebody Told Me” na discografia e poder usá-lo para iniciar uma actuação é sinal de que há fartura para esbanjar. “Spaceman”, logo de seguida, confirma-o. Durante uma hora e meia os Killers colocaram o muito concorrido Meco a saltar, com refrões orelhudos, letras simples de repetir, luz, pirotecnia, etc. Entre o indie (lá muito no fundo já) e tiques de Springsteen naquela capacidade de contar histórias simples, rotineiras e torná-las a história de cada um, os Killers provaram que são neste momento um dos mais consistentes headliners deste tipo de festivais. Um concerto à moda antiga, com direito a solo de bateria inclusive, e Ronnie Vannucci está em grande forma. Brandon Flowers tornou-se um dos grandes frontman da indústria e além disso, não falha uma nota a cantar. Os Killers forçam a barreira da estilização American Idol e Glee, mas conseguem nunca a transpor verdadeiramente. “Miss Atomic Bomb”, “Human”, “Dustland FairyTale”, “Runaways”, “All These Things That I’ve Done”, “When You Were Young”… Estes tipos sabem fazer canções e sabem dar concertos.

 

FOTO: Catarina Torres