Vagos Open Air’12 [Dia 1]

2012-08-03, Lagoa de Calvão, Vagos
Redacção

Quem chegasse ao espaço da quarta edição do Vagos Open Air perto da hora do início dos concertos, a primeira coisa que veria ao dirigir-se às bilheteiras era as colinas cobertas por tendas, à sombra das árvores. Parecia que todo o palmo de chão tinha sido usado para montar acampamento, e alguns até se aventuraram a assentar arraias nas entranhas mais profundas da floresta. A roupa preta abundante e os ambientes sonoros durante o percurso, sons que tanto podiam ser baterias pulsantes a servirem de apoio a guitarras berrantes como escapes de cavalos de aço com duas rodas, não deixavam dúvidas sobre a música que se ouviria debitada do palco. Música definida por uma palavra – pesada.

A abertura do festival coube aos Disaffected, cuja mistura death/thrash metal deu o mote para o início das festividades em Vagos. A prestação da banda fez abrir o apetite para o resto do evento, com músicas bem executadas. Os solos pugentes foram os primeiros testemunhos de proficiência no departamento das guitarras, com Sérgio Paulo a puxar pelos amplificadores. No entanto, verificou-se algum desequilíbrio na mistura, com os teclados a irromper e a sobreporem-se ao resto dos elementos. Por outro lado, a utilização da bateria electrónica retira sempre algum do impacto esperado num concerto ao vivo, mas a utilização de determinado equipamento é uma questão de preferências por parte dos músicos.

Seguiram-se os Northland, os primeiros de uma secção do cartaz que celebrava o casamento do folclore com guitarras distorcidas. O recinto do festival foi invadido por melodias que lembravam as sagas vikings e as canções aos heróis e navegadores que se aventuravam nos mares em drakkars de cascos rasos. Melodias facilmente acompanhadas pelo público presente, com quem a banda estabeleceu uma boa comunicação. Pelo que deram a entender, os Northland estavam a gostar de tocar no palco de Vagos e o público estava a gostar de ouvir.

Das montanhas desceram os Eluveitie, que continuaram com som temperado por folclore celta. Se no início o público parecia um pouco parado perante a actuação da banda, lentamente foi havendo mais movimento. As solicitações do vocalista Christian “Chrigel” Glanzmann eram bem acolhidas pelos presentes, e a animação foi crescendo ao longo do concerto. Infelizmente, em passagens mais rápidas com percussão mais forte, ou quando tocavam vários instrumentos em simultâneo, a subtileza acústica da sanfona, o violino, da gaita e sobretudo das flautas perdia-se um pouco. Houve momentos em que nem se ouviram no som de frente instrumentos que se viam estarem a ser tocados em palco. No violino, a performance de Meri Tadi? foi exímia, e de apontar também a boa presença de Anna Murphy na voz. Tanto os Eluveitie como os Northland foram presenteados com muitos cornos levantados pelo público – tanto os que se fazem com os dedos como os que se usam para beber.

A noite caía quando chegou a vez de Enslaved subir ao palco, a multidão também se tinha tornado mais numerosa. E se Grutle Kjellson falou apenas parcas palavras ao público, é inegável que houve muita comunicação entre a banda e a multidão. Quase que entraram em sintonia – se o momento era de acção, via-se pó a ser levantado; se o momento era de introspecção, apenas se assistia ao balançar das cabeças. Um concerto em que a banda tornou a apresentar, para além dos temas originais, uma cover de Led Zepplin, e ouviu-se “Immigrant Song” numa toada mais negra. “Return to Yggdrasill“, “As Fire Swept Clean the Earth” e “Ethica Odini” integraram a setlist de um concerto que tanto agradou ao público como à banda.

A banda que se seguiu é uma daquelas que gera sempre grandes expectativas quando se trata de um concerto ao vivo. Arcturus tem uma sonoridade tão cheia de detalhes que a perspectiva de os ouvir reproduzidos ao vivo deixa qualquer um expectante. Detalhes que se podem atribuir à reacção do público durante todo o concerto – concentração para assimilar o máximo possível. Mas parece que desta vez não foi possível corresponder tão bem às expectativas. O som careceu de algum equilíbrio – na maioria das vezes só se percebia que estava a acontecer um solo de teclado quando se olhava para o movimento dos dedos deSteinar Sverd Johnsen. Para além disso, a formação apresentou-se com menos um guitarrista. Simen Hestnæs, mais conhecido por ICS Vortex, apresentou-se numa atitude algo jocosa, e mostrou que pode fazer quase tudo com a voz. Não interessava se era um registo mais grave, mais agudo ou mesmo falsete. Talvez parte da sua atitude se explique por algo que Vortex fez questão de realçar durante o concerto – foram obrigados a cortar temas ao alinhamento. Uma perspectiva que raramente agrada a músicos. Por seu lado,Jan Axel “Hellhammer” voltou a mostrar que faz dos bombos bigornas onde bate para forjar um som poderoso. Quando perguntado por Vortex sobre que temas queriam ouvir, o público preferiu material mais antigo. Temas como “Nightmare Heaven“, “Paiting My Horror” e “Master of Disguise“. Apesar de tudo, foram saudados com uma generosa ovação no final do concerto.

Pela primeira vez em 22 anos os At The Gates pisaram um palco português, e entraram logo a acelerar. O público, dentro dos quais muitos tinham vindo para ver e ouvir esta banda, ficou imediatamente ao rubro. Estava dado o mote do concerto, que decorreu sem grandes desvios desta toada. “Under a Serpent Sun“, “The Burning Darkness“, “The Red in the Sky Is Ours” e “The Beautiful Wound” foram alguns dos temas tocados. Apesar de energética, houve momentos da actuação em que as guitarras soaram um pouco descoordenadas, como aconteceu no início de “The Burning Darkness“. A voz de Tomas Lindberg parecia acusar algum cansaço, mesmo que subtil, na parte final da actuação. O concerto terminou com “Kingdom Gone“, a que se seguiu o maior aplauso da noite.

O primeiro dia do Vagos terminou com o grindcore de Nasum, convidados especiais adicionados ao cartaz. A banda não se deixou desanimar pela redução de público após a actuação de At The Gates, e deu tudo no seu concerto. O primeiro e único em Portugal, tendo em conta que esta foi anunciada como a digressão de despedida da banda. E o público que permaneceu no recinto respondeu ao entusiasmo dos Nasum. Temas como “Shadows“, “I See News“, “Circle of Defeat” e “The Black Swarm” fizeram com que o cansaço do final de um dia de festival da pesada não afectasse o movimento em frente ao palco. Os Nasum partiram com um generoso aplauso do público presente no final do concerto, apesar de por vezes a bateria falhar um pouco nas passagens mais rápidas.

Um dos aspectos negativos mais contínuos ao longo deste primeiro dia do Vagos Open Air 2012 foi o equilíbrio da mistura para o som de frente. Muitas vezes a bateria estava muito alta, sobretudo os bombos e os pratos. Ainda por cima os pratos que compram um bilhete expresso para a deficiência auditiva. Depois houve as questões já mencionadas de instrumentos que não se ouviam ou estavam demasiado baixos. Mas tendo em conta que muita das bandas presentes não levaram o seu próprio técnico de som, é compreensível que se tenham verificado alguns desequilíbrios. É uma tarefa complicada fazer som para bandas cujas sonoridades não se conhece bem. Uma dificuldade que é agravada quando o tempo disponível para preparação prévia e verificações finais antes de começar o concerto é escasso.

Em relação a outro aspecto do festival, as sessões de autógrafos foram anunciadas apenas uma vez por banda através do PA, não estando afixadas noutros locais ou relembradas noutros momentos. Certamente houve quem tivesse perdido a oportunidade devido a uma distracção momentânea.

Numa nota mais positiva, não se notaram grandes esperas dentro do recinto, fosse para comer e beber ou para usar as instalações sanitárias. Fora do recinto, a utilização dos chuveiros e dos pontos de electricidade não foi tanto assim, verificando-se alguma necessidade de esperar para utilizar estes serviços.

Relativamente ao público, apesar de animado durante os concertos, pareceu não ser muito numeroso. Poucas vezes a multidão se estendeu para além da linha da cabine de controlo do som de frente, o que indica um primeiro dia de Vagos Open Air 2012 com uma presença modesta de público, apesar da quantidade de tendas à porta do recinto.

Por Luís Alves