The Cure: Uma Fantasia Gótica, Shoegaze e Pós Punk

The Cure: Uma Fantasia Gótica, Shoegaze e Pós Punk

2019-07-11, Passeio Marítimo de Algés
Nero
Inês Barrau
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Uma miríade de delays pós punk e um palco deslumbrante. A voz de Robert Smith a soar pujante. O épico “Burn” logo ao segundo tema… Os The Cure encantaram no NOS Alive.

Já havíamos apresentado, testado e avisado sobre o arcabouço do Yamaha THR100. Reeves Gabrels, braço direito de Robert Smith nos The Cure, parece concordar. Afinal o guitarrista tem usado essas unidades nos concertos da digressão iniciada com as actuações na Sydney Opera House, transmitidas gratuitamente para todo o mundo, tal como aconteceu no NOS Alive’19. Contudo, na capital portuguesa, o guitarrista usou umas unidades bastante exóticas, que ainda estamos a procurar desvendar (podem ver a tripla de cabeços na galeria, no fundo do artigo).

Já o frontman da banda optou por usar unidades Line 6 e quebrar um certo tabu de que se tratam de amps de home studio ou de treino. No concerto foi possível ver Smith ladeado por 4 modelos Line 6 Spider V. Na última vez que estivemos em Anaheim, Los Angeles, Califórnia, na Winter NAMM 2017 conhecemos em primeira mão o monstruoso Spider V 240, Smith usa modelos de menor potência, os 120.

Uma das guitarras de assinatura do frontman, a imponente Schecter Ultracure, tem escrito qualquer coisa como «citizens not slaves» – Robert Smith, o revolucionário. Tal como em 2012, os The Cure ultrapassaram as duas horas de concerto. Reeves Gabrels mostrou-se um guitarrista enorme e trouxe bons solos de guitarra e encadeamentos melódicos aos dedilhados carregados de delays de Smith.

A banda esteve impecável, o palco visualmente deslumbrante e o som bastante bom, tudo considerado. Todavia, o público foi debandando aos poucos. Fadiga pela duração do concerto? Dia de trabalho? Seja o que for, estará na altura de a organização repensar estes horários que colocam um headliner (ou qualquer outra banda, na verdade) a tocar para lá das 02h da madrugada. E foi pena, porque o foco e profissionalismo dos músicos, com execuções de elite, foram das poucas coisas refrescantes na noite de calor sufocante que se abateu sobre lisboa.

Robert Smith é talvez o frontman mais improvável da história da música. A pose de timidez mal disfarçada, de gestos bizarros transformados em imagens de marca. O quanto ali veio de uma real dificuldade em lidar com qualquer tipo de holofote e quanto é pensado para ser um veiculo de expressão emocional, um ícone vivo? Sempre foi difícil de dizer. De qualquer forma ele já faz de ele próprio há muitos anos, ninguém o faz melhor do que ele, e hoje fá-lo melhor que nunca. A banda alternou com perícia de mestres as dinâmicas do concerto, temos músicas lentas (longas, arrastadas, introspectivas, muitas vezes doridas) e temos músicas rápidas (pop, festivas, ritmadas). Um resumo de carreira feito com elegância.

“Disintegration” será o álbum em maior evidência, afinal o mote desta digressão é o seu 30º aniversário, através de “Fascination Street”, “Last dance”, “Lovesong”, “Lullaby” e “Pictures Of You” (esta um dos momentos maiores do concerto). Outras músicas esperadas e presentes foram “Just Like Heaven”, “A Forest” ou “In Between Days”.

“Burn”, uma favorita pessoal, ouviu-se logo de início (por motivos óbvios, outro dos momentos mais celebrados por nós) e a sequência final foi do mais crowd pleaser que pode haver: “Friday I’m In Love”, “Close To Me”, “Why Can’t I Be You?” e, naturalmente, “Boys Don’t Cry”. O ritual foi mais uma vez cumprido e ninguém parece se sentir defraudado.

SETLIST

  • Shake Dog Shake
    Burn
    Fascination Street
    Never Enough
    Push
    In Between Days
    Just Like Heaven
    From the Edge of the Deep Green Sea
    Pictures of You
    High
    Just One Kiss
    Lovesong
    Last Dance
    A Night Like This
    Play for Today
    A Forest
    Primary
    39
    One Hundred Years
    Lullaby
    The Caterpillar
    The Walk
    Friday I’m in Love
    Close to Me
    Why Can’t I Be You?
    Boys Don’t Cry