The Roots, Licença para Improvisar

The Roots, Licença para Improvisar

2019-07-09, EDP Cool Jazz 2019
António Maurício
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Saltando entre os seus maiores êxitos e clássicos do hip-hop, os The Roots apresentaram uma exibição tão imprevisível como excelente no EDP Cool Jazz 2019.

Alcançar expectativas não é tarefa fácil. Na primeira noite do EDP Cool Jazz 2019, as expectativas estavam concentradas num grupo com uma carreira activa desde 1993. Um grupo com onze álbuns editados. Um grupo que marca presença num dos maiores programas televisivos americanos, “The Tonight Show”, desde 2014. Um grupo responsável por músicas como “The Seed (2.0)” ou “You Got Me”. Estamos a falar dos The Roots. Se tudo isto não bastasse, o público do festival estava a ferver – a primeira actuação da noite, por parte dos HMB, foi cancelada por problemas técnicos. A margem para erros era muito, muito pequena.

Mas o estatuto dos veteranos verificou-se. Assistimos a uma performance imprevisível, que combinou os temas mais icónicos do grupo de Filadélfia com músicas clássicas do universo hip-hop. Foi efervescente, grandiosa e consistentemente excelente. Com 10 músicos em palco, a camada sonora era bastante grande, mas nunca se tornou confusa ou estridente. Os instrumentos respiravam entre si e encontraram momentos próprios para brilhar a solo, no entanto, a guitarra de Kirk Douglas, a bateria de Questlove e a sousafone de Damon Gooding marcam o espectáculo com exibições sublimes.

Afirmar que o ritmo foi estonteante não é uma hipérbole.

Afirmar que o ritmo foi estonteante não é uma hipérbole. Os instrumentos só pararam de tocar três vezes durante todo o concerto (que ultrapassou a hora e meia). As passagens entre músicas foram altamente estruturadas e são executadas com uma suavidade de nível máximo – quando nos apercebemos da mudança é tarde demais, já estamos na próxima música. O início foi marcado por ” The Next Movement”, “Proceed” ou “Dynamite!”, com composições bem diferentes das gravações de estúdio para que ao vivo ganhem mais vida, mais potência e uma sensação de espontaneidade. Mas este formato calculista e metódico é confrontado durante a performance com momentos de improviso instrumental que relembram o free jazz durante todo o espectáculo mas, especialmente entre as transições. Aproximadamente a meio do concerto, o guitarrista Kirk Douglas decidiu entrar a solo numa cover de “Old Town Road” (para delírio dos mais jovens), e aqui sim, comprovou-se a improvisação – nem os próprios membros da banda aparentaram saber deste momento tendo em conta os risos que surgiram em palco, mas não deixaram de o acompanhar! Mas antes desta curva, Kirk já se tinha destacado com um longo solo de guitarra no final da icónica “You Got Me”, sem pregos, 100% dentro do tempo e totalmente épico com a guitarra bem no ar no final. Esta faixa originalmente composta com a participação de Erykah Badu foi apresentada num formato mais moderno, com pratos digitais mais rápidos e uma articulação de vozes diferente, ajustando com distinção um clássico aos tempos actuais

«Não podemos perceber o presente e o futuro sem perceber o passado» proferiu Black Though antes de comandar uma viagem no tempo entre alguns dos grandes clássicos do hip-hop. Em formato medley, e continuando o ritual de transições impecáveis, os The Roots executaram excertos de faixas como: “Amili” de Lil Wayne, “Big Pimpin” de Jay-Z, “So Fresh So Clean” de Outkast, “C.R.E.A.M” de Wu-Tang Clan, “Mass Appeal” de Gang Starr, “Shook Ones Part II” de Mobb Deep, “Shimmy Shimmy Ya” de Ol’ Dirty Bastard, entre outras relíquias musicais. Além da ginástica instrumental para saltar entre temas tão diferentes, Black Though, teve o cuidado e a perícia de simular as características vocais de cada músico e ainda copiar os movimentos corporais associados a cada um deles. Se pensarmos bem, até era tarefa fácil. O vocalista/MC manifestou a sua voz da experiência com excelente controlo de respiração, flow impecável sempre dentro de tempo e dicção precisa, mesmo nos momentos mais velozes. Aliás, bastava observar a confiança contagiante com que se movimentava e liderava – estava ciente de que não ia falhar – mas quem viu o brilhante freestyle no Funk Flex (2017) não podia esperar outra coisa…

Os The Roots oferecem Hip-Hop clássico ao mais alto nível com uma instrumentalização de sonho e um vocalista/MC que escreve mensagens políticas e sociais com uma caneta abençoada. Acrescentam imprevisibilidade em palco, não perdem tempo com pausas e ainda combinam jazz e soul. A margem para erros era muito pequena, mas a margem de qualidade foi muito grande.