Rod Stewart, Magnífico

Rod Stewart, Magnífico

2019-07-01, Altice Arena, Lisboa
Nero
Inês Barrau
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Com a voz reservada para os momentos mais românticos e com notórias dificuldades devido a um joelho lesionado, Rod Stewart comandou uma banda fenomenal numa noite de classe e elegância. Já não se fazem rockers deste calibre.

“Infatuation” e “Having A Party” (original de Sam Cooke) abriram uma noite de enorme elegância e classe. É assim quando o homem no centro do palco é um Cavaleiro da Coroa. Também ficou claro que Sir Rod Stewart não olha a meios para ter os melhores escudeiros, tendo apresentado uma fenomenal banda, liderada pelo teclista Chuck Kentis (director musical de Stewart há três décadas), em que se destacaram o saxofonista Jimmy Roberts e Emerson Swinford, o guitarrista solo, que revelou alguns laivos de Jeff Beck, o lendário ás das seis cordas que teve Rod Stewart como frontman do seu Jeff Beck Group, antes de Stewart se lançar com os Faces.

Também em destaque estiveram, vamos chamar-lhes Rodettes, as bailarinas/coristas e ainda as três músicas (Julia Thornton, Caissie Levy e J’Anna Jacoby) que se dividiram entre violinos, percussão, bandolim ou harpa, todas lideradas pela excelente multi-instrumentista Jacoby, que já faz parte do Rod Stewart Group há alguns anos.

Após a animada “Having A Party”, o veterano rocker conversa com Lisboa. «Vamos tocar 23 canções, durante duas horas. O meu joelho não está grande coisa, mas a voz sim», refere antes da apropriada “Stay With Me”, clássico “daqueles” dos Faces. Emerson Swinford trocava novamente de guitarra, agora para um luxuoso modelo Duesenberg.

Luxuoso está também o palco, com os ecrãs a evocarem Las Vegas e o glamoroso mundo dos casinos, criando o contexto visual para outro clássico, “Some Guys Have All The Luck”. Para evitar estar sempre a repetir o adjectivo clássico, diga-se que do início ao fim, classe foi algo destilado durante cada segundo do concerto. Como sucedeu aqui, com o primeiro grande solo de Jimmy Roberts. O único lamento, nesta altura é o facto de o som sofrer com várias reflexões no fundo da sala, algo mais notório no som da bateria de David Palmer.

“Tonight’s The Night” abranda um pouco as emoções, mas depois “Forever Young” fá-las explodir com a sua propulsividade, o seu ambiente sonoro evocativo da música celta, na sua cadência e melodias, com a sintetização a remeter-nos para a década em que todos fomos jovens, os 80’s. O tema tem um extraordinário interlúdio, no qual as Rodettes mostram o que valem, com as bailarinas a fazerem um ritmado sapateado tradicional irlandês por cima de um valente jig. Stewart aproveita para fazer uma pausa, despir o casaco, beber esse copo de vinho. Regressa para a segunda parte de “Forever Young” e para, no final, conversar mais um pouco com Lisboa. Lembrando a sua passagem pelas praias da Normandia, onde, aquando das celebrações do 75º aniversário do Dia D, homenageou os veteranos britânicos, Stewart dedica “Rhythm Of My Heart”, também bem enraizada nas estéticas da música celta, «aos corajosos rapazes que conquistaram a nossa liberdade».

O joelho de Sir Rod Stewart é que parece ter desembarcado também na Normandia. As limitações que provocam no veterano rocker são evidentes e este explica-se, com enorme gáudio. Como qualquer fã do Celtic, o maior clube de futebol escocês, que se preze, antes do concerto, Stewart deslocou-se em romaria ao Jamor. Foi no Estádio nacional que os Celtic venceram a sua única Taça dos Clubes Campeões Europeus, frente ao Inter, em 1967. Ora, é tradição para os adeptos escoceses, quando ali estão, subir a escadaria em direcção à tribuna, imitando o capitão da equipa que levantou a Taça. Ao fazer esse ritual, o cantor escorregou e magoou-se no joelho. Para aproveitar a deixa, ouviu-se “Tonight I’m Yours (Don’t Hurt Me)”.

O boogie continuou com “Hot Legs”, culminado com um solo de duas baterias e percussão, e depois “It Takes Two”, o original de Marvin Gaye e Kim Weston, que Stewart refez com a vibrante Tina Turner em 1990. Não havia como o dueto com uma das coristas não ficar aquém do original, mas isso foi compensado com mais um excelente solo de Roberts no saxofone. Depois… Quanto pseudo vedeta cancelaria o concerto devido ao acidente com o joelho? Sir Rod, salta! Já se partiu o molde de que eram feitos estes velhos rockers.

E por falar em velhos rockers, seguiu-se uma versão de “Have You Ever Seen The Rain”, com o Rod Stewart Group a dar um revestimento mais honky tonk ao original escrito por John Fogerty, e aquele que, quanto a nós foi o grande momento da noite. Rod Stewart sentou-se com Emerson Swinford e contou a história da canção: «Fiz esta canção com o meu grande amigo Ronnie Wood, em 1972. Em Londres, no Studio 2 [um dos estúdios que fazia parte do complexo dos idos Morgan Studios]. Fizemo-la em dois takes, mas também precisámos de duas garrafas de vinho. Those were the days». Então soou “I’d Rather Go Blind”, o icónico soul originalmente gravado pela diva Etta James, encerrado com um extraordinário solo, sem palheta, de Swinford.

Esse solene momento fez ponte para que apenas a banda, Stewart fez mais uma saída de palco, replicar “Going Home”, original de Mark Knopfler para a banda sonora de “Local Hero”. Uma versão com um tremendo poder e elegância. Lindíssimo.

No regresso de Rod Stewart, arrancou a parte unplugged do concerto. “I Don’t Want To talk About It”, com a Altice Arena a dividir protagonismo com os músicos, cantando mesmo os refrões acapella. Magnífico momento. “The First Cut Is The Deepest”, bastante aclamado pelo público também, foi outro momento sublime., tal como a suave versão de “Broken Arrow”. “You’re In My Heart”, a canção de amor que Stewart criou para o clube do seu coração, é cantado a cada Domingo no Celtic Park e nos ecrãs da Altice Arena viam-se imagens alusivas ao feito único conseguido este ano, quando o Celtic se tornou o primeiro clube do mundo a ganhar todos os troféus internos em três anos seguidos. Faltava só, nesta parte do alinhamento a inevitável interpretação do original de Van Morrison, “Have I Told You Lately”.

Para que o cantor pudesse trocar de toilette, as Rodettes assumem o protagonismo, com a significativa interpretação do clássico de Donna Summer, “She Works Hard For Her Money”. E como trabalharam as senhoras desta banda! Rod Stewart regressou e ouviu-se a acidez de magnética da sintetização de “Baby Jane”. Um malhão que levantou toda a gente das cadeiras. O velho rocker poupou bastante a voz, mas pelo menos não se refugiou em backing tracks. Infelizmente, ouvir este super single fez-nos perceber que o concerto se aproximava do final, ideia confirmada por “Sailing”. Caiu a cortina. Quando subiu novamente surgiu a pergunta “Da Ya Think I’m Sexy?” – Naturalmente que sim! Festão, com um mar colorido de balões a descer sobre a plateia.

Estávamos no final e ficava a faltar “Young Turks” e “Maggie May”. Imperdoável. Mas, esperem… Mal caiu a cortina, esta tornou a subir de imediato, para se ouvir “Maggie May”, agora sim, ali estava emocionadíssimo, vestido com uma t-shirt de Entombed, a berrar: «You led me away from home, just to save you from being alone / You stole my heart, and that’s what really hurts».

SETLIST

  • Infatuation
  • Having A Party
  • Stay With Me
  • Some Guys Have All The Luck
  • Tonight’s The Night
  • Forever Young
  • Rhythm Of My Heart
  • Tonight I’m Yours (Don’t Hurt Me)
  • It Takes Two
  • Have You Ever Seen The Rain
  • I’d Rather Go Blind
  • Going Home
  • I Don’t Want To talk About It
  • The First Cut Is The Deepest
  • Broken Arrow
  • You’re In My Heart
  • Have I Told You Lately
  • She Works Hard For Her Money
  • Baby Jane
  • Sailing
  • Da Ya Think I’m Sexy?
  • Maggie May