Tinariwen @ Vila do Conde [04.10.11]

Nero

O Teatro Municipal de Vila do Conde encheu para ver os Tinariwen. Eram cerca das 22h30 quando os músicos tuaregues subiram ao palco, nessa altura ainda sem Ibrahim Ag Alhabib, e iniciar uma peregrinação emocional ao Sahara. A banda entrou tímida no contacto com o público, até pela grande barreira da língua – quero dizer, todos arranhamos o francês, mas…

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Sem pretender fazer disto uma afirmação, fiquei também com a sensação que muitos dos presentes se encontravam ali também a descobrir pela primeira vez o som das guitarras tamashek e do deserto. E entretanto, nessas formas livres da guitarra abordar os temas em arabescos permanentes, ficamos suspensos até vermos chegar no final do terceiro tema, o guru da banda. Nesta altura é Ibrahim Ag Alhabib que recebe a maior ovação, mas a banda, talvez sentindo-se protegida pelo seu frontman, vai-se soltando mais entre si e para com o público e o crescendo do concerto inicia. Se estava a ser bom passou a tornar-se muito bom e acabaria magnífico.

Com uma qualidade de som fenomenal e apenas com dois problemas, a falta de iluminação na frente do palco, onde os elementos da banda tantas vezes vieram dançar junto da plateia e o percussionista, Mohammed Ag Tahada, que se debateu com um elemento que escapava dos pés e demorou um pouco a ser solucionado. Quanto à qualidade de som só podia ser mesmo saboreada com uma das coisas que mais distingue os Tinariwen – a espantosa capacidade da banda como um todo funcionar orgânica e dinamicamente. Com um controlo humano e acústico perfeitos sobre as intensidades de volume e execução de cada momento dos seus temas, como se tivessem treino clássico. Curioso ainda ter visto Eyadou Ag Leche, usar o baixo [que a banda recebeu de Flea em Los Angeles] invertido, afinal ele é canhoto, ao passo que Flea é destro, com uma capacidade de execução e groove acima, muito acima da média.

Pela altura em que um “clássico” surgiu o público já respondia a cada manifestação da banda com rejúbilo constante. Com “Amassakoul ‘N’ Ténéré” a banda deixou o palco para o encore planeado, aí já todo o teatro era uma manifestação daquilo a que o álbum lançado recentemente, “Tassili”, se propôs reconstruir – aquela sensação ancestral de partilha e companhia em círculo diante do fogo – e assim quando se ouviu “Cler Achel” a banda saiu de novo do palco, mas foi obrigada a voltar. Só por aí poder-se-ia avaliar o concerto, afinal quantas vezes assistimos hoje em dia a um encore não planeado num espectáculo?