Travis Scott apresenta: Anarquia e Hiperatividade

Travis Scott apresenta: Anarquia e Hiperatividade

2018-07-20, Altice Arena, Super Bock Super Rock
António Maurício
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Numa caótica performance que ecoou por toda a Altice Arena, Travis Scott foi a causa da maior descarga de energia no Super Bock Super Rock.

A estreia de Travis Scott em Portugal sublinhou mais uma aposta do Super Bock Super Rock no espectro do hip-hop. Desde 2016 que o festival aposta num dia quase totalmente dedicado ao género que nasceu em Nova Iorque, primeiro com Kendrick Lamar como cabeça de cartaz e o ano passado, 2017, com Future.

O terceiro passo neste novo caminho encontrou Jacques Webster, reconhecido por uma sonoridade trap obscura e pelas performances intensas ao vivo, principalmente durante a digressão da mixtape “Days Before Rodeo” em 2015. Actualmente, estabeleceu um som mais mainstream em “Birds in The Trap Sing Mcknight” ou “Huncho Jack, Jack Huncho”, onde a face experimental e criativa dos primeiros trabalhos foi trocada por sons mais acessíveis, talvez para arrecadar mais popularidade. Apesar desta mudança, felizmente, não alterou a vigorante e imparável entrega nas performances ao vivo.

ENTUSIASMO

O espectáculo de Travis baseia-se no entusiasmo, na ideia de que as músicas têm que ganhar mais ímpeto e força ao vivo para motivar ao máximo os saltos e a loucura do público. O foco está na interpretação. É bastante mais agressiva, com gritos (literais) entre os momentos mais energéticos e contagens que batem precisamente nos maiores picos de intensidade. Utiliza também processamento vocal de forma exemplar. Não para melhorar a voz a cantar, porque não é esse o objectivo, mas para criar efeitos melódicos com a voz que soam surreais. Nota-se claramente que está a ser utilizado, mas não caí no exagero.

Além disso, o DJ e longo companheiro de palco, Chase B, participa e amplia a propagação desta missão anárquica com o disparo constante de ad-libs e efeitos sonoros adicionais a partir do topo da torre onde esteve sempre calmamente posicionado, no meio do palco.

ASTROWORLD

Depois de uma introdução/propaganda ao iminente álbum “Astroworld” nos visores de palco, com imagens de atracções radicais que antecipavam metaforicamente o maior caos e descontrolo de todo o festival, “Stargazing” (faixa “inédita”), deu o arranque. Inédita entre parêntesis porque apesar de não estar disponível (oficialmente) em nenhum formato digital ou físico, é entoada firmemente pelos presentes na frontline da sala. É a recorrente abertura nos espectáculos ao vivo e, hoje em dia, no mundo da internet, as novidades correm à velocidade da luz. «Se acham que não conseguem sobreviver a isto, é melhor saírem agora mesmo», anuncia Travis em tom sério antes das primeiras notas de “Mamacita”.

Quase de imediato, existe uma agitação incontrolável na plateia, surgem vários buracos de mosh a dá-se a completa desordem entre o público. Esta urgência hiperactiva sagrou-se incansável e permaneceu activa até ao último minuto. Nas linhas da frente assistíamos à formação de remoinhos de movimento constantes por todos os lados. E nos balcões superiores os saltos e as mãos no ar foram uma constante. A certo momento, um telemóvel partido chegou aos pés do rapper, que exclamou: «Isto é de loucos». O caos estava instalado e durante a “Antidote”, quando decidiu correr até ao meio da arena, membros da plateia necessitaram de ser resgatados por seguranças devido ao perigo de esmagamento.

JUMP

“Goosebumps”, “Upper Echelon” ou “Dark Knight Gummo” (de Trippie Redd) criaram os momentos de agitação mais simbólicos, com o silenciamento total da música em secções-chave para que a voz colectiva dos presentes se fizesse ouvir a alto e bom som. “90210” e “Love Galore” (de SZA) foram os dois únicos momentos em que a multidão conseguiu descansar parcialmente, com uma pausa nos ritmos frenéticos e nos baixos arrebatadores e a entrada de um equilíbrio vocal aceitável no curto momento de R&B alternativo.

A pirotecnia e os lasers são também utilizados com agressividade, aumentando ainda mais o clima de anarquia que se quer sentir e, de facto, sentiu. Travis não é um excelente letrista, não tem um suporte instrumental ao vivo e muito menos uma mensagem profunda. Mas tem um enorme carisma em palco, consegue motivar uma plateia inteira e entrega-se de alma e coração em todas as faixas com uma energia incansável.

O desejo do público neste tipo de contexto é só um: saltar e festejar como se não houvesse amanhã. Foi um desejo concedido.