SBSR III

SBSR III

2013-07-20, Meco
Nero

Ao segundo tema os Queens of the Stone Age já estavam a dar o concerto do ano! Gary Clark Jr espalhou odores a pipas de bourbon e texas blues.

O último dia da 19ª edição do Super Bock Super Rock, começou com o punk rock de Tara Perdida no palco EDP. Com um novo álbum na calha “Dono do Mundo”, a setlist fez-se entre os novos temas como “O que é que eu faço aqui” ou “Lisboa” e temas antigos como “Batata frita”. Concerto onde não faltou moches e muito pó no ar. O concerto apenas pecou pelo mau som que se fazia ouvir no seu início.

A abrir as hostes do palco principal estavam também os portugeses Miss Lava, que se esforçaram por puxar pelo público que teimava em não dar mais do que uns parcos aplausos. Bons em palco, com atitude, e bom rock. “Feel My Grace”, “Crawl”, “Black Rainbow” ou “Sleep With The Angels” fizeram-se ouvir no final de tarde do SBSR.

Ash que também não conseguiram mais do que cumprir o que seria de esperar de uma banda com cerca de 20 anos de carreira. Um público que na sua maoria estava ali para ouvir os headliners QotSA, mais uma vez mostrou-se um pouco indiferente à música que se fazia ouvir. Apenas com as músicas “Shining Light”, “Orpheus” ou “Burn Baby Burn” o público aderiu.

No palco EDP e bem composto seguiu-se os We Are Scientists, conhecidos entre o público pelo single “Nobody Move, Nobody Get Hurt” agradaram aos muitos que estavam a assitir, muito provavelmente por tocarem um indie rock radio friendly.

Gary Clark Jr. é um puto de 28 anos, nascido e criado na meca texana do blues, Austin. O indíviduo é formado pelo meio e pela relação com o outro, se o outro for uma lenda contemporânea como Hendrix ou Stevie Ray Vaughan, ou um mito do delta blues como Robert Petway então estamos necessariamente diante de um dos mais fascinantes indivíduos do novo blues rock. Com talento, swing e técnica suficiente para ombrear com Joe Bonamassa. É precisamente com Robert Petway que Clark abre o seu magnífico concerto, “Catfish Blues” transforma o Meco nas traseiras de uma general store sulista. Talvez propositadamente, por pura devoção, a asa direita de Clark, o guitarrista Eric Zapata, veste-se com um poncho à Stevie Ray. A formação é ainda composta pelo baterista Johnny Radelat e pelo baixista Johnny Bradley, e soa como uma mistura de arrogância jovem e veneração pelos heróis do texas blues, como o próprio Stevie, mas também o seu irmão mais velho Jimmie Vaughan, ou Albert Collins – essa veneração é transparente em “If Trouble Was Money”, original deste último. Desvendar o material que o jovem guitarrista usa leva a meditar na velha questão do valor real dos instrumentos, afinal Gary Clark, na maioria do set, não usa nada mais que uma Epiphone Casino coreana [à volta de uns 100 paus no antigo escudo] e consegue ter um som… como diria o Elvis: Mercy! O domínio hendrixiano sobre uma dupla de wahs, um standard CryBaby e um Vox Real McCoy, fazem também parte de uma forte assinatura sonora. A “pesar” o som da banda há um mundo de fuzz num tema como “When My Train Pulls In”. “Bright Lights” não soa a despedida, mas a metáfora sobre os holofotes de protagonismo que esperam este músico e a sua carreira.

Desde o início da semana que se sabia que estaria gente até “em cima das árvores” para ver os Queens Of The Stone Age [QOTSA]. “…Like Clockwork” é o 6to disco para a 6ta presença em palcos lusos, apesar de “Lullabies to Paralyze” e “Era Vulgaris” não terem sido apresentados por cá. Mas este último disco foi Nº1 em vendas também neste cantinho, à semelhança do que aconteceu em mercados bem maiores e mais rock oriented. Ou então terá sido mesmo uma portuguesa saudade de quase 10 anos, o certo é que era sabido que os QOTSA teriam o Meco à sua mercê.

“You Think I Ain’t Worth a Dollar, but I Feel Like a Millionaire” explodiu no palco e o backlash da explosão alastrou pela maré de gente em frente a Josh Homme. Não vai haver qualquer tipo de compromisso na gigante onda de groove e percebe-se a força com que a banda está num pormenor como o contratempo de silêncio antes do revigorar do riff para o último refrão… “GIMME SOME MORE, GIMME SOME MORE”. Quando, sem pausas, ecoa “No One Knows”, ao segundo tema este é o concerto do ano! Vai-se sangrando dos ouvidos com o exagero de som nos timbalões de John Theodore, o PA está no limite e ouvimo-lo mesmo clipar! Infelizmente, este estalo tremendo de bateria será rectificado e os decibéis baixam um pouco.

As vendas de “…Like Clockwork” não são acaso ou fruto de hype. Quando surge o single “My God is the Sun” o público, extático, acompanha os QOTSA e o regozijo de Homme é notório. O rocker com aspecto e físico de high school jock conseguiu acender todas as luzes em seu redor, tal como “ensaiava” no loft do hotel em que nos exortava em jeito de profecia: “you know what to do, punch it”! Os imediatos antecessores do último álbum surgem na setlist em “Burn the Witch” e “Sick, Sick, Sick”, com a kyussiana “First I Giveth” voltam ao álbum que impactou o mainstream, “Songs for the Deaf”. Vendo a sucessiva resposta do público, os QOTSA arriscam o downtempo com “The Vampire of Time and Memory” e deixam o Meco respirar um pouco. Os dedilhados estranhos e cativantes que abrem a nova “If I Had a Tail” provam duas coisas: que “…Like Clockwork”, com toda a sua riqueza e detalhes de produção, não é um álbum de estúdio, a banda é capaz de o reproduzir com rigor académico; e que Josh Homme, como tem estado a mostrar durante meia-hora, é um guitarrista de recursos surpreendentes – é consensual que o guitarrista é uma das grandes mentes de riffs do segundo milénio, mas mesmo como lead guitar está mais pujante, seguro e criativo tecnicamente. Troy Van Leeuwen confessou-nos em entrevista, horas antes do concerto, que o seu frontman é zeloso do seu som e não gosta de revelar o seu rig. Comprovou-se esse secretismo através da dificuldade em decifrar que Homme está a usar um par de cabeças Greedtone, talvez a J-Hi100, que amplificam uma deslumbrante e pouco usual MotorAve Belaire. O som de Van Leeuwen, e do baixista Michael Schuman, é descrito pelo próprio em entrevista na próxima Arte Sonora.

Nestas considerações, o tempo discorre ao som de “Little Sister”, “Make It Wit Chu”, “Smooth Sailing”, “I Appear Missing” e “I Think I Lost My Headache”. E quando é lamentada a “The Lost Art of Keeping a Secret” aproxima-se o final que eleverá, de novo, o concerto para patamares apoteóticos através de “Feel Good Hit of the Summer”, “Go With the Flow” e “A Song for the Dead”. Acabou, os hereges podem ir ouvir DJs. Na memória fica uma das maiores liturgias de rock n’ roll celebradas em Portugal.

[A entrevista com os QOTSA teve lugar num hotel no centro de Lisboa perto das 20h00 o que nos criou o pesar de perder uma das bandas mais entusiasmantes e promissoras da actualidade nacional. Afinal, “Ultrabomb”, dos Quartet of Woah, ficou em segundo lugar na nossa lista dos melhores álbuns de 2012! Quem não esteve na palheta com os QOTSA e perdeu o concerto, que seja atingido por uma “ultrabomba”…]

 

FOTO: Catarina Torres