Steven Wilson, Arqueologia e Pop

Steven Wilson, Arqueologia e Pop

2018-01-31, Sala Tejo, Lisboa
Nero
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Noite dedicada a ampliar a força emocional e sonora do álbum “To The Bone”.

O concerto abriu tal e qual “To The Bone”, com os três primeiros temas do álbum de 2017. Ao vivo, a progressão de acordes de “Pariah” soa ainda mais a “Purple Rain”, o clássico de Prince. E se até aqui, a natural excessiva reverberação da sala Tejo funcionou a favor da “expansividade” das canções, bastou apenas a moderada agressividade de “Home Invasion”, com o seu riff dentro da melhor tradição dos Yes, para fazer levantar uma tempestade cacofónica nos quatro cantos da sala, com um denso lodo harmónico a tornar algo redundante (sem qualquer culpa do músico) o recurso a um Chapman stick.

Wilson irá confessar a devoção que tem por Prince, partilhada pelo seu novo guitarrista Alex Hutchings (que conhecemos bastante bem de sessões de demonstração da Laney e da BOSS, um papel que já o fez, anteriormente, visitar o nosso país num par de vezes), mas o que emerge em “People Who Eat Darkness” é uma certa sombra, sempre omnipresente na linguagem musical de Wilson, beatlemaníaca. “Eleanor Rigby”, neste caso particular, até pelos pontos de contacto entre as projecções do concerto e os visuais do clássico dos Beatles no filme “Yellow Submarine”.

Talvez tenha sido essa adoração pelos Fab Four e, por necessidade, por George Harrison um dos motivos para a mudança para as Fender Telecaster (podem descobrir mais sobre o assunto na entrevista de Steve Wilson com a AS), fechando de certa forma o círculo.

O melhor do concerto foi guardado para o final, com o groove de “Song Of I”, a épica “Detonation” e a versão despida de “Even Less”.

Depois de “Ancestral” e do intervalo, a segunda parte do concerto arranca com melhor som, mais equilibrado, e maior coesão da banda. E depois de apenas “The Creator Has A Mastertape” dos Porcupine Tree na primeira parte, “Arriving Somewhere But Not Here” abre a porta a uma incursão mais profunda a esses tempos. Um setlist equilibrado, mas que só ao fim de duas horas se torna verdadeiramente arrojado, através do groove de desconstrução rítmica, herdado de Peter Gabriel, de “Song Of I”. Contudo, o crescendo do concerto é arruinado pelo hino brega de Procupine Tree, “Lazarus”. Felizmente, o melhor estava guardado para o fim, com “Detonation” e o seu epílogo, que ao vivo soa com aquele estranho peso à Frank Zappa, foi o momento alto.

O uso excessivo de referências neste texto não se pretende como qualquer ataque à criatividade de Steven Wilson, mas como um reflexo daquilo que o próprio assume ter sido o mote para a criação de “To The Bone”, um álbum em que presta homenagem a muitos dos discos com os quais cresceu. Já no encore, há a salientar a versão solo carregada de cojones que Steven Wilson, simplesmente com uma Tele nas mãos, ligada a um tijolo de 15 watts, fez a “Even Less”, outro dos originais de Porcupine Tree com lugar num concerto que, durante cerca de duas horas e meia, foi capaz de apaziguar fãs de primeira geração e ouvintes de álbuns recentes.

SETLIST

  • To the Bone
    Nowhere Now
    Pariah
    Home Invasion
    Regret #9
    The Creator Has a Mastertape
    Refuge
    People Who Eat Darkness
    Ancestral
  • Arriving Somewhere but Not Here
    Permanating
    Song of I
    Lazarus
    The Same Asylum as Before
    Heartattack in a Layby
    Detonation
    Sleep Together
  • Even Less
    Harmony Korine
    The Raven That Refused to Sing