VOA 2019 | Slayer ou Deus Detesta-nos a Todos

VOA 2019 | Slayer ou Deus Detesta-nos a Todos

2019-07-05, Altice Arena, Lisboa
Nero
Thiago Batista
8
  • 7
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Dia de emoções fortes no VOA, com os Moonspell a tornarem a língua portuguesa a grande protagonista do seu alinhamento e a despedida aos leviatãs Slayer. Os Gojira foram demolidores.

Depois de muita polémica e muitos rants e opiniões sem qualquer fundamento, aquelas coisas típicas das redes sociais, o VOA aconteceu mesmo na Altice Arena. Será impossível que toda a gente fique plenamente satisfeita com esta opção de última hora e há que perceber isso. Quem tinha toda a logística de viagem definida, campismo ou outro tipo de estadia e comodidades, tem que enfrentar algumas contrariedades. Todavia, nunca se percebeu qualquer hostilidade do público durante o festival (pelo menos de um modo geral). E isso estará relacionado com esta pronta solução da Prime Artists, de mudar o festival para a infame Altice Arena.

O conforto em relação ao Restelo é óbvio (não pretendendo afirmar que seriam melhores os concertos ou piores) e o som naturalmente (deixem-se de pseudo mitologias urbanas) também, não havendo oscilações provocadas por ventania e existindo um efeito de compressão natural, expondo-nos mais aos decibéis vindos de palco do que aconteceria ao ar livre, ainda para mais numa área urbana.

No segundo dia, a Arena não encheu até às quase 20,000 pessoas do dia anterior, mas não esteve longe. O som não esteve tão bom como no primeiro dia do festival. Houve bastantes oscilações no concerto dos Moonspell, o PA foi abaixo durante a demolidora demonstração de força dos Gojira e esteve bastante embrulhado, em várias ocasiões, no concerto dos Slayer.

LATIM

Quando entrámos na Altice Arena, ouvia-se “Em Nome do Medo”. Depois “1755” e “In Tremor Dei”. Os Moonspell estavam a tocar em casa e o recente álbum “1755”, com as suas exuberantes orquestrações, esteve em claro destaque no alinhamento, colocando em evidência a língua portuguesa. Num concerto em que nos pareceu que a banda enfrentou também condições que não eram as ideais na monição de palco, o que motivou alguns contratempos, os portugueses deram provas da engrenagem oleada em que se tornaram, com o frontman Fernando Ribeiro a liderar a interacção com a Arena. O alinhamento curto conseguiu viajar a clássicos como “Opium”, “Alma Mater” (berrada a plenos pulmões pelo público) e, claro, “Full Moon Madness”. Todavia, foi mesmo uma das mais recentes, no caso “Todos Os Santos”, que conquistou o título de melhor momento do concerto. Os Moonspell anunciaram ontem duas datas com os Rotting Christ no nosso país e essa ocasião será uma melhor oportunidade para, com uma produção mais desenvolvida, podermos ouvir essa história sobre o grande terramoto lisboeta.

É incrível perceber a evolução que, em menos de uma década, os Gojira tiveram. A proposição estética dos franceses sempre deixou perceber que, a cada disco, procuravam aumentar a força de cada uma das notas, batidas e riffs da sua música, e essa intenção foi concretizada no concerto do VOA com um poder avassalador. Foi impressionante ouvir temas que, com o auxílio da iluminação, soaram colossais. Temas como “Terra Inc”, “L’Enfant Sauvage” ou “Shooting Star”. Os irmãos Duplantier estiveram em natural destaque, mas o baterista roubou o protagonismo ao frontman. Mario Duplantier teve uma performance capaz de rivalizar com aquela com que Danny Carey brindou a Altice Arena, poucos dias antes, no concerto dos Tool.

Dez anos passaram desde que os Lamb Of God pisaram solo nacional pela última e única vez. Foi no longínquo Optimus Alive de 2009. De lá para cá o percurso da banda foi algo marcado por altos e baixos, desde a detenção do vocalista Randy Blythe em 2012, após ter sido acusado do homicídio de um fã num concerto de Lamb Of God, em Praga, em 2010, até ao seu regresso à banda em 2014, para gravar o álbum “VII: Sturm und Drang”. À semelhança do que tem vindo a acontecer na tour de despedida dos Slayer, os Lamb Of God antecederam mais uma vez os Deuses do Thrash e com uma energia notável colocaram a Altice Arena a mexer logo com a primeira música “Omerta”. Com riffs pejados de groove, a invocar até um pouco os Pantera, não fossem eles os reis do proclamado Groove Metal, o grupo da Virginia conseguiu apresentar uma actuação sólida e bastante representativa de quase todo o catálogo da banda. Randy Blythe é aquele típico frontman que não pára quieto, sempre a puxar pelo público e incentivando-o ao mosh e a cantar. O concerto terminou com o que para alguns foi o momento mais marcante de todo o festival, um gigante circle pit a pedido de Blythe para acompanhar a última malha, o clássico “Redneck”. Com crowdsurfing à mistura o Altice Arena virou um autêntico campo de batalha, que nem as supostas proibições da promotora ou da entidade gestora da Arena contra o mosh conseguiram travar. O aquecimento estava feito para Slayer, agora esperamos que os Lamb Of God não demorem mais dez anos para regressar ao nosso país.

FINAL WORLD TOUR

Foi no início de 2018 que os Slayer anunciaram a sua digressão de despedida. Os fãs foram surpreendidos com a notícia de que uma das maiores e mais importantes bandas de sempre do metal pretendia dar por encerrado o seu brilhante percurso. Depois da morte Jeff Hanneman, em 2013, especulou-se sobre o futuro da banda. Hanneman foi um dos fundadores dos gigantes do thrash metal. Em 1981 conheceu o outro guitarrista da banda, Kerry King, quando ambos participaram numa audição para uma banda. Tendo partilhado interesses comuns na estética musical, recrutaram o baixista Tom Araya e o baterista Dave Lombardo, o line-up que formaria o nome mais brutal das bandas a que se designou “Big Four”. O seu trabalho nos Slayer tornou-se uma referência, com riffs que se imortalizaram na história do heavy metal, bem como a forma como ele e Kerry King solavam alternadamente nos temas. Tanto para o público, como para milhares de outros músicos, os Slayer são (e serão sempre) um dos nomes mais emblemáticos do movimento thrash.

A banda ainda conseguiu manter a sua vivacidade por mais meia década. Cancelou os planos de um último álbum e optou por outro rumo. Decidiram embarcar numa tour de despedida quando ainda estão no topo da sua forma. A digressão arrancou a 10 de Maio desse ano de 2018, foi registando lotações sucessivamente esgotadas nos Estados Unidos e na Europa, e chegou a Portugal, ontem, no dia 5 de Julho de 2019. Os thrashers californianos, Tom Araya no baixo e na voz, Kerry King e Gary Holt (o impetuoso músico que personalizou o acabamento da sua ESP com o seu próprio sangue) nas guitarras e Paul Bostaph na bateria, escolheram a décima edição do VOA para se apresentar pela última vez em Portugal.

Se tem sido outro qualquer concerto, seríamos mais duros na sua avaliação. A banda esteve distante de uma prestação sólida como aquela no Coliseu dos Recreios há um par de anos, por exemplo. Mas esta foi, antes de tudo, uma noite de emoções à flor da pele. Em primeiro lugar, para os músicos. E foi evidente a forma contemplativa como Tom Araya ia olhando para a Arena ao barrote. Em segundo lugar, para tantos que ali estavam com a sensação de que terá sido mesmo a última vez que teve a oportunidade de berrar alguns dos mais venerados hinos de destruição como “War Ensemble”, “Chemical Warfare” ou aquela imponente demonstração de poder já perto do final, através de “Seasons In The Abyss”, “Hell Awaits”, “South Of Heaven” e “Raining Blood”. Esse segmento ficará gravado a fogo na memória de cada um dos headbangers (veteranos ou novatos) que esteve nesta edição do VOA. Quando os Slayer terminaram “Angel Of Death”, a banda despediu-se efusivamente e Araya quedou-se mudo, olhando com atenção cada recanto da Arena, procurando gravar quantos rostos e detalhes lhe terá sido possível, prenunciando que, de facto, não tornará a pisar um palco lusitano. Procurou dirigir algumas palavras finais, mas o sinal do micro já estava cortado. Quando regressou o som, ouviu-se simplesmente «I’ll miss you guys. Adeus».

A Deus? Se os Slayer se despediram efectivamente de Portugal, é porque Deus nos detesta a todos…

SETLIST

  • Repentless
    Evil Has No Boundaries
    World Painted Blood
    Postmortem
    Hate Worldwide
    War Ensemble
    Gemini
    Disciple
    Mandatory Suicide
    Chemical Warfare
    Payback
    Temptation
    Born of Fire
    Seasons in the Abyss
    Hell Awaits
    South of Heaven
    Raining Blood
    Black Magic
    Dead Skin Mask
    Angel of Death