The Vintage Caravan, Rock N’ Roll Big Bang

The Vintage Caravan, Rock N’ Roll Big Bang

2018-11-03, RCA Club
Nero
Inês Barrau
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O reboot do Sound Bay Fest funcionou de forma exemplar, com horários cumpridos, qualidade de som para todas as bandas e um tremendo concerto dos headliners The Vintage Caravan.

A gestão e ocupação de espaço, bastante rentabilizadas no RCA, permitiu que o Sound Bay Fest 2018 decorresse sem atrasos no line-up. Assinale-se ainda a boa qualidade de som geral de que todas as bandas dispuseram. Já o público terá estado aquém, com apenas cerca de uma centena de indefectíveis rockers a aderirem ao cartaz encimado pelos The Vintage Caravan, que deram um estupendo concerto (já lá vamos). Se a fraca adesão foi um reflexo de alguns contratempos do próprio festival em anos anteriores, podem ter a certeza de que este reboot decorreu de forma exemplar.

Fica a injustiça para com os The Crazy Left Experience, cuja actuação apanhámos no final. Então essa eficácia na gestão dos recursos do RCA manifestou-se imediatamente, com os Parpar a montarem o seu aparato no recanto formado entre o bar e o palco. Uma bateria, a “Isobela”, um monitor, o saxofone quitado por uma interessante pedalboard (Boss RC-30 Loop Station;  Boss Noise Suppressor 2; EHX Battalion, um pre-amp e DI de baixo; EHX Freeze; EHX Pitchfork; MXR Carbon Copy; Moog MF Ring) e um amp de guerra, um bruto Torque T100 K. Um amp direccionado para teclados, mas capaz de aguentar com baixo, guitarra ou outras fontes acústicas em altos volumes, dono de um imenso headroom. A título de curiosidade, esta besta possui um compressor e reverb no circuito, 4-EQ e FX Loop. São 86 watts de jarda, mas parece mandar mais.

O único contacto anterior da AS com o som da banda havia sido através dos bootlegs que existem no YouTube, ali a um metro dos músicos tudo soou mais bruto, mais punk, com as repetições de notas do saxofone, muitas vezes somadas às da Loop Station em reforço de peso, a servirem ainda mais de base para a carnificina feita ao drumkit. Mas se é verdade que as actuações de todas as bandas se mantiveram pertinentemente compactas, talvez os Parpar tenham “esticado a corda”, deixando evidente que o projecto é tão interessante como necessitado de algumas novas abordagens dinâmicas e melódicas. Talvez desenvolver mais o recurso ao Zoom R16, em vez do uso residual. Ou talvez, assumirem a tal cover de João Pedro Pais de peito aberto (quem lá esteve percebe a piadola)!

 

MARCELLA DI TROIA

Como se podia esperar, conhecendo mesmo de soslaio os álbuns de Black Mirrors, o concerto dos belgas foi marcado pelo vozeirão e pelo intenso magnetismo da sua frontwoman, Marcella Di Troia. Carismática, feroz e sensual, a sua voz remete para Mlny Parsons, a diva rocker dos Royal Thunder, cuja estética a banda também absorve, embora soe menos sofisticada e seja mais directa, mais dentro daquilo que são os Royal Blood, por exemplo. Características sumarizadas no poderoso single “Günther Kimmich”.

 

O bom som, com destaque para a amplitude de ressonância do bombo e timbalão de chão da bateria, muito equilibrado, fez sobressair o bonito timbre da Stratocaster de Pierre Lateur, guitarrista que revelou mão sólida nos riffs, mas pouca técnica para solos. Aliás, em tudo os Black Mirrors soam como devem soar as boas bandas de rock, excepto dos solos de guitarra que são pouco vibrantes. De resto, em energia, atitude, dinâmica instrumental, a banda esteve em bom nível e deixou o melhor para o fim, com uma explosiva cover de “Kick Out The Jams”, o über-clássico dos MC5, cuja potência transbordou depois para “Burning Warriors”, tema final.

Os Her Name Was Fire reforçaram o seu som e estão mais oleados e mais confiantes nas suas capacidades.

Dois anos depois de a AS os ter convidado para subirem ao palco do Hard Rock Cafe, em Lisboa, os Her Name Was Fire lançaram entretanto o seu álbum de estreia e têm tocado de forma constante, com datas ocasionais além fronteiras. Neste tempo a dupla reforçou a sua sonoridade e no Sound Bay apresentou-se muito mais confiante nas suas capacidades, principalmente João Campos e principalmente na voz, o que a juntar ao acerto do notório trabalho de ensaio resulta em maior desenvoltura na exposição das canções. A Hagstrom Viking deu lugar a uma Vintage Modified Jazzmaster (barítono) da Squier, que não sendo semi-hollow consegue ter maior concentração no ataque, mais médios. Certo é que actualmente, o rig de Campos apresenta muito dinamismo na interacção entre os sons de guitarra e os de “baixo”. A actuar em casa, com muita gente a juntar-se na frente do palco, a dupla deu um dos melhores concertos da noite.

As coisas pareciam estar a aquecer, a casa estava agora mais composto, ainda que muito despida. Então os Wucan surgiram em palco com um som muito desequilibrado, com os instrumentos num pantanal de efeitos e a voz de Francis Tobolsky demasiado inconstante. Com todos os músicos a darem demasiadas notas ao mesmo tempo, a banda revelou pouca unidade, sensação aumentada pelas constantes quebras dinâmicas nas canções, para os momentos de flauta, para o Theremin, para a teatralidade vocal. As canções, com demasiadas secções, parecem não “colar”. Até na interpretação de “Am I Evil?”, original dos Diamond Head, a banda não conseguiu demonstrar consistência no seu… fluxo. Serviu a cover para se ouvir um bom solo de bateria, com Phil Knöfel a revelar excelentes pés nos hi-hats e tremendos roll-offs na tarola.

CAVALOS LOUCOS

O último ano foi pródigo para os The Black Wizards. Na ressaca do segundo álbum, “What The Fuzz!”, os nortenhos percorreram a Europa mais uma vez, destacando-se as passagens pelos Desertfest de Londres e Berlim, a meio da tour foram forçados a trocar de baterista, entrando João Lugatte para o lugar de Helena Peixoto, voltaram a casa para depois ainda irem encimar o SonicBlast, em Moledo e ainda fizeram uma viagem à Polónia, entrando no cartaz do Red Smoke Festival.

 

Há algum tempo que não actuavam na capital e o concerto no Sound Bay revelou naturalmente toda a estaleca que se pode ganhar com a supra citada sucessão de eventos. O quarteto soou mais Hendrixiano e quiçá mais sofisticado, devido a um estilo mais clínico de Lugatte, por oposição à impetuosidade da antiga baterista. Com bom som, com todos os instrumentos bem definidos na mistura e com segurança vocal de Joana Brito, a banda deu mais um bom concerto. Mas há uma coisa que começa a parecer urgentemente necessária: que os The Black Wizards sejam capazes de criar uma ou duas malhas orelhudas, senão a banda corre o risco de ficar a patinar no pântano que é a cena retro rock europeia actual, carregada de interessantes bandas, mas sem factores de especial distinção. O crescimento e maturação técnica dos músicos é evidente, falta dar esse salto.

Os The Vintage Caravan ofereceram-nos uma autêntica lição sobre atitude profissional.

Set Your Sights”, “Crazy Horses”, Let Me Be”, “Midnight Meditation”… Só malhas, discorridas de forma galopante, com uma feroz entrega e energia dos The Vintage Caravan para uma sala muito despida. O trio islandês ofereceu-nos uma autêntica lição sobre atitude profissional. Com a secção rítmica composta pelo baixista Alexander Örn Númason e pelo baterista Stefán Ari Stefánsson a divertir-se e a “curtir milhões”, foi criada uma base dinâmica vibrante para a argúcia de Óskar Logi Ágústsson na guitarra eléctrica. O som limpo daquela Tele na entrada de “On The Run”… Mãe do Céu! Se quiserem saber mais sobre este modelo, com um Seymour Duncan mini-humbucker no neck, construído pelo luthier islandês Gunnar Örn, visitem a página Orn Custom Guitars.

O frontman da banda está a tocar para “caracinhas”! Quase um shredder! Capaz de solos rápidos, melódicos e excitantes, muito sólido nos riffs ou dedilhados  em simultâneo com os vocalizos, Óskar foi uma presença irascível e o motor de um grande, grande concerto.

“Reset”, “Babylon”, “Cocaine Sally”… Uma mão cheia de canções super “orelhudas”, com os coros a brotarem espontânea e audivelmente do público presente no concerto. Sempre numa toada incessante e, mesmo assim, com bastante interacção entre os músicos entre si e os músicos e o público. Uma pena que na capital portuguesa, num país que sempre que sabe os cartazes dos grandes festivais entope as redes sociais a chingar as bandas escolhidas por «não ser rock», não haja a um Sábado mais de umas dezenas de pessoas para ver concertões como este. Quem lá esteve não vai esquecer tão cedo…

SETLIST

  • THE VINTAGE CARAVAN
  • Set Your Sights
    Crazy Horses
    Let Me Be
    Midnight Meditation
    On The Run
    Reset
    Babylon
    Cocaine Sally
    Hidden Streams
    Innerverse
    Reflections
    Farewell
    Carousel
    Expand Your Mind