SWR XVI – DIA 1

Nero

No dia 25 pelas 17:00 horas coube a honra de inauguração do festival à SWR Feel Harmonics, aka Banda Filarmónica Escuteiros de Barroselas, começando a tocar os acordes característicos e familiares do clássico “Fighting the World” dos Manowar. Este conjunto destaca-se por fazer versões acústicas do reportório clássico do Metal, tocando de seguida “Paranoid” dos Black Sabbath  e “Fear of the Dark” dos Iron Maiden. Algumas vozes a entoar as letras das músicas, embora ainda um pouco tímidas devido ao madrugar da hora, finalizaram com a excelente “Angel Witch” dos Angel Witch. Projecto e iniciativa original, a rever e acompanhar em edições futuras do festival.

No SWR Arena, começaram de seguida os australianos Ascetic, em tournée europeia com os seus conterrâneos Heirs. Um começo algo diferente do dia anterior, com o trio a praticar uma sonoridade Gothic/Post-Rock, a promover o seu primeiro trabalho Self Initiation, com atmosferas cativantes.

Os The Way of Purity foram a primeira banda a tocar no palco 2, no que se pode designar de Death/Metalcore melódico, com uma das únicas participações femininas do festival, a teclista e uma frontwoman com uma voz ligeiramente gutural. A maioria do elementos tocaram com a cara tapada, para “ocultar” as suas identidades, num início algo morno.

De seguida o palco 1 estava reservado para as sonoridades mais etéreas com os ingleses Fen. Tocando um Black Metal mais atmosférico e progressivo, contam com 3 álbuns lançados e alguns anos de estrada, notando-se a curiosidade do público para ver esta banda. Conseguiram percorrer os seus 3 registos, mesmo com a maioria dos seus temas a ter duração média de 6/8 minutos. “Of Wilderness and Ruin” do seu segundo registo caracteriza bem a sonoridade da banda, com partes lentas, guitarras limpas, subindo de intensidade até ao blast beat, voltando a uma intensidade média, cantado ou com voz arranhada. A terminar “Exile’s Journey” do 1º álbum, num concerto de descoberta e viagem.

A próxima banda aguardada com expectativa foram os californianos Decrepit Birth no palco 1. Death Metal técnico e rápido, com uns toques à la Death, iniciaram as hostes com uma incursão pelo seu 1º álbum com a instrumental “Of Genocide” e logo de seguida “The Infestation”. À frente da banda tivemos um rastaman de vozeirão e idade respeitável, cultivador de erva e sem abrigo por opção na sua terra natal, dando um espetáculo incrível. Uma voz potente e guitarras tanto agressivas como melódicas, passaram também pelo seu segundo registo com “A Gathering of Imaginations” e “Diminishing Between Worlds”. Bastante comunicativo, a meio do concerto o vocalista disse que ainda não tinha consumido marijuana nesse dia, perguntou se alguém na plateia tinha e que depois do concerto estaria pelo recinto, para partilharem com ele. Para terminar uma actuação curta mas super intensa uma incursão ao último álbum com “Symbiosis” e “Crystal Mountain” dos Death, tendo levado o moshpit à loucura.

No palco 2 seguiram-se os Pneuma, banda da Costa Rica, com uma sonoridade a roçar o Thrash Metal mas com outras influências e um pouco progressivo. Com dois álbuns e uma incursão pelo Wacken Open Air na bagagem apresentaram-se em Portugal pela segunda vez. O vocalista comunicou um pouco com o público em português, simpático e a agradecer o apoio. Um concerto interessante mas sem conseguir puxar muito, com energia e músicas a meio gás. Sofreram um pouco a nível de afluência por ser hora de jantar e também por se estar a realizar ao mesmo tempo um jogo de futebol de uma equipa nacional avermelhada.

Outra banda bastante aguardada da noite foram os Cattle Decapitation, que iniciaram sem cerimónias o concerto no palco 1 com “The Carbon Stampede” e “A Living, Breathing Piece of Defecating Meat” retirados do seu último álbum. Acabaram mesmo por tocar Monolith of Inhumanity quase na sua totalidade, apostando assim em mostar ao vivo o que foi considerado um dos melhores álbuns de Death/Grind lançados no ano passado. Sem tréguas, debitaram um set demolidor a todos os níveis, com algumas variações vocais de Travis Ryan , tanto guturais/agudas como outras cantadas. Terminaram o set com a groovy “Kingdom of Tyrants”, anunciando pouco depois que tinham mais algum tempo, acabando com “Projectile Ovulation” e ainda um relance ao penúltimo álbum com “Regret & The Grave”.

Em simultâneo com a devastação dos Cattle Decapitation a decorrer no palco 1, no SWR Arena iniciavam o seu ritual psicadélico os Tree of Signs, uma banda de Heavy Doom/Rock de Lisboa. Confrontados com uma mudança muito recente ao perder a vocalista/teclista que gravou o EP de estreia Salt, a banda conseguiu agrupar um novo line-up assegurando assim a sua presença no festival. Os elementos escolhidos foram Diana Piedade na voz e Ricardo Remédio (Löbo/RA) nas teclas. Baixo com distorção, bateria com imenso groove, teclados etéreos e fantasmagóricos foi o que nos apresentou este quarteto, na plateia as cabeças abanavam em sintonia e concordância ao longo da actuação. Na voz Diana mostrou uma grande segurança e à-vontade, no que foi uma boa prestação da banda, a mostrar uma coesão e adaptação dos novos elementos, dando uma nova dinâmica à mesma.

No palco 2 iniciava-se o momento Stoner Rock do festival com os portugueses Miss Lava. A enérgica “Desert Mind”, primeira música do seu último álbum Red Supergiant deu o mote para o que iria ser um concerto cheio de energia. Uma passagem pelo primeiro disco com “Black Rainbow” seguido da excelente “Ride”, música que deu vida ao videoclip de promoção ao novo álbum. Em especial para esta actuação no SWR, a banda decidiu apresentar uma cover dedicada a todos os presentes e eis que se que começam a ouvir os acordes de… “Scum” dos Napalm Death. Após a mesma o vocalista ainda brincou a dizer que já devem ser mais velhos que a maioria dos presentes na plateia visto quase ninguém ter reconhecido a música. Terminaram com chave de ouro visitando o seu EP de estreia com “Sleep With The Angels”. Mais uma boa aposta na diversificação do cartaz, tendo sido bem recebida pelos presentes.

No palco 1 estava reservado outro momento intimista e instrospectivo com os norte-americanos Agalloch. Banda igualmente muito aguardada por fãs e curiosos, prontos para avaliar se a banda conseguiria transportar para as suas actuações ao vivo a atmosfera cativante e hipnótica dos discos. Começando com “Limbs” do penúltimo registo de originais, já com 7 anos de distância, deu o mote para um set baseado maioritariamente nos seus 2 últimos álbuns. A duração média dos temas desta banda já sobe mais um pouco para os 8/9 minutos, conseguindo no entanto manter toda a atenção da plateia. “Ghosts of the Midwinter Fires” do último álbum  Marrow of the Spirit manteve o transe da plateia, assim como “Falling Snow” do anterior registo. Comunicação inexistente com o público, a banda focou-se apenas em tocar e tentar transmitir todo o sentimento e melancolia para os presentes, culminando com “Our Fortress is Burning I & II”, um monolito semi-acústico arrastado e etéreo. Veredito afirmativo, a banda conseguiu de facto transmitir ao vivo a ambiência que caracteriza os seus trabalhos de estúdio, deixando nesta primeira passagem por terras lusas bastantes admiradores e vontade de os rever no futuro, quem sabe num espaço mais pequeno para ajudar ainda mais ao intimismo da sua música.

De seguida no palco 2 coube aos franceses Akphaezya proporcionar uma das surpresas do festival, com uma sonoridade algo “estranha” e diferente do habitual dentro do género. Podemos considerar a mesma como Metal Avant-garde, com uma mistura de jazz/death/prog, com vocalizações tanto límpidas como guturais da vocalista Nehl, que também assume o comando dos teclados, adicionando ainda mais uma camada de demência à música. A banda confirmou após o concerto que para o festival não trouxeram o teclado, por razões logísticas (espaço) e que se costumam apresentar por vezes ao vivo neste formato. As músicas ganham outra dinâmica, ficando a guitarra com maior destaque e peso, e também a vocalista mais à vontade em palco, libertando-se mais… “Genesis” foi o ponto de partida, num set baseado quase por completo no último álbum Anthology IV: The Tragedy Of Nerak, lançado em 2012. As músicas seguintes foram adicionando ainda mais estranheza, com “The Secret Of Time” do primeiro álbum a lançar uma atmosfera oriental e criando mesmo uma mini pista de dança na plateia. Regressando novamente ao último álbum com “Utopia” e “The Harsh Veredict”, esta última com a vocalista a explorar as partes mais guturais, terminaram com o tema “Nemesis”, escalando ritmicamente ao blastbeat. Certamente um concerto diferente e banda para absorver e interiorizar com mais audições.

Após largos anos de espera eis que é chegada a hora dos Cryptopsy, pioneiros e expoentes máximos do Death Metal técnico, com o seu segundo álbum None So Vile de 1996 a ser uma referência do género. O ano passado viu a banda lançar um registo homónimo Cryptopsy, considerado um regresso à forma depois de uns anos menos inspirados. Notava-se a expetativa no público e começam precisamente com “Two-Pound Torch”, a primeira música do último álbum seguida de “Benedictine Convulsions”, iniciando a destruição. Tocaram um set equilibrado, dando preferência aos seu 3 primeiros trabalhos e a promoção do último em igual medida. O vocalista esteve imparável e incansável, puxando imenso pelo público durante e após as músicas. “White Worms” e “Graves of the Fathers” foram continuando uma massiva e intensa parede de som e técnica, com o moshpit e o stagediving sempre intensos. A parte final foi um medley do primeiro álbum Blasphemy Made Flesh, muito apreciado pelos presentes. Após uma breve pausa regressaram para o encore e eis que revisitam novamente o 2º álbum com “Slit Your Guts” e “Phobophile”, intercaladas com “The Golden Square Mile” levando a plateia ao êxtase.

Mais uma vez, enquanto no palco 1 se descarregava Death Metal técnico, desta vez com os Cryptopsy, entram em cena no SWR Arena os australianos Heirs. Concerto apenas instrumental e extremamente atmosférico, dentro do dark-wave/gothic/industrial esta banda criou um ambiência hipnótica, com pouca luz no palco, melodias e atmosferas repetitivas.

Regressando ao palco 2 os italianos Vulvectomy davam início a uma descarga de Brutal Death Metal. Apresentaram-se sem baterista utilizando caixa de ritmos, conseguindo mesmo assim manter um nível de brutalidade e peso consideráveis. Concerto e sonoridade muito linear, no entanto muito apreciado pelo bastante público presente, que depois da descarga de Cryptopsy continuou a festa.

Para fechar este primeiro dia no SWR Arena estiveram os Killimanjaro, oriundos da vizinha cidade de Barcelos, tendo o trio apresentado um Rock & Roll/Heavy Blues muito interessante. O vocalista de tenra idade demonstrou uma facilidade de execução e agilidade na sua guitarra incríveis, transmitindo um ambiente e balanço Rock & Roll impressionantes. Solos e riffs contagiantes, voz enérgica, baixo e bateria com muito groove, receita clássica para colocar todos os presentes em modo headbang. O vocalista confessou na parte final do concerto que de início estavam um pouco apreensivos em tocar no festival, sem saber o que esperar, se seriam bem recebidos. Não tendo o “peso” das outras bandas do cartaz, dissiparam-se todas as dúvidas ao ver a plateia em alta rodagem num moshpit animado, agradeceu a presença e o apoio e referiu que eles próprios se estavam a divertir imenso. Excelente atitude e energia desta banda, uma grande promessa do Heavy/Rock nacional, a acompanhar e rever no futuro.